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Carlos Zorrinho 04/06/2020
Carlos Zorrinho
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Estadistas

Quando se fizer a história destes tempos, será dos estadistas que ela rezará. Os oportunistas, egoístas, populistas e medrosos serão apenas um seu lasso rodapé.

Ainda é cedo para extrair conclusões definitivas sobre em que medida cada responsável político fez parte da solução ou parte do problema no desenho das estratégias e das medidas que ajudaram o mundo a enfrentar a pandemia.

O exercício de separação do trigo do joio é fundamental porque, independentemente de virem a verificar-se, ou não, novas vagas pandémicas, a onda da recessão global e a dimensão dos estragos causados vão depender, tanto ou mais do que aquilo que aconteceu na resposta sanitária, da capacidade de liderança e da atitude dos estadistas.

Os que conseguirem ver mais longe, atuar com mais disciplina, ouvir opiniões de mais largo espetro e mobilizar os cidadãos para as respostas necessárias, ainda que muitas vezes difíceis e penalizadoras, serão os mais profundos aliados dos seus povos.

No enfrentamento sanitário, além da entrega heroica dos profissionais e dos voluntários na linha da frente da sobrevivência e da afirmação de um espírito comunitário de colaboração e cooperação nas sociedades que conseguiram melhores respostas, a humildade venceu a arrogância, a empatia suplantou a vaidade, a transparência foi mais eficaz que a opacidade e os líderes populistas, mesmo que ainda pendurados em sondagens que refletem a densidade do espírito de seita que conseguiram disseminar, expuseram-se perante o mundo, despidos de soluções e de credibilidade.

A resposta económica e social constituirá o teste de confirmação, ou não, dos sinais evidenciados na resposta sanitária. A coesão social e política que tem marcado a resposta portuguesa à crise exigirá ainda mais dos estadistas que a conduziram na mobilização do tecido económico e social para aproveitar os recursos nacionais e europeus de apoio à recuperação de forma consistente, integrada, com uma estratégia focada e com indicadores robustos de combate às desigualdades, à exclusão, à pobreza e à rapinagem financeira, através da qualificação e da valorização das pessoas, das empresas e do território, e da promoção dos investimentos necessários para um posicionamento forte na fronteira da descarbonização e da digitalização com rosto humano.

Assim acontecerá também no plano global e, em particular, no plano europeu, onde num momento de elevado risco para o futuro da parceria emergiram estadistas capazes de olhar para além das pulsões imediatas e salvaguardar bens tão essenciais como a paz e as liberdades que afirmam a União Europeia como um ator determinante para a formação dos novos equilíbrios geoestratégicos pós-pandemia.

Os estadistas portugueses foram uma referência para os países do Sul com menos recursos e mais dívida pública no passivo, cuja unidade foi determinante para ganhar apoios, designadamente da França e da Alemanha, que permitiram a defesa consistente de uma resposta coordenada e solidária da União Europeia à crise.

Merkel e Macron, na senda de Mitterrand e Kohl, e com o respaldo importante dos sociais-democratas alemães, tiveram a coragem de, perante as suas sociedades fraturadas, apontarem o caminho da unidade, da paz e da visão estratégica para o futuro da parceria e do mundo. Quando se fizer a história destes tempos, será dos estadistas que ela rezará. Os oportunistas, egoístas, populistas e medrosos serão apenas um seu lasso rodapé.

 

Eurodeputado

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