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Carlos Gouveia Martins 04/06/2020
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

O Paraministro e os parapolíticos.

É a matéria política da semana. O Governo chamou um conselheiro independente, que meritoriamente é Presidente de uma Petrolífera, para ajudar a relançar a economia após a pandemia. Em politiquês, é o chamado Paraministro.

A nomeação de António Costa Silva para assegurar a coordenação dos trabalhos preparatórios de elaboração do Programa de Recuperação Económica e Social 2020-2030 já foi publicada em Diário da República. É oficial, não é só conversa de furos jornalísticos promovidos por qualquer assessor de um qualquer gabinete sediado em Lisboa.

Comecemos, sobre uma de várias matérias de reflexão, por analisar os parapolíticos em torno desta situação da nomeação do paraministro Costa Silva.

A volatilidade de opinião, regra geral consoante a bandeira ou sigla partidária, foi exposta novamente esta semana com esta nomeação de um Conselheiro independente e a mudança de opinião do Primeiro-Ministro António Costa.

Quando, em 2012, o Governo PSD liderado por Pedro Passos Coelho, cujo elenco Governamental era mínimo e não é comparável ao formato de “Governo XXL” atual (já são mais de 70?), nomeou António Borges para consultor em áreas-chave do Estado, o então comentador António Costa achou “um escândalo” e violentamente disse que não gostava de paraministros. Hoje, 8 anos depois, demonstrou que uma das suas qualidades não é a coerência e um dos seus defeitos é a memória seletiva.

Porém, não é caso isolado de parapolítiquês. Tal como muitos tiffosi do atual Governo socialista eram, em 2012, manifestos anti-paraministros e hoje adoram a nomeação de um conselheiro independente como “sinal de abertura à sociedade civil” temos, em campo oposto, muitos social-democratas que hoje acham absurda a solução escolhida pelo Governo para relançar a economia pós pandemia com um português de craveira internacional e vasta experiência no setor privado ao passo que, outrora em 2012, acharam genial a captação de António Borges como sinal de “escolher os melhores”. De facto, a incoerência é evidente da direita à esquerda. A vergonha alheia, essa, também.

Incoerências vindas de São Bento à parte, António Costa Silva já é uma realidade, é oficial, e foi nomeado como novo conselheiro económico do Governo. Ponto final, parágrafo. Há alguma ilegalidade? Não. Por ser pró-bono é desonesto? Os bem intencionados na política dirão que é “serviço público”. Foi escolhido pelo Primeiro-Ministro socialista para coordenar o plano de retoma da economia que vai suportar as opções do país para os próximos anos, tendo surpreendido todos ao afirmar que nos próximos dias já tinha um esboço para apresentar aos portugueses. Se calhar, antes da nomeação, já havia trabalho. Ou então, como qualquer estudante universitário em vésperas de exames, foi muita cafeína e estudo madrugada dentro. Porém, que tenhamos consciência que estes anos que se preparam são dificílimos. Sem necessidade de futurologia, porque a crise mundial é evidente, serão anos financiados por enormes fundos europeus pré-anunciados que carecem de estratégia e capacidade organizativa e prática (mais que a teoria e conversa que muitos ouvidos alegram). Sobre essa capacidade, falemos do novo Paraministro.

António Costa Silva tem muito valor. Basta, em primeira análise, como quem quer forçar o encontro a uma primeira impressão, ler os bons artigos de opinião que há longo tempo escreve. Percebermos que não é só um gestor reconhecido na área petrolífera, tem mundo e experiência internacional. Sabe do que escreve e partilha o que as suas experiências profissionais lhe permitiram adquirir de conteúdo. É manifestamente um gestor de topo que temos “sorte” de saber ser português. Tem propostas concretas, inclusive na economia verde (mesmo sendo o CEO de uma Petrolífera), ou na visão a longo prazo para a restruturação económica. É independente, claramente, com raízes e aceitação da direita à esquerda ideológica. As suas intervenções públicas revelaram sempre uma preocupação com os problemas estruturais da Economia, não apenas com a espuma dos dias como é tradição infelizmente. E, só por olhar “mais à frente”, já traça uma linha que o separa de muitos dos que, sem passagem nenhuma por setor algum, chegam a locais de topo político a troco de caciquismo primário nas suas seções e distritais.

É uma boa escolha do Primeiro-Ministro António Costa e que nos leva a crer, independentemente da cor dos partidos, que deviam existir mais casos de inclusão por meritocracia independentemente dos líderes de Governos.

Não sabemos se Costa Silva estará numa antecâmara para sucessor de Siza Veira na pasta da Economia. Para isso, passemos à política dos corredores. Embora o novo conselheiro tenha dito publicamente que “não quero ir para o Governo”, todos nós sabemos que até hoje raras são as exceções que publicamente disseram que queriam pertencer a um Governo e lá foram parar. Nesse campo, para um universo maioritariamente feito de parapolíticos cheios de incoerências, dizer-se que não se quer ir parar ao executivo é meio caminho andado para de facto chegar a Ministro da Economia. Veremos se será depois da Presidência portuguesa na Europa – quando se pensa vir “a grande remodelação” deste Governo com Centeno à cabeça –  que António Costa Silva dá continuidade à motivação política que o fez, sem acusação, estar três anos como preso político em angola. Posição e ambição política, já tinha. Não se distraiam muito.

Agora pensemos na gestão do Governo sobre esta nomeação.

Alguém ainda acredita, ao dia de hoje, que houve um furo jornalístico que “arrancou” a notícia da vinda de um paraministro da Partex diretamente para coordenar o plano de recuperação económica nacional? Não será que acreditamos todos quex, da mesma forma que o Primeiro-Ministro colocou “cá fora” a notícia da escolha de Costa Silva, foi farinha do mesmo saco da forma como igualmente testou sensibilidades para aferir a mensagem de que os partidos iriam ser ouvidos quando sabia perfeitamente que do BE à Iniciativa Liberal não iam querer nada disso? Era óbvio. Todos os partidos políticos só podiam bater com o pé porque negoceiam com o Governo, com os Ministros e com as regras da democracia. Nesse campo o Primeiro-Ministro não pode brincar no seu tabuleiro bem preenchido de xadrez. António Costa parapoliticou e jogou cá para fora a informação a ver se jogava bem. Em parte, na escolha de Costa Silva, acertou. Na parapolítica com os partidos, testou e não conseguiu ir mais além do que queria. Passou a imagem de conversação quando todo o país atento já percebeu que é um monólogo.

Porém, nem tudo correu de forma tão perfeita ao jogo do Primeiro-Ministro. No espaço de dois dias apenas, o novo conselheiro independente já disse uma coisa e o seu contrário: O gestor afirmou, num dia, que a economia precisa de mais Estado e, no outro, que não tem uma visão estatizante da economia. Em síntese: Parece um parapolítico já feito, daqueles que há muitos, com constantes incoerências e volte-faces de opinião sobre um mesmo tema.

Talvez tenha sido pela pressão das primeiras 48 horas mas, para mal de Costa Silva, já fez um triplo: primeiro foi obrigado a clarificar que não estava a caminho do Governo, depois obrigado foi a dizer publicamente que não mandaria nos ministros e, finalmente, depois da apreensão e negação dos partidos políticos, obrigado a negar que teria responsabilidades de negociações políticas com os outros partidos e parceiros sociais.

Peguemos, para entendermos os paramovimentos do paraministro que parecem as incoerências dos parapolíticos, um exemplo. Na primeira entrevista, dada à televisão pública, Costa Silva afirmou que Portugal precisa de «mais Estado na economia, sob pena da economia entrar em coma».

«Esta crise mostrou que o papel do Estado tem de ser revalorizado», afirmou o novo conselheiro independente do Governo antes de dizer então a assassina frase de "mais Estado na economia" porque, dizia confiante, "este é o único protetor de todo o tipo de ameaças". É o que se pode dizer um mau arranque. Porque se há uma constatação que se pode tirar desta crise é mesmo a de que o país precisa mesmo de mais economia privada, mais capitalizada e com empresas de maior dimensão.

Com o percurso sinuoso que todos os portugueses vão enfrentar nos próximos meses, assim como a crise sem precedentes que as empresas e as famílias já sentem, o menos necessário para as nossas vidas deverá ser mal-entendidos ou parapolitiquices.

Ficará na dúvida se Costa Silva disse o que disse por questões políticas, de aproximação ao eixo ideológico socialista, ou se foi mesmo um introito ou preambulo do plano que irá apresentar em junho próximo. Poderá estar a falar dos milhares de milhões que poderão chegar de Bruxelas cuja gestão e execução será o Estado a fazer? Ou será mesmo que era uma indireta sobre as empresas nacionalizadas com mais Estado a vir a substituir as empresas privadas? Agora fica tudo em suspense.

Seguramente, num país como Portugal onde há tanto Estado a mais, a frase certa talvez fosse mesmo só se dissesse que precisamos é de menos Estado no nosso dia-a-dia e na nossa vida.

Portugal efetivamente necessita, por exemplo (e há tantos), de investimento ferroviário e nos portos, mas isso não significa mais Estado na economia. Significa que o Estado tem de fazer os investimentos para permitir um aumento da produtividade e competitividade das empresas, desde os incentivos ao investimento. O que se espera de Costa Silva é uma proposta de plano que dê espaço às empresas e aos trabalhadores, que liberte a economia do Estado. Percebemos a diferença entre este pensamento e o que disse o conselheiro?

Infelizmente, a cada crise que vivemos a resposta tem sido sempre esta: mais Estado na economia. Associada a esta eterna resposta, sempre anunciada como temporária, mas transformada rapidamente em estrutural, ficamos com dados que nos desanimam sobre este caminho como a carga fiscal de quase 35% do PIB que vivemos. Se o objetivo tácito for aumentar o peso do Estado na economia, não seria necessário recrutar um gestor do setor privado, já há relatórios e planos que chegam e sobram, e bastaria deixar andar a máquina pública, o resultado seria o mesmo.

Esperemos que não seja isso e que haja, de facto, um plano económico arrojado, fresco e diferente para nos fazer chegar a resultados também diferentes dos poucos satisfatórios que tivemos a cada resposta de “mais estado” que demos.

Carlos Gouveia Martins

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