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Manuel Cintra (1956-2020). Morreu o poeta que se mostrou imprescindível como metáfora

Manuel Cintra (1956-2020). Morreu o poeta que se mostrou imprescindível como metáfora

Vitorino Coragem Diogo Vaz Pinto 04/06/2020 19:43

Encontrado em casa, sem vida, o poeta Manuel Cintra tinha 64 anos e terá morrido no fim-de-semana. Vivia sozinho no Bairro Alto e, de acordo com a amiga Maria Quintans, terá sofrido uma queda, sendo que há anos vivia com a saúde debilitada devido a “graves problemas cardíacos”.

 

Nascido em 1956, em Lisboa, era filho do linguista Luís Filipe Lindley Cintra e irmão do actor e encenador Luís Miguel Cintra. Quanto a ocupações, foi-se virando para os lados que tinha por possíveis como tradutor e jornalista, actor e encenador, mas era um desesperado romântico, tinha uma pedra mal diluída no cérebro e para o que lhe dava mais era para escrever versos. Terá contado certa vez, segundo testemunhou Henrique Fialho, que a sua estreia como poeta na prestigiada colecção da Editorial Presença ficou a dever-se à sugestão de Ruy Belo, que ali viu reunida a sua obra. Do Lado de Dentro foi publicado em 1981, e seguir-se-iam mais duas dezenas de colecções de poemas, muitos deles em edições de autor ou em editoras bastante discretas, quase clandestinas. Sobre a pouca ou, às vezes até ausente, recepção da sua obra, pode agora citar-se com outro vigor um dos seus primeiros versos: “A inércia alheia preenche/ o céu como um formulário”.

“Algumas pedras os escutam”, disse dos poetas que fazem do azar uma espécie de sorte, do andarem perdidos, ao sabor seguido do dissabores, que revelam sempre uma incrível intenção, uma flâmula de uma persistência roçando absurdo. E se é conveniente, também aqui, não exagerar, sempre se pode puxar um retrato mais vasto e ver como Manuel Cintra se integrou num manto romanesco da nossa época e desta capital, com o seu antiquado encanto, e prazeres que não deixavam de estar tingidos de amargura. Uma citação serve o embalo desse personagem, que teve o cuidado de participar, e era vê-lo em tudo o que ameaçasse um vago teor lírico, a galope numa etílica sombra, era vê-lo e pensar: “o que há mais amargo do que passear na rua, ao redor da sua igreja, dos seus paços do concelho e daí retirar a mesma alegria melancólica que se tem ao visitar o Coliseu ou o Parténon ao luar”. Talvez mais ninguém como ele se tenha dado conta de como “tudo estava em ruínas: casas desabitadas (...), com as portadas fechadas, hotéis e salas de cinema requisitados, assinalados por barreiras brancas nas quais se vinha subitamente tropeçar, bares e lojas fechadas durante a duração da peste”...

Quanto à biografia, nesse acaso ou acerto partilhado, essa permitirá a outros a ilicitude maior ou menor de certos devaneios, memórias embebidas, toadas em tom de ajuste de contas. No Facebook, a sua amiga Raquel Nobre Guerra lembra-o assim: “Não era leve não era cool, não se observava na simpatia de todos, vendia poemas na rua, despia-se em saraus líricos, comia batatas fritas do fundo do saco, pedia dinheiros, tinha uma página de poesia, tinha o número de telefone na página de poesia, tinha gatos e cães falava deles como de amigos, lia poemas em toda a parte, incomodava, fazia tropelias, agia sobre os outros como quem via qualquer coisa. Era uma inteligência séria, sincera e bruta capaz de tudo. Tinha sempre uma ponta de febre, um humor digestivo, uma capacidade para o desastre e para o amor a horas muito iguais. Era quase tudo o que pomos de parte na vida real para depois nos refastelarmos com a ideia romântica disso. Liberdade de uma vida franca, não fictícia, aquela que inspira e agita mas que não cai bem neste meio século apatetado de sofredores de histeria sentimental e doméstica, passadores de visões e traduções ordinárias da vida, porcos, políticos, distraídos, confusos, descomprometidos, isentos, mesquinhos, maldosos, vaidosos deste país a meio. Vão-se foder.
Para o poeta, amigo, que teve na vida um grande sonho e a coragem de não faltar a isso. Sofreu, teve paixão, morreu sozinho.”

Aos anónimos que com ele se foram cruzando, sem especial cerimónia, resta a homenagem vaga que se estende entre estranhos que se frequentavam, que respiraram o mesmo ar, mesmo que a temperaturas muito diferentes. Dele, das coisas que escreveu, poderia repetir-se a compassiva frase de Hemingway. “Tu não eras realmente um deles mas um espião no país deles.”

Da sua poesia fica suficiente registo, desde logo, na reunião da sua obra poética com o título “Manobra Incompleta”, publicada em 2017 com o selo da editora Guilhotina. Trata-se de uma poesia vaga, tenteante, algo embevecida, mas convencida da possibilidade de encontrar uma beleza esclarecedora, voltada para o clarão desses “grandes fogos ateados nos confins do mundo”, e mesmo a sua irregularidade, as notas ou degraus falhados, deixavam o testemunho dessa busca desesperada, tantas vezes em queda. “Olhos roucos esboçam gestos,/ acordam bruxas./ São pequenas ervas sobrenaturais./ Bolbos de sangue em terra/ prestes a despontar.”

Era o autor de uma fragilidade imensa, exposta, irrefreada, e se muitas das páginas não sabiam amachucar-se na forma de uma qualquer origami, tinham suficientes achados para permanecer à tona, para que a voz tivesse fosse capaz de uma extensão tocante: “ao fim do dia o eco de carne do som (...) reparo no cansaço digo olá/ reparo páro mudo peças/ enterro a vontade de fugir/ à pancada talvez abata o medo/ que a planta de carne/ de rir esteja máquina/ de dormir”. Faltou-lhe, porventura, que os tantos admiradores que agora se perfilam tivessem feito esse esforço de transformar em sorte o muito azar que se lhe pressente nos versos. Como nessa “crisálida” que surge como os anteriores versos em “Bicho de Sede” (ed. Ulmeiro, 1986): “dissolver o cansaço na aspirina o açúcar a angústia/ a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar/ com cimento, construir// chorar de vez em quando às escuras para a febre descer// polir palavras com escova colocá-las com pinça/ no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,/ deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever (...) afogar em esforço/ a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,/ fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,// permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,/ aprender na lentidão a única saída,/ rápida”.

Fica rasgada em muitos bocados essa folha que o vento vai perdendo e reorganizando, lendo ou uivando segundo os seus humores; restos de palavras, imagens com uma janela própria cada uma, debruçadas, aflitas, e fica ainda o vulto incerto, mais dado a uns, mais esquivo a outros, alguém que vamos vendo descrito deste lado do mundo como de outros, com tantos nomes, tantas bênçãos ou maldições... E esta última rodada fica por conta de Cabrera Infante. “Certas criaturas parecem ter sido criadas pela Divina Providência, pela Natureza ou pelo Acaso com o único propósito de encarnar uma metáfora – que antecederam em éones geológicos ou por toda a eternidade. Como a serpente, por exemplo, ou a pomba, usada até à deformação física, até à sua monstruosa recriação mítica, por diferentes poetas hebraicos que se ocultaram atrás do anonimato bíblico. Outros animais, como a preguiça ou o chacal, personificam através dos seus nomes atitudes morais que, nem seria preciso dizer, lhes são alheias. Do mesmo modo, alguns homens são pouco mais que uma presença metafórica (...) Outros homens são mais presciência que presença e chegam a antecipar em vários anos aquele momento histórico para o qual são imprescindíveis como metáfora.”

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