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Centeno. Ronaldo das Finanças começa a preparar a sua sucessão

Centeno. Ronaldo das Finanças começa a preparar a sua sucessão

Pool/Lusa Sónia Peres Pinto 12/06/2020 08:50

O ainda ministro das Finanças apontou para um “novo ciclo” no Eurogrupo tanto em termos de liderança, mas também de políticas. Em relação à sua saída confessou: “Tudo o que é bom tem um fim”.

O tiro de partido para a eleição do novo presidente do Eurogrupo já foi dado. Ontem Mário Centeno liderou a penúltima reunião, depois de ter anunciado na terça-feira que ia abandonar a pasta das Finanças e que não se iria candidatar a um segundo mandato de dois anos e meio, em que o testemunho vai ser passado em julho. “Tudo o que é bom tem um fim”, foi desta forma que anunciou a sua despedida na reunião do Eurogrupo, mantendo-se em funções até ao dia 12 de julho. Para já, a ministra da Economia e Finanças de Espanha, Nadia Calviño, o ministro das Finanças da Irlanda, Paschal Donohoe e o ministro das Finanças do Luxemburgo, Pierre Gramegna são os nomes apontados para o suceder.

Antes do início do encontro, Centeno antecipou um “novo ciclo” não só em termos de liderança, mas também de políticas. A mensagem foi passada nas redes sociais e aproveitou ainda para lembrar que agora é “altura de proteger o euro de estratégias divergentes”, acrescentando também que é importante “assegurar que as perspetivas da Zona Euro são tidas em conta na forma como vamos gastar os novos recursos”, apontando para o acordo do pacote de emergência de 540 mil milhões de euros de apoio a famílias, empresas e países.

 

Liderança Mário Centeno chegou à liderança do Eurogrupo em janeiro de 2018. A reforma da zona euro e a concretização do aprofundamento da União Económica e Monetária e da União Bancária foram as suas políticas de bandeira, mas dois anos e meio depois, deixou a sua missão por cumprir. A desconfiança inicial – por ser titular da pasta das Finanças de um novo Governo de geringonça, apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda e com a aposta em reverter a política de austeridade levada a cabo pelo Governo de Passos Coelho – deu lugar à consagração, em parte, por ter posto as contas portuguesas em ordem.

Recorde-se que, nos seus primeiros meses em funções, o Governo teve como principal missão em Bruxelas lutar contra as anunciadas sanções a Portugal, devido ao défice excessivo, de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB), registado no final de 2015, tendo a Comissão Europeia acabado por desistir das sanções em julho de 2016. Centeno conseguiu encerrar não só o dossiê de Procedimento por Défice Excessivo sob o qual o país se encontrava desde 2009, como as agências de notação financeira começaram a melhorar a sua avaliação da dívida soberana portuguesa.

Trabalhos esses que levaram, em maio de 2017, o alemão Wolfgang Schäubl a batizá-lo de “o Ronaldo do Ecofin”.

No seu currículo está o anúncio de um acordo “histórico” com as autoridades gregas – no final de uma maratona negocial – sobre a conclusão do terceiro programa de assistência à Grécia, consumada em agosto, e que, nas palavras do próprio, representou o “final dos últimos resquícios da crise do euro”, já que pôs fim ao ciclo de resgates a países na zona euro no quadro da crise económica e financeira, entre os quais Portugal (2011-2014).

Mas o que irá manchar mais a sua passagem pelo Eurogrupo será a profunda crise provocada pela pandemia da covid-19, que ainda não é possível avaliar o seu real impacto, apesar das projeções tanto do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu não serem nada animadoras. Se a primeira entidade aponta para uma queda da zona euro na ordem dos 7,5%, a segunda fala numa recessão de quase 9% já este ano.

 

Longe de gerar consenso

Apesar de ter posto as contas em ordem e ter alcançado, pela primeira vez, o primeiro excedente orçamental da história da democracia (0,2% do PIB), nem sempre o seu trabalho criou consenso. A par das dúvidas por parte dos credores internacionais em relação à estabilização do setor financeiro, com a resolução do Banif e a reestruturação da Caixa Geral de Depósitos (CGD), uma das primeiras “guerras” nacionais girou em torno dos salários da administração do banco público, o que acabou por levar António Domingues a bater com a porta. Face à polémica criada, Mário Centeno viu-se “obrigado” a dizer que o seu lugar estava à disposição “desde o dia em que assumiu funções”.

Também internamente houve quem duvidasse das capacidades do ministro das Finanças. Carlos César chegou a admitir que não o escolheria para ser “orador num comício”, uma afirmação a que Centeno disse apenas: “O exercício de governação não é um comício”.

A injeção em torno do Novo Banco acabou por estalar o verniz entre o ainda ministro das Finanças e António Costa, levando Centeno várias vezes a garantir que a transferência de 850 milhões de euros para a instituição financeira liderada por António Ramalho não tinha sido feito à revelia do primeiro-ministro.

“Eu continuo a ser ministro das Finanças de Portugal, e isso é uma enorme diferença face a outras situações com as quais esta eleição possa ser comparada. Traz para o país uma distinção que nenhuma outra até hoje tinha trazido.” 04-12-2017 “Portugal é um dos mais importantes ‘case study’ na Europa nestes dias 12-01-2018 “Enquanto presidente do Eurogrupo, recomendaria a todos os países da área do euro manterem o excelente trabalho que tem sido feito em cada um desses países no sentido de promover a estabilidade das contas públicas, a estabilidade do sistema financeiro e a melhoria da competitividade da área do euro 20-02-2018 “A Europa vive o maior e mais sustentável e prolongado período de recuperação económica das últimas décadas 09-05-2019“Eu continuo a ser ministro das Finanças de Portugal, e isso é uma enorme diferença face a outras situações com as quais esta eleição possa ser comparada. Traz para o país uma distinção que nenhuma outra até hoje tinha trazido.”

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