26/11/20
 
 
Sonic Boom. “Com estas músicas, gostava de promover uma experiência mais saudável e positiva com o ambiente”
Peter Kember

Sonic Boom. “Com estas músicas, gostava de promover uma experiência mais saudável e positiva com o ambiente”

Peter Kember Bruno Gonçalves Hugo Geada 05/06/2020 15:40

Membro fundador dos influentes Spacemen 3 e produtor de discos como Congratulations, dos MGMT, ou Panda Bear Meets the Grim Reaper, de Panda Bear, o inglês Peter Kember, refugiado em Sintra desde 2015, lança agora o seu primeiro álbum a solo, All Things Being Equal, em 30 anos, um disco sobre a forma como o homem convive com as natureza.

Longe estão os dias de controvérsias e loucura dos Spacemen 3. Peter Kember é um homem diferente. O inglês recebe o i em sua casa, em Galamares, Sintra, com um sorriso. Pergunta se queremos café e deixa-nos ficar à vontade no seu sofá. Contudo, não nos deslocámos até aqui só para apreciar a vista para a serra da sua casa ou para falar da sua infinita coleção de discos  (apesar de também haver tempo para isso). Estamos aqui para falar sobre o seu mais recente disco a solo, All Things Being Equal, o primeiro em 30 anos e assinado com o seu nome artístico, Sonic Boom. Mas, primeiro, queremos saber como o músico e produtor sobreviveu à pandemia.

Como foi a sua quarentena?

Dois dias depois de ter sido declarado o estado de emergência, fui ver um amigo a Lisboa e foi a vez que mais gostei de estar lá. Não havia ninguém nas ruas. Para mim, era a Lisboa ideal. Foi incrível experienciar a cidade sem todo o barulho. Mesmo aqui em Sintra. Eu e a minha mulher fomos até à serra e não havia ninguém por lá. Consegui tirar imensas fotografias sem aparecer ninguém no fundo. 

Como ocupou o seu tempo livre?

Passei muito tempo no meu jardim, tive de trocar a relva de um dos meus relvados. Também fiz muita promoção para este disco [All Things Being Equal] e trabalhei em videoclipes. Desde que a quarentena começou fizemos cinco vídeos, todos com pessoas diferentes. Só o da Just Imagine é que foi feito aqui, os outros foram em sítios diferentes. 

Sintra inspirou as músicas que fez?

Não tanto no som, foi mais a nível visual. Usámos filmagens de fenómenos naturais que captámos aqui perto, de nuvens ou ondas. Em termos de som gravei alguns do meu quintal, como insetos e o comboio que passa aqui à frente, mas acabei por não os utilizar. Foi mais à base de eletrónica.

Foi à base dos seus sintetizadores?

Sim, usei vários teclados analógicos para a estrutura principal das músicas, com sons frenéticos. Queria construir músicas que, apesar de não terem muitas partes, todas fizessem algo útil. Alguns dos instrumentais são de quando ainda vivia em Rugby, em Inglaterra. Quando me mudei para Portugal, ainda precisei de alguns anos para me reajustar e decidir que queria acabar este disco. Gosto quando tenho tempo para me esquecer do que estava a fazer e depois posso regressar e voltar a ouvir o que estava a fazer: é uma boa forma de apurar os instintos e perceber o que é bom ou não.

Como é lançar um álbum e estar impossibilitado de o apresentar ao vivo?

Sou uma pessoa que prefere ficar em casa. De vez em quando tenho de fazer concertos, faz parte do ritual de apresentar música nova, mas não me preocupa muito. Fico em pânico quando tenho de fazer este tipo de coisas. Só o pensamento de voar deixa-me inquieto. Nestes últimos anos até tenho tentado fazer as minhas turnês numa van, ainda por cima na Europa, onde podemos conduzir sem fronteiras. Desfruta-se muito mais da viagem porque posso ver muito mais do que quando estou num avião. Sinto que é um ambiente mais seguro. Já apanhei doenças em aviões antes. Chegava a um ponto em que, se caminhasse do meu quarto até à casa de banho, entrava em pânico porque não conseguia respirar. 

É mais um músico de estúdio do que de tocar ao vivo?

É importante fazer ambas as coisas, mas eu já fiz tantos concertos ao longo dos anos... para mim, agora, dar concertos é estar o dia todo sentado, fazer um concerto durante uma hora e viajar para a próxima sala. Gostava mais quando era novo e tudo era novo. Atuo muitas vezes nos mesmos sítios, a alguns gosto de regressar, mas muitos que adorava quando era mais novo não melhoraram, apenas ficaram mais ocupados e com uma vibe pior, o que é algo deprimente de se ver, quando os locais de que gostamos mudam para pior. 

Gosta de atuar em festivais?

Não. Acho que poucas bandas gostam, a não ser que sejam uma banda grande o suficiente e que tenha muitas canções que deem para acompanhar com o público, mas sinto que não faz muito sentido se for uma daquelas bandas que estão habituadas a tocar em caves e depois têm de se arrastar para a luz do sol. Acabo por fazer festivais, mas nunca tive boas experiências lá, enquanto espetador ou músico. 

Se pudesse escolher um sítio para apresentar este disco, qual seria?

Existe um sítio na Cidade do México, chamado Teatro Fru Fru, que é uma trip. Foi construído por um presidente mexicano [Porfirio Díaz], que o mandou construir para a namorada, que era uma dançarina de burlesco. O interior foi construído num estilo barroco insano, com muitos espelhos. Não tem uma entrada, é apenas uma porta simples por onde se pode entrar.

E em Portugal, onde gostava de tocar? Ponderava atuar na Culturgest?

Eles convidaram-me para fazer um concerto lá, mas tenho as minhas reservas. Não gosto muito que seja propriedade de um banco. Até tem um bom sistema de som, os concertos soam sempre muito bem... mas a vibe da audiência é sempre estranha, sinto que estão sempre muito autoconscientes e sóbrios. Eu já apresentei este disco duas vezes, de uma ponta à outra, uma vez no Chile e outra em Utreque. Nunca tinha feito concertos nesse formato. Sinto que nunca tinha sentido que tinha um álbum suficientemente forte para o fazer e, normalmente, as pessoas querem ouvir as músicas antigas. Mas acho que este álbum está conciso e, depois do primeiro concerto em que o toquei na íntegra, senti pelas reações que ia safar-me ao fazer isso e que o material era suficientemente bom para o fazer. Agora, os concertos vão acontecer muito depois de o disco ter saído, o que é perfeito, porque a primeira vez que se ouve algo tem um certo impacto, mas quantas mais vezes ouvirmos vamos descobrir outras coisas. Para mim, uma das coisas mais importantes na vida são as experiências e os bons momentos que temos com a música. Sempre que voltarmos a ouvir vamos recordar-nos deles e criamos uma ligação emocional mais forte com a música. Eu sei quão ligado sou a música e sei os sentimentos que me desperta, e gosto quando isso também acontece quando ouvem a minha música. 

Sinto que alguns dos títulos deste álbum são inspirados pelos Beatles, por exemplo, a primeira faixa, Just Imagine.

Obviamente conheço a Imagine do John Lennon, mas quando escrevi a letra não considerei isso. Mostrei a música à Sam, a minha mulher, estava muito satisfeito com a letra, ela leu a primeira linha e disse-me: “Não podes usar a palavra imagine, o John Lennon já fez uma música chamada Imagine”. Depois fui ver o Noah [Lennox, nome real do músico Panda Bear] e, antes de dizer o quão estava satisfeito com a música, ele disse-me: “O John Lennon é a palavra imagine”. Mas penso que o John e a Yoko Ono não se atreveriam a intitular-se donos da palavra imagine, isso seria contra o que a música representa. Por isso, decidi que ia definitivamente usar esta palavra. Uma das críticas que li disse que a minha música era melhor que a dele. [risos] Também já comparam o nome do título com o álbum do George Harrison All Things Must Pass, de que sou muito fã, mas não acho que sejam parecidos, com exceção de My Sweet Lord, que é mais virada para o espiritualismo. Sinto que os Beatles fizeram coisas incríveis, todas as pessoas conhecem o Imagine, mas não sabem o que se está a passar com a letra. Dizer em 1971 “Imagine there’s no heaven/ It’s easy if you try” é muito poderoso tendo em conta que, anos antes, ele tinha dito que os Beatles “eram maiores que Jesus” e as pessoas ameaçaram-no de morte. Ou dizer “Imagine there’s no countries/ It isn’t hard to do”, acho que é uma ideia brilhante. Eu não acredito em terrenos soberanos, acho que não faz sentido, nós vivemos num único planeta e temos de parar de nos dividir e de lutar por territórios. Sinto que eles os dois lançaram álbuns muito bons e espirituais que colocaram muita magia na vida das pessoas e, para mim, foram uma grande influência. 

Ouviu Beatles durante toda a sua vida?

Eu tive várias fases de Beatles. Quando era miúdo gostava muito das primeiras músicas, mais viradas para o rock ‘n’ roll. Ainda me lembro quando Yellow Submarine era uma música que todas as crianças cantavam no recreio. À medida que fui envelhecendo deixei esses álbuns de parte, estava mais interessado no White Album e nos seus últimos álbuns, mais profundos, menos viradas para a pop. Nos anos mais recentes aproveitei para conhecer melhor os que tinha ouvido menos vezes e agora gosto de ouvir todos. Tive muita sorte com a música com que cresci. Os meus pais tinham dois álbuns dos Beatles em casa: um era o With the Beatles e o outro era o White Album, que, apesar de ter alguns hits, como Hey Jude, é um álbum bastante pesado, com samples, experimentação e um toque avant-garde. Sou muito fã do período psicadélico, nem tanto do Sgt. Peppers, mas gosto muito de Magical Mistery Tour e da soundtrack do Yellow Submarine. Tem uma música chamada It’s All Too Much que é uma grande malha. Sempre que faço DJ sets passo essa música. As pessoas perguntam-me: “Quem são esses?” E eu respondo: “São os Beatles!” [risos]. E as pessoas ficam sempre surpreendidas. Nessa altura, eles estavam a tornar-se mais sofisticados e melhores compositores. Adoro o Revolver, talvez seja o meu álbum favorito deles.

Qual é o seu Beatle preferido?

Gosto muito do trabalho a solo do John, do George e de algumas coisas do Paul. Sempre achei que ele tropeçava quando fazia as músicas com os Wings. Metade da música é muito boa mas, depois, ele introduzia uns elementos de reggae ou um pastiche estranho que me deixam a pensar “estavas tão perto de fazer algo incrível”. Acho que algumas das minhas músicas favoritas são escritas pelo Paul e ele é um ótimo baixista, mas, tal como também, às vezes, sou sujeito, odeio estas comparações entre músicos. Não há ponto de comparação, cada um tem o seu próprio estilo. Se só pudesse escolher uma discografia a solo para ouvir, teria de escolher a do John. Consigo ouvir todos os álbuns dele e sou especialmente fã de Double Fantasy.

A Just Imagine tem algum tipo de influência do John Lennon?

Esta música é sobre como existem indivíduos que, no geral, se moldam baseando-se em duas coisas: no castigo e no incentivo ou a evitar o castigo e o incentivo. Sinto que na humanidade existem qualidades mais importantes. Devíamos ser mais motivados e inspirados porque sabemos que é a coisa certa e queremos fazê-la porque nos sentimos bem a fazê-la. A imaginação tem uma grande papel nesse processo. Além disso, uma vez li um texto sobre uma criança que tinha cancro e estava internada no hospital, mas todas as noites, antes de dormir, ela imaginava-se como uma nuvem e, através da chuva, eliminava todas as suas doenças. Esse era o seu último pensamento todas as noites, que se liga à frase: “Just imagine that you’re a cloud/ Just imagine don’t say it out loud”. A natureza tem um papel muito importante neste disco e os humanos tratam-na bastante mal, e às vezes esquecem-se de que todo o oxigénio do planeta e o que comemos vem das plantas. Daí a linha: “Just imagine you’re a tree”.

E quanto ao resto do disco? Pode falar das outras faixas?

Just a Little Piece of Me é sobre a simbiose com a natureza. É um bocado inspirada pela forma como me sinto quando olho para árvores muito grandes. Há uma avenida aqui perto onde as árvores se inclinam para a estrada, é uma visão muito bonita. Não consigo conduzir lá sem ficar pasmado com a beleza da rua. Uma das coisas que penso quando conduzo nessa rua é que a pessoa que plantou estas árvores nunca desfrutou de as ver neste ponto, foi algo para as gerações futuras aproveitarem.

As plantas ocupam um espaço muito importante neste disco.

Sim. Em Things Like This (A Little Bit Deeper) abordo um pouco a crença de como as plantas e o planeta estão num ponto de colapso. Sempre achei estranha a forma como destruímos o nosso planeta e o levámos a um ponto de exaustão. Neste momento não existe uma solução fácil, já as gastámos todas. Com estas músicas gostava de promover uma experiência mais saudável e positiva com o ambiente, mas vai ser uma subida complicada. No entanto, vai valer a pena. A vista vai compensar essa subida.

Sente que se não estivesse rodeado pela natureza não tinha feito este tipo de disco?

Mudei-me para aqui precisamente por essa razão, queria estar na natureza. Quando comecei a fazer a estrutura principal do disco nos sintetizadores, antes de toda esta temática em torno das plantas, queria que soasse de uma forma mais orgânica, e que não tem de ter um som frio, pode transbordar de emoções. Quando comecei a trabalhar no quintal, a plantar ou a tratar da vegetação, reparei que entrava num estado diferente, quase como uma claridade psicadélica da mente de fazer coisas aparentemente insignificantes. Comecei a escrever letras e este tema começou a fazer sentido. 

A letra de Spinning Coins and Wishing On Clovers é um pouco minimalista.

Esta música é sobre aquele momento mesmo antes de morrermos em que, supostamente, recebemos uma dose massiva de DMT no cérebro e os momentos mais importantes da nossa vida são reproduzidos na nossa cabeça. Sempre pensei quais seriam as minhas imagens. Nem toda a gente tem orgulho de tudo aquilo que fez na sua vida, por isso tentei imaginá-las. “Spinning those coins over and over/ Put my faith on a four leaf clover” tem toda esta simbologia de sorte e azar que acho que acompanhou toda a minha vida, e gosto disso. Por exemplo, ainda hoje saí de casa de manhã só para ver o que acontecia. Às vezes, as coisas mais inspiradoras acontecem quando não se está à espera.

My Echo, My Shadow and Me deve ser a minha faixa preferida do disco, mas é um bocado diferente das restantes.

Neste instrumental queria que houvesse um contraste com o resto do disco - assim podia fazer as outras músicas destacarem-se. É uma daquelas músicas que aparecem do nada e que achei que tinha qualquer coisa muito forte. Ainda estou a tentar perceber sobre o que é esta música. Ela foi inspirada por um CD que um amigo me enviou de spoken word do Baba Ram Dass. O seu nome real é Richard Alpert. Ele e o Timothy Leary foram responsáveis pelas experiencias com LSD em Harvard e, depois de terem sido expulsos da universidade, tornaram-se gurus. Voltando aos Beatles, as drogas psicadélicas ajudaram-nos porque eles tiveram uma vida muito complicada quando estavam na banda, andavam tristes e eram explorados. Acho que o LSD permitiu-lhes descobrir muita coisa. Um psicoterapeuta disse-me que uma trip de ayahuasca era o equivalente a dez anos de psicoterapia. 

I Can See Light Bend também é uma faixa que se destaca imenso, a começar pelo nome, que é bastante visual e psicadélico.

O título original era “Doctor Why” porque, quando a fiz originalmente, achei que tinha algumas semelhanças com o tema de abertura da série Doctor Who. O tema foi concebido pela Delia Derbyshire, que eu conheci pessoalmente e de quem era amigo, e é um momento essencial na música eletrónica. Esta música é inspirada numa trip que eu tive em Joshua Tree no meu 50.o aniversário. Existe lá um sítio de que gosto muito, faz-me lembrar um cenário do Star Trek, e fica num vale. Por isso, quando estás lá, ninguém consegue ver-te e podes ter privacidade total, é um bom sítio para tripar. Eu e os meus amigos tomámos DMT e tive uma experiência visual incrível. Para mim, esta música é sobre sentirmos as nossas perceções afinadas. Por exemplo, a linha “I can hear the light there” é algo que se costuma sentir nessa experiência. Esta é, sem dúvida, a faixa mais psicadélica do disco.

A terminar o disco há I Feel a Change Coming On, uma faixa que tem um tom bastante político.

Essa é uma canção política. Queria criar um hino que inspirasse à mudança e que levasse as pessoas a querer mudar as coisas, a serem melhores, ou a pensar como a educação tem de mudar. Acho que há muitos dogmas na humanidade que construímos mal: ensinamos as pessoas a copiar e devíamos incentivar a imaginação. Há uma história sobre Buckminster Fuller [visionário, designer, arquiteto, inventor dos Estados Unidos]: quando ele era novo, era tão míope que não conseguia ver o que os outros miúdos faziam. Uma vez, a professora dele levou uns tubos e plasticina e pediu para os alunos fazerem formas. Todas as crianças fizeram cubos mas, como ele não conseguia ver, fez uma pirâmide. A professora ficou impressionada porque sempre que ela fazia este exercício, os alunos faziam sempre cubos, mas, como ele não conseguia ver o que as outras crianças estavam a fazer, teve um pensamento original. 

Pensei que este disco fosse inspirado pelo clima político de Inglaterra e do Governo de Boris Johnson.

Acho que o problema não é só de Inglaterra, é global. Boris Johnson, Donald Trump... para mim não há grande diferença. Uma das minhas maiores esperanças com esta pandemia e com todas estas mortes no mundo era que houvesse algum tipo de mudança e outra era que Trump fosse afastado do poder, porque ele é muito tóxico. Quando ele subiu ao poder foi como se estivéssemos a baixar os nossos padrões. De repente, até George Bush parece um Presidente decente. Antes havia Presidentes como Roosevelt, que as pessoas respeitavam porque tomaram decisões inteligentes durante as guerras e as crises. Agora temos este tipo que mente e manipula e faz com que o “campo de batalha” se torne desigual. Tenho muitos problemas com o sistema político, mas estou confiante de que agora vamos assistir a várias mudanças.

Ler Mais


Especiais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×