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EUA. Os protestos são organizados por “agentes de fora”?

EUA. Os protestos são organizados por “agentes de fora”?

Filipe Teles 02/06/2020 12:41

Polícia de Nova Iorque fala em “anarquistas” organizados. Mineápolis em “agentes de fora” e a Casa Branca responsabiliza o movimento Antifa.

A responsabilização pela violência dos protestos nos Estados Unidos está a cair em alegados “maus atores”, “agentes de fora” ou “anarquistas”, teimando-se em resistir ao reconhecimento de que se trata de uma revolta genuína contra o racismo sistémico no país. Donald Trump instigou mais uma vez à violência contra os manifestantes.

Mineápolis, onde tudo começou, com o homicídio de George Floyd, é o palco de maior tensão. Jornalistas são impedidos de fazer o seu trabalho, com a polícia a disparar balas de borracha sobre manifestantes. O governador de Minnesota, o democrata Tim Wulz, defendendo a atuação das autoridades mas condenando os ataques à imprensa, responsabiliza pela violência uma minoria a quem chama de “maçãs podres”.

“Temos razão para acreditar que os maus atores continuam a infiltrar os legítimos protestos devido ao homicídio de George Floyd, e é por isso que vamos estender o recolher obrigatório por um dia”, disse Wulz no domingo, no Twitter. O argumento do governador não é novo. Há dias, culpou pessoas de fora por estarem a fomentar a desordem na região. Aliás, o Governo de Minnesota chegou a dizer que 80% dos detidos não eram do Minnesota, mas sem nunca apresentar provas. “A verdade é que ninguém sabe”, disse à NBC Keith Ellison, procurador-geral do Minnesota e antigo congressista do Mineápolis.

O mesmo se sucedeu em Nova Iorque, onde os relatos e as imagens da violência policial para conter os protestos começam a fazer parte do dia a dia. John Miller, da unidade de contraterrorismo da polícia de Nova Iorque, culpou os anarquistas pela desordem. Aos repórteres, disse que havia grupos organizados que danificaram propriedades apenas em áreas mais abastadas, afirmando também que muitos destes manifestantes eram de fora de Nova Iorque. “Instruíram os líderes dos grupos que os seguiam que isto [o protesto] não era para ser uma atividade ordeira”. Não forneceu, no entanto, mais nenhuma informação e alguns responsáveis chegaram a admitir que não havia informações sólidas para sustentar esta teoria, diz o New York Times.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é quem tem tentado responsabilizar alegados anarquistas pela violência que se alastra um pouco por todo o país. Pelo Twitter, prometeu classificar o movimento Antifa como uma organização “terrorista”. Acontece que não há, legalmente, a possibilidade de qualificar federalmente organizações domésticas como terroristas, nem os Antifa – de antifascismo – são uma organização e a promessa foi corrigida pelo procurador federal, William Barr: disse que ia tratá-las de acordo com o rótulo de “terroristas”.

“Anti-fascismo consiste numa variedade de atores e ações”, disse ao Daily Beast Stanislav Vystotsky, professor de Sociologia da Universidade de Wisconsin. “Podem ser informais: uma qualquer prática que se opõe ao fascismo, e aí pode ser tomada por indivíduos. Ou então pode ser formal, baseados a estruturas de grupo baseados na afinidade. Não existe organização formal”.

Normalmente, designa-se por “Antifa” grupos organizados que, mais do que um grupo ideológico, são pessoas que se juntam com determinadas táticas de protesto: normalmente, em oposição à extrema-direita. “A ideia que os Antifa são os ‘grandes orientadores’ do que se está a passar nos últimos dias – se se souber alguma coisa sobre o assunto – é ridícula”, sublinhou ao Washington Post Mark Bray, autor do livro Manual Antifascista, dizendo ser difícil contabilizar os seus membros, mas estimando que sejam cerca de 15 pessoas por cidade. “Há um real investimento por parte desta administração em representar estes protestos como se fossem organizados de topo para baixo, e não uma demonstração espontânea de raiva”.

 

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