28/10/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 03/06/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

O superministro clandestino

António Costa é hábil no dia-a-dia, mas não é capaz de definir estratégias substanciais. Por isso, tirou um guru da cartola.

1. Quando formou o atual Governo, António Costa optou por uma equipa de baixo perfil. Tencionava gerir sem sobressaltos o ambiente favorável de uma economia que, apesar dos seus males endémicos, ia crescendo, graças ao turismo e outras exportações, enquanto a máquina estatal e partidária engordava na medida em que aumentavam as receitas de impostos. Um dolce far niente.

Não contando com uma geringonça formal, Costa queria evitar uma governação reformista do Estado, colocando entretanto na Economia e como número dois do Governo Siza Vieira, para deixar os negócios desenvolverem-se à vontade. Sabendo que Centeno queria sair, optou por uma rota de navegação tranquila, tendo como desígnios propagandísticos umas coisas digitais, umas inovações tecnológicas, umas reformas pró-forma no ambiente e uma esmagadora presença mediática. De substancial, nada.

A situação dramática gerada pelas crises sanitária e económica sem precedentes coloca agora António Costa numa situação inédita. Desta vez, tem de resolver grandes e dramáticos problemas sociais e financeiros, que se agravam diariamente. O drama é que Costa é um gestor do quotidiano, um político instintivo e espontâneo. Não é um visionário. Vai daí, fez o que sabe melhor: um passe de mágica. Foi buscar um guru, transformando-o numa espécie de superministro clandestino. Depois espetou a habilidade na primeira página do Expresso. O designado é António Costa Silva, líder da Partex. O escolhido falou com ministros para estabelecer o plano da pólvora. Numa primeira entrevista disse que estava ali pro bono e que, se não se sentisse bem-vindo, daria às de Vila Diogo. Fragilizou-se logo. A solução de ter um ministro encapotado e que verdadeiramente orienta não é nova. Passos Coelho fez a mesma coisa com António Borges, um ultraliberal já desaparecido, figura de uma educação e afabilidade pessoal rara. Foi António Borges quem traçou muitos dos planos que Passos executou, designadamente as nacionalizações.

António Costa Silva anda a caminhar para os 70 anos, viveu em Angola, onde os seus amigos da época lhe chamavam “xibias”. Encostou-se à extrema-esquerda a seguir à revolução e esteve preso pelo MPLA, o que lhe fica bem. Todos o consideram um espírito livre e uma pessoa inteligente e competente. Enquadra a definição de Clemenceau de que o “um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração e se ainda for socialista aos 40 não tem cabeça”.

Terá de se ver se este trunfo tem valor prático – isto para compensar a equipa de Governo de António Costa, feita de políticos da segunda divisão, com a exceção de Centeno. Siza não foi capaz de apresentar um plano que batesse certo na economia. A ministra da Segurança Social não conseguiu resolver sequer os mínimos e a situação social degrada-se gravemente. A ministra da Saúde aguentou-se à conta de um secretário de Estado seguro, de uma diretora-geral que esteve sempre a fazer política e dos esforços dos profissionais. O ministro das Infraestruturas usa a ameaça verbal, mas não resolve o caso TAP. O ministro do Ambiente destaca-se pela voz de locutor da antiga Emissora Nacional e soma confusões. A ministra da Cultura é um hino à incompetência e tem um secretário de Estado dos média especializado em questões mal esclarecidas. Considerado normalmente competente, o ministro dos Negócios Estrangeiros afundou-se. Foi ignorado por Espanha na gestão das fronteiras e revelou-se incapaz de arranjar soluções para os portugueses apanhados fora pela pandemia e de resolver os problemas nas entregas de compras feitas à China. A ministra da Justiça soube impor uma redução das férias judiciais, enquanto o da Educação deixou os professores tomarem conta da ocorrência, mantendo escolas fechadas sem necessidade enquanto hipervalorizava o ensino à distância, o qual não é mais que um penso rápido. Isto para não citar o facto de não ter reparado nos cortes que o seu ministério impôs às escolas. Já Manuel Heitor, o titular do Ensino Superior, eclipsou-se, o mesmo se passando com os responsáveis da Agricultura e do Mar (alguém se lembra do nome?). Também estão desaparecidos os da Coesão Territorial, do Planeamento e da Modernização do Estado, áreas que se sobrepõem. Por junto, no Governo aguentaram-se António Costa, Mário Centeno (apesar da cena caricata e grave entre ambos), Mariana Vieira da Silva, Gomes Cravinho (por via do trabalho autónomo dos militares) e Eduardo Cabrita. Perante este quadro, o natural seria Costa remodelar profundamente o Governo para enfrentar a emergência que vivemos. Sendo um taticista, é improvável que primeiro-ministro enverede por esse caminho, devendo limitar o mais possível as mexidas, como indicia a escolha de um treinador-explicador. O líder socialista sabe bem que há mudanças que fragilizam e são pretexto para a oposição ganhar pontos, nem que seja louvando cinicamente os exonerados. E também porque, como diz o povo na sua imensa sabedoria, para pior já basta assim, o que não impede que o Governo esteja nos píncaros da popularidade. Em política, o que parece é, dizia Salazar. E este Governo parece bom...

 

2. Apesar das notícias que se acumulam e dos indícios de fraude, não se escrutina o que se passa no grupo Montepio, controlado por eminências ligadas ao Partido Socialista. Não faltam notícias e denúncias da situação, oriundas inicialmente de gente corajosa ligada ao Montepio, depois de dissidentes do grupo de Tomás Correia e, pontualmente, por meia dúzia de jornalistas mais acutilantes. No entanto, nenhuma instituição com poder intervém de forma vigorosa e decisiva. Há umas sanções e pouco mais. Existe um passar de bola entre supervisores que é lamentável. Como há dias escrevia Bruno Faria Lopes, um dos nossos melhores jornalistas de economia, “enquanto o tema Novo Banco domina a agenda, na sombra vai crescendo o maior problema que o Governo tem para resolver no setor financeiro: o universo Montepio. A bomba está na associação mutualista e o detonador está no banco”. Depois deste texto, não é preciso fazer um desenho para perceber o que pode acontecer, com custos para depositantes, mutualistas e contribuintes…

 

Escreve à quarta-feira

 

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