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Alexandra Duarte 01/06/2020
Alexandra Duarte

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A escola digital

Aulas à distância, só em extrema necessidade. As crianças, os adolescentes e os jovens precisam de apanhar ar, de correr, de sentir o sol e o vento na pele, de interagir.

Dois meses e uma semana: foi o tempo que passou desde que entrámos oficialmente em quarentena e as escolas encerraram, levando os alunos de todos os níveis de ensino para casa. A escola passou a ser exclusivamente virtual e a educação assumiu a vertente digital, há tanto tempo discutida e ambicionada por muitos.

Os professores, sejam eles educadores de infância, professores do ensino básico ou do universitário, adaptaram-se em tempo recorde aos novos meios tecnológicos que foram desencantando e introduziram-nos no método de ensino.

As rotinas e os comportamentos dos alunos sofreram alterações profundas ao longo destas semanas, testemunhadas pelos pais, que assistiam a estas mudanças e, também eles, fizeram um esforço para se integrarem neste novo modelo de ensino.

À sua maneira, todos contribuíram para o sucesso deste ajustamento à realidade imprevista que irrompeu pelas nossas vidas, trazendo incertezas, receios e insegurança quanto ao dia seguinte.

Ultrapassado o período de confinamento, começam a surgir as primeiras reflexões sobre as consequências, positivas e negativas, da quarentena e dos novos modelos que surgiram impostos por esta necessidade, sejam estes modelos de índole laboral, escolar, empresarial, de comércio, de apoio social, etc.

No que se refere ao novo modelo escolar em discussão, tenho ouvido muitos defensores da escola digital enfatizar os benefícios desta aprendizagem, focando-se na diversidade de métodos de ensino à disposição do docente. Consideram que os alunos podem ser motivados com maior facilidade – uma vez que estas gerações são compostas por nativos digitais –, que a distância da escola é eliminada com soluções interativas e que, pasme-se, o tempo poderá ser mais rentável, se compararmos com o método expositivo tradicional.

Recentemente, o secretário de Estado da Educação adiantou que ainda não há previsão para o regresso às aulas (o que me parece normal, tendo em conta que não sabemos como a situação da covid-19 irá evoluir) e acrescentou que estão atentos aos resultados deste experimentalismo social de que fomos vítimas pelas piores razões, ponderando um novo modelo de ensino, assimilando o conhecimento da escola virtual.

Se toda esta questão da escola virtual foi, no início, um desafio para os estudantes, para os professores e para as famílias, por diversos motivos, atrevo-me a afirmar que, ao dia de hoje, passados os tais dois meses e uma semana, o entusiasmo começa a entrar numa curva descendente para todos os envolvidos.

O interesse e a atenção dos alunos piorou significativamente e o cansaço apoderou-se de turmas inteiras que se mantêm estáticas nos quadradinhos dos ecrãs dos computadores por esse Portugal fora.

O homem é um animal social. Precisa de conviver, de trocar olhares, de sentir o calor da voz de quem está à sua frente, de pressentir um silêncio cortado com um olhar. Estas sensações/emoções só são possíveis na presença comum de indivíduos que respiram o mesmo ar e partilham as mesmas “condições atmosféricas”.

Um exemplo que me parece fácil de ilustrar esta descrição: a não realização dos famosos trabalhos de casa, vulgo TPC. Em casa, quando um aluno não faz o TPC, o pior que pode acontecer-lhe é ouvir um ralhete do professor que está do outro lado e ver o rosto de um ou de outro colega que apareça em primeiro plano. Este momento dura uns segundos e, a seguir, o aluno em incumprimento passa a ser só mais um na tela e com um registo no diário do professor. Situação bastante diferente é um aluno ter de assumir em plena sala de aula que não fez os seus trabalhos; a exposição do seu incumprimento assume uma outra relevância que só é possível através da troca de olhares, da temperatura que começa a baixar entre os envolvidos e da reprovação desse comportamento através de um silêncio ou de uma interjeição. Assim como se pode observar o mesmo em situação contrária, na qual um aluno deva ser valorizado pelo seu empenho ou prestação.

Aulas à distância, só em extrema necessidade. As crianças, os adolescentes e os jovens precisam de apanhar ar, de correr, de sentir o sol e o vento na pele, de interagir uns com os outros, despressurizando a energia própria da idade.

A educação digital pode vir a assumir novos contornos porque esta situação extraordinária nos dotou de capacidades que não eram exploradas e obrigou-nos a investigar novas fontes de informação e de recursos de ensino/aprendizagem. Seria um desperdício não potenciar os conhecimentos que se adquiriram quanto a processos mais dinâmicos de aprendizagem que comprovei serem eficazes e motivadores, aproveitando as vantagens das soluções tecnológicas. Mas na escola, a partir da escola e para a escola.

 

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