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Christo. Criador do impossível

Christo. Criador do impossível

Cláudia Sobral 02/06/2020 09:43

Christo Vladimirov Javacheff, o artista búlgaro conhecido como Christo e que trabalhou em dupla com Jeanne-Claude, morreu neste domingo. Tinha 84 anos.

Num dia de dezembro de 1980, numa visita a Miami, Jeanne-Claude teve a ideia de rodear de tecido as 11 ilhas da Baía Biscayne. Numa reunião com o gabinete de Bob Graham, então governador da Florida, perceberam que para obterem a autorização necessária teriam de alugar a área circundante das ilhas, que Jeanne-Claude imaginara alongadas por tecido cor de rosa. O preço foi fixado em 12.827 dólares e oito cêntimos. À semelhança das suas obras anteriores, também essa viria a ser financiada pelos próprios. O aluguer pagaram-no com a venda de desenhos e esculturas preparatórias. Para Christo e Jeanne-Claude, o processo era também a obra, que não se esgotava nas mega instalações no espaço público que cedo se transformaram na imagem de marca da dupla de artistas.

Em 1983, eram inauguradas na Baía Biscayne Surrounded Islands, uma das obras mais marcantes de Christo, conhecido sobretudo pelo wrapping (embrulhar) de grandes edifícios e estruturas. “Viveu a vida ao máximo, não apenas sonhando com o que parecia impossível, mas realizando-o”, lia-se ontem no comunicado do seu ateliê que dava conta da sua morte. “A obra de Christo e Jeanne-Claude juntou as pessoas em experiências partilhadas por todo o globo, e o seu trabalho vive nos nossos corações e nas suas memórias”.

Entre as suas obras mais emblemáticas contam-se Wrapped Coast, Little Bay, em Sydney, (1968–69), Valley Curtain, no Colorado (1970–72), Running Fence, na California (1972–76), Surrounded Islands, em Miami (1980–83), The Pont Neuf Wrapped , em Paris (1975–85), The Umbrellas, no Japão e na Califórnia (1984–91), Wrapped Reichstag, em Berlim (1972–95), The Gates, no Central Park de Nova Iorque (1979–2005), e, nos anos mais recentes, já depois da morte de Jeanne-Claude, em 2009, devido a um aneurisma, The Floating Piers, no Lago Iseo, em Itália, (2014–16) e The London Mastaba, no Serpentine Lake de Londres (2016–18). Já no próximo mês, é inaugurada no Centro Pompidou, em Paris, uma grande exposição retrospetiva, que estava já programada, da obra de Christo e Jeanne-Claude nos anos da dulpa em Paris, cidade em que se conheceram, em 1958.

Christo Vladimirov Javacheff nasceu a 13 de junho de 1935 em Gabrovo, na Bulgária, e estudou na Academia de Belas Artes de Sofia antes de em 1957 se mudar para Praga, depois Viena, Genebra e, já em 1958, Paris, onde conheceu Jeanne-Claude Denat de Guillebon, conhecida como Jeanne-Claude apenas, que se que se tornaria sua companheira não só de criação, mas também sua mulher. Recordava ontem o New York Times que tinham nascido exatamente no mesmo dia do mesmo ano, citando o próprio Christo: “No mesmo momento”.

Pela altura em que em Paris conheceu Jeanne-Claude, que se tornaria sua companheira não só de criação, mas também sua mulher, já a obra de Christo tinha a marca a que a dupla se manteria fiel ao longo de toda a carreira, ainda que dando-lhe uma maior dimensão. Já então o artista búlgaro embrulhava objetos como peças de mobília ou automóveis. Trabalhando em dupla, não foi preciso muito tempo para que a forma de fazer ganhasse toda uma outra dimensão. Poucos anos depois de se terem conhecido e começado a trabalhar juntos que apresentaram a primeira obra de grande escala: uma grande instalação com lona nas docas de Colónia, na Alemanha. Passariam a assinar juntos apenas em 1994 contudo. Até então, os créditos das obras eram atribuídos a Christo. Fizeram-no propositadamente, escreve também o New York Times, por considerarem que “já era difícil o suficiente para um artista fazer nome”.

 

Entre a escultura e a arquitetura

Muito antes disso, ainda em 1964, tinham-se já mudado para Nova Iorque, onde viveram até ao final das suas vidas, que a morte separou em mais de uma década. Nesses primeiros anos orgulhavam-se do facto de viverem ilegalmente num edifício no SoHo, que mais tarde acabariam por adquirir. Em Nova Iorque, o ano de 1968 revelar-se-ia seminal para Christo. Foi o ano da inauguração de Wrapped Fountain; Wrapped Medieval Tower e Wrapped Kunsthalle — e não nesse mas logo no ano seguinte viria Wrapped Coast, em que cobriram uma extensa área da costa australiana, e uma intervenção semelhante às anteriores também no Museu de Arte Contemporânea de Chicago.

Pelas suas caraterísticas, “dos primeiros objetos embrulhados aos projetos outdoor monumentais”, a sua obra, lembrava ontem o seu ateliê, “transcende as fronteiras tradicionais da pintura, da escultura e da arquitetura”. E para Christo o processo de criação era também a obra. “Toda a viagem é a obra de arte”, disse o artista em entrevista a Jeremy Hobson no programa Here & Now, da NPR, em 2016, a propósito de Floating Piers, uma instalação de 70 mil metros quadrados de tecido amarelo sobre um sistema modular flutuante inaugurada nesse ano num lago de Sulzano, em Itália. “E a parte mais bonita de Floating Piers”, dizia, “é ver que todo o projeto é sobre pessoas a caminharem em direção a nada. Sobre sentir a superfície da terra ou da água. E os nossos pés, na verdade, muitas pessoas caminham descalças. E caminham, caminham. Não é como ir às compras, não é como ir ver os amigos. É ir de facto para lado nenhum”.

 

O mundo como galeria de arte

“Shakespeare disse-nos que ‘todo o mundo é um palco’, Christo mostrou-nos que o mundo é uma galeria de arte”, escrevia ontem a propósito da morte do artista Will Gompertz, editor de artes da BBC. “Não estava interessado nas paredes brancas estéreis do museu moderno onde os objetos existem isolados da vida de todos os dias. Queria transformar a vida em arte, levar as pessoas a olharem de novo e a pensarem de novo sobre o que as rodeava. Fê-lo através da intervenção — tanto a embrulhar um edifício como o Reichstag, em Berlim, num material azul, como uma secção da costa australiana num milhão de pés quadrados [perto de 93 mil metros quadrados] — transformando estruturas frias, duras em esculturas sensíveis e frágeis”.

No ano em que embrulharam o Reichstag, o edifício do parlamento federal alemão numa obra intitulada Wrapped Reichstag (1972–95), tinha já sido projetada, ainda na década anterior, uma obra semelhante para o Arco do Triunfo, em Paris. Um projeto cuja execução não foi possível mas no qual, já sem a companhia de Jeanne-Claude, Christo trabalhou nos seus últimos anos. Adiada por um ano por força da pandemia de covid-19, L’Arc de Triomphe, Wrapped tem inauguração prevista para 18 de setembro de 2021, segundo o comunicado ontem divulgado pelo seu ateliê, que o citava numa carta escrita em 1958, o ano em que conheceu Jeanne-Claude: “A beleza, a ciência e a arte triunfarão sempre”. Palavras que, lê-se nesse texto de homenagem, o artista búlgaro teve perto de si no dia da sua morte, no domingo, aos 84 anos, de causas naturais, em Nova Iorque.

 

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