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António Galamba 01/06/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Há petróleo em São Bento!

Transformar realidades é sempre mais difícil e exige sustentabilidade, resiliência e determinação, mas há territórios em que quem decide opta pela fachada.

Em condições normais, o título seria “A Pandemia no regresso de quase tudo o resto”, em jeito de fim de trilogia do desconfinamento, mas a Grande Lisboa não deixou. Ou melhor não o deixaram muitos que ao longo dos anos permitiram que as políticas oscilem ao ritmo das mudanças dos decisores de turno ao ponto das questões estruturais se perpetuarem com o para/arranca das modelações dos ciclos eleitorais. Da mesma forma que é uma evidência que quando chove a chuva não molha todos da mesma forma, os fenómenos naturais como os resultantes das dinâmicas da humanidade apresentam impactos diferenciados em função da condição de cada um.

Quem conheça o território sabe que os riscos existem, que são razoavelmente negligenciados até que se manifestam e causam alarme. Noutras encarnações tive oportunidade de acompanhar essa realidade e de agir para a ajudar a transformar através de um Contrato Local de Segurança de Loures, na Apelação, Camarate e Sacavém. Quis a dinâmica política que a experiência fosse interrompida, primeiro com a chegada do Governo PSD/CDS ao poder e depois com a vitória da CDU na Câmara Municipal de Loures. O impulso, que herdei e em que participei na dinamização, era uma plataforma de mais de 50 entidades que intervinham numa lógica de prevenção de determinados comportamentos, de promoção da coesão e convivência entre as comunidades, mas sobretudo programa de geração de oportunidades de integração e de alargamento dos horizontes. Quase tudo foi interrompido.

Transformar realidades é sempre mais difícil e exige sustentabilidade, resiliência e determinação, mas há territórios em que quem decide opta pela fachada, seja pela mudança do nome do bairro que estigmatiza ou pela escolha de novas marcas, como a arte urbana, que pouco altera as realidades concretas das pessoas na educação, no emprego ou na identificação de oportunidades. A habitação é um problema central da sociedade, que afeta as pessoas destes territórios como as pessoas que, apesar de terem emprego, mal têm recursos para suportar as rendas, sempre nos arredores de Lisboa ou longe dos locais de trabalho. Pelo caldo comunitário que se gera, sem as adequadas intervenções, sustentadas no tempo, não há milagres, e o surto pandémico aproveita-se dessas brechas de desenvolvimento e coesão. No fundo é tudo uma questão de opções políticas e de recursos, não dará muitos votos, será porventura pouco popular, mas para transformar é o que se tem de fazer. Há sempre quem prefira sublinhar o problema ou indignar-se com as consequências das opções e das inações políticas, olhando sempre para os patamares superiores de poder ou para o lado à espera que outros resolvam. Os mesmos que se posicionam na atualidade como se esta, na escola como no trabalho, não fosse também o resultado da sua participação numa governação política do país de 4 anos. Fingem não ser nada com eles, o que é compreensível quando em defesa da ideologia sustentam todas as agressões aos direitos, liberdades e garantias noutras latitudes. Entre cegueira ideológica e euforia só falta mesmo dizerem que o vírus de origem comunista expôs as fragilidades do capitalismo e da globalização.

Na mesma linha de entorses, depois de uma declaração de apoio a um presidente da República originário da Direita e jeitoso na sustentação da governação, nada como arranjar um “paraministro” para elaborar um plano estratégico para a retoma, sem legitimidade democrática, sem qualquer enquadramento jurídico-político e anunciado pela comunicação social. Exercer o poder, sobretudo em contexto de uma crise de saúde pública, não é fácil, mas é como nos casamentos, na alegria e na tristeza. É esse o compromisso com os eleitores, fazer e ser escrutinado, não mandar fazer, sem mecanismos de fiscalização. O Simplex da legalidade e legitimidade democrática tem, em função da personalidade, uma dimensão anacrónica. É uma opção dos combustíveis fósseis para uma estratégia que se quer de energias limpas e renováveis, em linha com a prioridade à transição energética enunciada nos apoios comunitários e no programa do governo. Tal como nas presidenciais ou no envio para as calendas das eleições internas, é uma opção política relevante feita à margem dos órgãos do partido com o que resta de poder de distanciamento e de crítica.

Se se concretizarem os apoios comunitários enunciados, a contenda com a Holanda terá produzido o único objetivo pretendido, a obtenção de financiamento para a retoma, mas com esta do “paraministro”, ficará sempre algumas ideias pouco abonatórias:

– parece que não havia ninguém no Governo com capacidade para desenvolver o plano, em diálogo legítimo com os interlocutores políticos e da concertação social;

– parece que uns estão no Governo, mas, por estarem com a cabeça em lugares futuros, verdadeiramente já não estão lá;

– parece que uns poderão vir a estar no Governo, mas já andam por lá com mais poderes do que já lá estavam.

As sociedades já são suficientemente complexas para que os decisores políticos adicionem ainda mais variantes incompreensíveis pela falta de rigor, pela falta de transparência e pela ausência de sentido democrático, sem explicação e sem mecanismos de escrutínio cívico e político.

Pelos recursos europeus anunciados e pelo perfil de compromisso com as energias fósseis de quem vai configurar o futuro próximo, pode parecer haver petróleo em São Bento. Com Raul Solnado havia petróleo no Beato, mas era uma rábula, vejamos o que nos reserva a habilidade desta entropia democrática. Para já, caiu de paraquedas, para fazer de para-choques, veremos para quê.

NOTAS FINAIS

DEPÓSITO CHEIO // Como se vê pelos Estados Unidos, os depósitos cheios só precisam de um rastilho para que corra mal.

MEIO CHEIO, MEIO VAZIO // A mesma Europa que apresentou uma proposta positiva para responder às consequências da crise pandémica, que ainda terá de passar por muitos crivos políticos, burocráticos e de egos, essa Europa da livre circulação, é incapaz de estabelecer regras para a reabertura das fronteiras internas. Assistir à ausência de critérios e de senso nas opções individuais de gestão das fronteiras é um espetáculo degradante, é voltar ao registo inicial da pandemia.

NA RESERVA // Vamos entrar em mais uma época de incêndios florestais sem que os meios aéreos previstos estejam disponibilizados porque houve problemas nos concursos. Antes era porque era a proteção civil, agora é porque é a força aérea, mas não há mesmo possibilidade de fazer tudo a tempo e horas? E neste contexto de falhas, o Presidente da República dirigindo-se aos bombeiros portugueses proclama “a sorte vai ajudar-vos, vai proteger-vos”. Mais do que sorte, precisam de condições operacionais.

Escreve à segunda-feira

 

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