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Enfermeiros denunciam: “Tive de lhes mentir para ser testada”

Enfermeiros denunciam: “Tive de lhes mentir para ser testada”

Mafalda Gomes Pedro Almeida 09/06/2020 19:31

Profissionais de saúde do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, dizem existir poucos critérios na realização de testes à covid-19. Mas o Centro Hospitalar de Lisboa Central nega haver falta de testes a enfermeiros.

“No outro dia até tive de lhes mentir para ser testada”. A alegada incoerência na realização de testes de covid-19 aos profissionais de saúde no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, tem sido apontada por enfermeiros como uma das principais falhas do Serviço de Saúde Ocupacional (SSO). “Consternados” e à procura de dias melhores, mostram-se descontentes com a situação que vivem atualmente – falta de critérios nos testes realizados – e procuram por isso denunciar aquilo que dizem que pode pôr em causa a sua saúde e a dos outros. Ao i, uma enfermeira daquela unidade hospitalar, que não quis ser identificada, revelou que sentiu a necessidade de inventar sintomas para ser testada, depois de ter estado com uma funcionária do serviço de limpeza que acusou positivo ao novo coronavírus.

“A Saúde Ocupacional não nos testa se não apresentarmos sintomas. Eu até poderia estar positiva, mas como não tenho sintomas não sou testada. E temos de mentir. Para me sentir bem com a minha consciência a prestar cuidados e mesmo para estar com a minha família, tive de dizer que apresentava sintomas que não eram reais para ser testada. E assim consegui, mas só dessa forma é que foi possível”, relatou, indicando que mais de 15 funcionárias do mesmo serviço deram positivo à covid-19 “no espaço de uma semana”.

“A nossa senhora da limpeza fez dois testes negativos e o terceiro deu positivo. E ela partilha espaços comuns. Só temos uma casa de banho no serviço e a zona de refeição também é partilhada. Dá-se às vezes o caso de nós estarmos a comer e ela estar a limpar. Apesar de estar a usar máscara, nós não estamos porque estamos a comer e pode haver projeção de gotículas”, disse, reforçando o que outra enfermeira da mesma unidade hospitalar – que pediu anonimato – alegou. “Há colegas que são testadas e outras não”, explicou.

E o questionário que é feito pelo SSO também tem sido alvo de críticas negativas por parte dos profissionais de saúde. Uma enfermeira – que também não quis ser identificada – do Centro Hospital de Lisboa Central (CHLC), que engloba seis unidades hospitalares na capital, assumiu ao i que as questões que são colocadas pelo SSO não são claras.

“Neste momento não temos critérios para sermos testados. E não têm os mesmos critérios de avaliação. Tem-nos consternado imenso. Não percebemos porque é que não podemos ser todas testadas quando nos aparecem casos positivos e diariamente. No questionário que nos fazem, a algumas – porque a outras nem sequer fazem –, perguntam se estivemos com casos positivos a menos de dois metros de distância durante mais de 15 minutos e sem máscara. Como é óbvio, utilizamos proteção individual, mas o material pode desgastar-se e esse não pode ser o único critério, porque há pessoas assintomáticas”, confessou, dando também um exemplo de uma funcionária do serviço de limpeza que testou positivo e não apresentava sintomas.

“Fui fazer o teste. Disse que estive com ela numa sala, que ambas usámos equipamento, mas que efetivamente estive a conversar com ela. Até a alertei para o facto de ajustar a máscara na boca. Perguntaram-me se eu tinha algum sintoma. Disse que tinha apenas uma tosse esporádica. No entanto, como também sou uma pessoa de risco pela medicação que faço, se calhar deveria prevenir alguma coisa. A Saúde Ocupacional ainda disse que o risco seria quase nulo e eu apenas respondi que ficava ao critério deles, um pouco em tom de ameaça. Ainda por cima sendo uma pessoa de risco e a trabalhar diariamente com crianças e pais”, confessou, dizendo que só no dia seguinte foi chamada para fazer o teste. “Nesse dia, estava a trabalhar de manhã, fui fazer o teste e houve colegas minhas que também foram trabalhar e não foram testadas. Ligaram à Medicina do Trabalho e disseram-lhes que não estavam na lista e que não tinham critérios. Perguntámos que critérios e não nos souberam responder”, rematou.

 

Falta de condições

Mesmo em termos de instalações, há enfermeiros que defendem que existem situações com as quais não concordam nas unidades hospitalares em Lisboa. Nesta em particular, não identificada mas também pertencente ao CHLC, a divisão das urgências tornou-se um problema.

“Estamos com falta de condições. Tinham dividido as urgências entre pessoas que pudessem ter sintomas de covid-19 e outro tipo de urgências. E neste momento, numa fase precoce, voltaram a unir urgências. Isso tem sido um problema pelo menos no nosso serviço, uma vez que juntamos meninos com outras patologias com meninos que estão a entrar e a sair. Podem pôr em causa o facto de poderem contaminar mais facilmente os outros utentes que lá estão”, referiu uma enfermeira ao i.

 

Testes a enfermeiros

Questionado pelo i sobre as denúncias que foram feitas, o CHLC defendeu que todos os profissionais de saúde são devidamente avaliados pelo SSO, negando que há falta de testes e reforçando que, em alguns casos, os profissionais são testados repetidamente.

“Todos os profissionais com contactos próximos a doentes ou profissionais infetados a covid -19 são avaliados pelo SSO do CHLC através de inquérito epidemiológico para definir se são contactos de alto risco ou baixo risco. Caso sejam considerados contacto de alto risco, são isolados e testados para o SARS-CoV-2. Os contactos de baixo risco ficam sob automonitorização com supervisão do SSO. Não existe falta de testes. Os testes são realizados na medida da disponibilidade dos profissionais”, foi assegurado.

O i também tentou contactar o conselho de administração do Hospital Dona Estefânia, mas sem sucesso.

 

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