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The Cool Greenhouse. O grupo que não tem interesse em canções de amor

The Cool Greenhouse. O grupo que não tem interesse em canções de amor

Hugo Geada 01/06/2020 20:14

O primeiro disco dos The Cool Greenhouse vem com um registo atento. Tom Greenhouse, vocalista, explica ao i porque é que prefere fazer músicas sobre comunidades tóxicas online a canções românticas.

Muito mudou na vida de Tom Greenhouse desde que desistiu da escola, aos 16 anos, e começou a descobrir bandas como os Can, Captain Beefheart, Stooges, The Fall, This Heat ou a pop tailandesa em casa dos amigos mais velhos. A última sexta-feira, dia em que a sua banda, The Cool Greenhouse, lançou o primeiro álbum, de título homónimo, foi mais um capítulo nessa mudança. 

O grupo nasceu em 2015, quando Tom decidiu “experimentar este som minimalista, repetitivo e despido” pelo qual era apaixonado, descreve ao i. Depois de “cinco anos em que ninguém prestou atenção à sua música”, confessou à DIY Magazine, as marés começaram a mudar.

O som lo-fi e assente no espírito D.I.Y. (do it yourself) começou a despertar a atenção da comunidade musical independente, culminando em elogios. Henry Rollins, lendário ex-vocalista dos Black Flag, passou uma música dos ingleses no seu programa de rádio e classificou The Cool Greenhouse como uma das suas novas bandas preferidas. Surgiram ainda nesta altura dois convites que viriam a mudar a trajetória da banda.

Do quarto para o estúdio No ano passado, o projeto que começou no quarto de Tom deu vários passos importantes. Tom Greenhouse juntou-se a Tom O’Driscoll, Tom Mason (sim, existem três Toms na banda), Kevin e Merlin para criar um alinhamento completo.

Com um som mais musculado, foram convidados pelo produtor Phil Booth (que trabalhou com grupos como os Sleaford Mods ou The Wave Pictures) para gravar um disco e a editora Melodic Records acabou por assinar com o jovem grupo. 

Muitas bandas ficariam excitadas com a oportunidade de gravar as suas músicas num estúdio profissional. Contudo, Greenhouse confessa ao i que ficou “preocupado” com esta transição. 

“Acho que as nossas gravações caseiras, ao usar tecnologia tão limitada, com drum machines baratas, guitarras impossíveis de afinar, acabaram por nos permitir encontrar, acidentalmente, um som único”, explica. “Estava um bocado receoso que, ao entrar num estúdio, ficássemos com um som demasiado produzido e sem alma, algo que fosse contra tudo aquilo que tínhamos feito até então”.

As preocupações, porém, revelaram-se infundadas. Booth conseguiu capturar o som lo-fi da banda e elevar a sua qualidade sem nunca lhe tirar a identidade nem os elementos estranhos e pouco convencionais que caracterizam os seus instrumentais.

“Às vezes penso que somos demasiado estranhos” The Cool Greenhouse e o seu primeiro disco surgem numa altura em que parece que todos os dias emergem talentosas bandas com influências punk no Reino Unido – sejam os Idles, que conquistaram uma grande audiência com o seu último disco, Joy as an Act of Resistance, uma ode contra a masculinidade tóxica e o Brexit, que os levou a tocar um pouco por todo o mundo (em Portugal estiveram no Primavera Sound, no Alive e, este ano, esperava-se que passassem pelo Paredes de Coura, entretanto cancelado), ou outros jovens grupos como os Shame, Porridge Radio ou Black Midi.

“Na realidade, acho que tivemos muita sorte”, responde Tom Greenhouse quando questionado sobre o que os demarca dos outros. “Sinto que este post-punk revival nos ajudou porque tornou mais fácil as pessoas compreenderem o que fazemos e ofereceu-nos bastantes oportunidades (como fazer entrevistas para jornais portugueses). É ótimo fazer parte desta onda”, diz ainda, acrescentando: “Não sinto que temos de fazer um esforço extra para nos destacarmos. Aliás, o que me preocupa é que por vezes sejamos demasiado estranhos para o nosso público”.

Esta preocupação é completamente legítima. Nas suas músicas reina a anarquia com a repetição de, no máximo, dois acordes de guitarra ao longo das faixas que, na sua maioria, não têm refrão. Quanto ao tema das letras, Tom tem “muito pouco interesse em escrever letras sobre amor”, preferindo focar-se em “estranhos fenómenos modernos”.
“Gosto de temas que me deixam obcecado, furioso ou que me façam rir, e que tendem a ser os aspetos mais absurdos da vida moderna. Normalmente, confio que se acho estes temas interessantes ou frustrantes, as outras pessoas também vão achar”, confessa. “Não consigo perceber como existem tantas músicas que não estão relacionadas com temas relevantes da atualidade”.

“Parece-me óbvio que as músicas devem ter significado e ser relevantes. No entanto, sinto que 80% das minhas músicas não têm qualquer tipo de significado. É um bocado estranho, talvez um dia escreva uma música sobre isso”, diz Tom. 

Mas há muitas que têm significado. “The purpose of this band/ Is to offer a glasses cleaning service/ At a very reasonable price”, canta Tom em Dirty Glasses, enquanto nos oferece uma graduação especial para observarmos os retratos que tenta pintar, com pinceladas de humor e sarcasmo, sobre fenómenos modernos da sociedade.

A faixa 4chan é dedicada ao site com o mesmo nome, um fórum online criado para discutir todos os temas possíveis e imagináveis que, entretanto, ficou mais conhecido pelas controvérsias geradas por alguns dos seus utilizadores tóxicos, que aproveitaram para espalhar conteúdos de extrema-direita, racistas ou homofóbicos na plataforma. “But who you gonna call?/ Oh, when the boards are slow, or your server’s down/ Well not Kristen Wiig, that’s for sure”, diz, referindo-se ao remake do filme GhostBusters com a equipa de caça-fantasmas liderada só por mulheres e que “enfureceu” a comunidade online. “And I’ve spammed some feminists with troll faces”, pode ouvir-se também, continuando a dirigir-se a esta “comunidade masculina tóxica” online conhecida como os incels.

“Esta música é sobre o estado mental negativo em que podemos ficar por passarmos tanto tempo isolados e a navegar na internet”, explica o vocalista. “Os incels são uma versão extrema desta nova experiência moderna. Confesso que sou fascinado por esta nova forma de viver e passar o tempo que acaba por nos afetar a todos”.

E até agora não recebeu qualquer tipo de hate por parte desta comunidade online: “Estive quase para postar a música no 4chan, mas depois apercebi-me que tenho medo deles. Ainda hackeavam o meu computador se decidissem que não gostam de mim nem da minha música”, diz em tom jocoso. 

Contudo, pode ser que, no futuro, Tom não precise de publicar a sua música no controverso fórum online para esta chegar àquela audiência. The Cool Greenhouse estão a chegar cada vez mais longe com a sua música. Antes de os festivais em Inglaterra terem sido cancelados, a banda preparava-se para tocar no gigante Glastonbury e no The Great Escape.

Temos de esperar para perceber o que guarda o futuro para esta banda. Tom está a contar voltar a dar concertos pelo Reino Unido já em outubro e, se possível, “quando as coisas acalmarem”, fazer uma visita a Portugal. 

Uma coisa é certa: podemos contar com o olhar atento de Tom Greenhouse para problemas que nem sempre têm a atenção que merecem e para o lançamento de mais músicas socialmente conscientes. Isto é, se, entretanto, o vocalista não for hackeado.

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