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Complexidade da vida humana, presente nas suas metamorfoses

Complexidade da vida humana, presente nas suas metamorfoses

Pedro Miranda 09/06/2020 21:04

Há um nosso lado mostrengo que recusamos ver – e que fechamos a sete chaves no sótão, mas sem o iluminar, sem o reconhecer, dificilmente o domesticaremos e lhe ganharemos a luta. E, por outro lado, confortável é pensarmos que monstros são os outros, em especial os Hitlers, que imaginamos não pertencerem à mesma espécie, só para não pensarmos na hybris – desmesura – de que somos capazes.

O que dizemos quando dizemos “eu”? A questão demanda tanto uma resposta filosófica, quanto psicológica: poderíamos afirmar, com Maria Luísa Pedroso de Lima (em Nós e os outros. O poder dos laços sociais, FFMS, Lisboa, 2018, p.19), que as identidades pessoais (o “eu”) podem ser vistas como as histórias que construímos e contamos acerca de nós e que definem quem somos para nós e para os outros. E são histórias, porque têm muito de ilusório, de inventado e de reconstruído a posteriori (este “inventado”, “ilusório”, “reconstruído” não significa mentir deliberadamente; significa que as histórias por que passámos são interiormente interpretadas e configuradas de certo jeito, a que chamamos nosso; é o modo como vemos, como pensamos que as coisas foram; Kant distinguia, de resto, entre númeno – as coisas em si, a que não temos acesso – e fenómeno – as coisas como elas se apresentam para nós, como as percepcionamos. Nós pretendemos uma coerência existencial e identitária, quando, na verdade, todos os dias somos, também, diferentes. Então, “eu” sou o (mesmo) Eduardo de há 10 anos? Sim, seria imediatamente tentado a responder, porque passei por um conjunto de experiências que posso apresentar – e para as quais tenho testemunhas qualificadas, a família, os amigos, os colegas – e que a meus olhos se afiguram como um continuum (uma continuidade sem quebra). Mas responderia não, se olhar as fotografias e vir um Eduardo bem mais baixo do que hoje (aos 6 anos), infantil, que via o mundo todo em função de si (tudo a girar à minha volta), que fazia brincadeiras a olhar o canal Panda. Não, ainda, porque, com a idade, mudei face a algumas ideias, ganhei novas convicções, passei a ver o mundo com outras lentes, noto que houve uma transformação. Metamorfose. Assim, porventura quase ousando contrariar os princípios da não contradição – uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo – ou do terceiro excluído – toda a proposição ou é verdadeira ou é falsa, não existindo um terceiro caso – diria que a complexidade da vida humana se manifesta de modo eloquente na metamorfose diária: a cada dia que passa, em realidade, porventura, somos e não somos a pessoa que éramos ontem. Ao que acresceria uma noção que o cientista António Damásio nos dá acerca de como somos que contraria, eventualmente, as nossas intuições que tudo e todos dividam entre bons e maus, num marcado preto e branco, que contraria uma abordagem mais complexificada e exigente sobre o humano, sem cair, em todo o caso na perspectiva de que em todos se manifestam, de modo igual, tendências e comportamentos de sinal contrário: “a maioria dos seres humanos consegue, na verdade, ser brutal, selvagem, dissimulada, interesseira, nobre, tola, inocente e adorável. Ninguém consegue ser tudo ao mesmo tempo, embora haja quem tente. As visões sombrias ou soalheiras da Humanidade continuam intactas na erudição contemporânea” (A estranha ordem das coisas, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2017, p.308).

Com António Damásio, poderíamos, ainda notar, acerca da vida humana e sua complexidade, que “a condição humana engloba dois mundos. Um dos mundos é composto pelas regras naturais da regulação da vida, guiadas pelas mãos invisíveis da dor e do prazer. Não temos consciência dessas regras, nem do que lhes está subjacente; estamos apenas conscientes de determinados resultados a que chamamos «dor» ou «prazer». Não tivemos nada a ver com a criação de regras - nem com a existência das poderosas forças da dor e do prazer - e não as podemos modificar, tal como somos incapazes de alterar o movimento das estrelas ou de evitar terramotos (...) Todavia, existe ainda um outro mundo em que contornámos em parte as condições que nos foram impostas, e inventámos meios culturais de gestão da vida para complementar a variedade básica. Daqui resultaram descobertas sobre os nossos próprios universos e sobre aqueles que nos rodeiam, e daí resultou a capacidade extraordinária de acumular conhecimentos, tanto na nossa memória como em arquivos exteriores. A situação neste segundo mundo é diferente. Podemos reflectir sobre o conhecimento, analisá-lo, manipulá-lo de forma inteligente, e inventar toda uma série de respostas às regras da natureza.  (...) Culturas e civilizações são os nomes que damos aos resultados cumulativos desses esforços. Tem sido tão difícil preencher o fosso que separa a regulação de vida imposta naturalmente e as respostas que vamos inventando que a condição humana se assemelha, frequentemente, a uma tragédia e, talvez menos frequentemente, a uma comédia. A capacidade de inventar soluções é um privilégio imenso, embora propenso a fracassos, e muito oneroso. Podemos chamar a isto «o fardo da liberdade», ou, mais concretamente, «o fardo da consciência». (...) Poderão as sociedades finalmente conseguir introduzir, através de meios seculares ou religiosos, uma forma de altruísmo inteligente e recompensadora que substitua o egocentrismo reinante? (...) Está aqui a grande novidade evolutiva das culturas humanas, a possibilidade de negar a nossa herança genética e exercer o controlo firme sobre o nosso destino, pelo menos temporariamente. [Temos, hoje em dia a] possibilidade de planear uma estratégia mais inteligente do que no passado. Esta abordagem veria como tolice ou mesmo loucura a ideia da razão a dever assumir o controlo, uma ideia que mais não é do que o resíduo dos piores excessos do racionalismo; mas esta abordagem também rejeitaria a noção de que nos devemos limitar a promover as recomendações das emoções - ser gentil, cheio de compaixão, irado ou repugnado - sem que as filtrássemos pelo conhecimento e pela razão. A nova abordagem promoveria a parceria produtiva entre sentimentos e razão, destacando as emoções positivas e suprimindo as negativas. Por fim, rejeitaria a noção das mentes humanas no molde das criações de inteligência artificial” (A estranha ordem das coisas, Temas e Debates, 2017, p.298-314). 

Finalmente, e para concluir, a expressão metamorfose remete, imediatamente, de modo muito claro, para a homónima obra/conto de Franz Kafka: o homem, transformado em monstro de um dia para o outro, sofrendo, pois, uma brutal metamorfose, e que a família fecha a sete chaves num quarto para ninguém ver. Esse monstro em que nos transformamos de um dia para o outro poderia ser o toxicodependente, o alcoólico, o pilha galinhas, o tuberculoso a que de bom grado viraríamos a cara. Mas quem nos garante que o monstro não está, neste momento, a forjar-se no nosso interior? Há um nosso lado mostrengo que recusamos ver – e que fechamos a sete chaves no sótão, mas sem o iluminar, sem o reconhecer, dificilmente o domesticaremos e lhe ganharemos a luta. E, por outro lado, confortável é pensarmos que monstros são os outros, em especial os Hitlers, que imaginamos não pertencerem à mesma espécie, só para não pensarmos na hybris – desmesura – de que somos capazes. Mas sem a pensar inteira e integralmente também não construiremos uma paideia – uma educação, formação completa do humano – capaz de lhe resistir e de cultivar a bondade, a compaixão e a nobreza a que somos chamados. De tudo isto se faz a metamorfose da pessoa – que no seu etimológico, persona, significa máscara.

 

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