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Carlos Gouveia Martins 29/05/2020
Carlos Gouveia Martins

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23 minutos sem Farmácias

Ao longo deste período difícil causado pela doença COVID-19, que embora alguns erradamente tentem agir como se “já passou” quando ainda cá está no meio de todos nós, houve muitas injustiças de silêncio do mérito.

Há méritos, também, evidentes que não tiveram capas de jornal ou destaques de esforço de quem devia ter mais atenção. Um mérito não deve apagar outro, todos são e devem ser reconhecidos.

Uma primeira nota para reiterar o reconhecimento ao empenho, dedicação e trabalho de primeira linha de Médicos e Enfermeiros. Foram, todos, hercúleos. Foram e são, esses trabalhadores incansáveis e de excelência mundial, a personificação que foi feita e associação direta dos portugueses quando se falava nos “profissionais de saúde”.

Foi, a Médicos e Enfermeiros, que milhares aplaudiram por milhões. E, que seja claro, fizeram muito mas muito bem.

Porém, há méritos silenciados. Podia referir-me aos técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, aos técnicos superiores de saúde e até aos administradores hospitalares porque todos eles têm muito mérito e também foram parte da resposta à COVID-19 (e continuam a ser). O SNS, a prestação de cuidados de saúde no público ou no privado, só funciona em integração de serviços e multidisciplinariedade de funções clínicas. Todos têm quota parte do mérito.

Mas falemos dos Farmacêuticos. Já pensámos bem nos «heróis» que, sem pedir palco, foram estes milhares de farmacêuticos espalhados por quase todos os 308 concelhos do país? Mantiveram sempre as portas abertas. Foram e continuam a ser o exemplo maior que temos na prestação de cuidados de saúde de proximidade. Cuidados esses que são absolutamente essenciais aos portugueses com doenças crónicas, e não só, para que pudessem e possam hoje continuar a ter acesso aos seus medicamentos.

Durante o estado de emergência, as Farmácias ficaram abertas. Como ficam no Natal. Na passagem de ano. Nos feriados. Naturalmente, as Farmácias figuraram (como não podia deixar de ser) entre os estabelecimentos de atendimento ao público que puderam ficar abertas durante o período em que todo o país, a Europa e o Mundo fechavam portas.

Os farmacêuticos continuaram a atender público, mas respeitando o distanciamento social, apenas à porta, para evitar o contacto dos utentes e doentes com estes profissionais de saúde que estavam à distância de um postigo do desconhecido, também do vírus SARS-CoV-2, e da rua que ninguém queria encarar. Mantiveram a rotina de qualquer profissional de saúde: Não pararam.

Não pararam mesmo quando, em finais de Março, alertavam e passava ao lado do país que as suas equipas das farmácias estavam a trabalhar em condições especialmente difíceis em virtude da escassez de máscaras, desinfetantes e outros equipamentos de proteção. Não viraram a cara, não desistiram, o que deve merecer o reconhecimento e respeito de todo o país, e continuaram de porta aberta sujeitos à sorte do vírus SARS-CoV-2.

Mesmo com estas evidentes dificuldades iniciais, ainda garantiram – em apenas três semanas – que as farmácias comunitárias entregassem medicamentos a mais de 5.000 doentes que antes da pandemia se deslocavam aos hospitais centrais e com a COVID-19 se viam “sozinhos”. Falamos de doentes com cancro, VIH-sida e esclerose múltipla que, assim, graças a estes profissionais de saúde, continuaram a receber a sua medicação em casa ou numa farmácia da sua localidade. Resultou do esforço concertado de associações de doentes, farmácias, hospitais e distribuidores farmacêuticos, e serviu para evitar deslocações desnecessárias deste grupo de doentes aos serviços de saúde e, assim, diminuir o risco de infeção dos deste grupo mais frágil. Um exemplo de mérito silencioso entre farmacêuticos hospitalares e farmacêuticos comunitários que, nesta operação de salvaguarda da saúde das pessoas mais fragilizadas, foi feita de forma gratuita. Sim, este serviço foi totalmente gratuito nesta fase de pandemia, sem qualquer comparticipação dos hospitais do SNS.

E quando apertou o medo provocado pela pandeiam? Bem, na semana de 13 a 19 de abril, por exemplo, as Farmácias dispensaram 4,4 milhões de máscaras. Na semana seguinte? 5,3 milhões de máscaras. Foram o ponto seguro onde os portugueses procuraram e adquiriram a sua segurança.

Estes profissionais de saúde, como médicos ou enfermeiros, radiologistas ou nutricionistas, fisioterapeutas ou dentistas, não são de ferro. São de carne e osso, como qualquer um de nós. Neste período também adoeceram. Porém, o dia 11 de maio marca a data em que reabriu a última das 13 farmácias que foram forçadas a períodos de encerramento devido a casos de infeção nas próprias equipas farmacêuticas. Felizmente, não houve – que haja conhecimento público – nenhuma morte dentro desta classe de profissionais de saúde provocada pelo vírus SARS-CoV-2 e pela doença COVID-19.

Porém, mesmo com todo o esforço e empenho, a parte económica também bateu a porta de cada uma das perto de 3.000 farmácias que Portugal tem. O crédito concedido pelas farmácias aos portugueses, segundo nota divulgada a semana passada, atingiu um valor impressionante de 76 milhões de euros, em resultado da pandemia de COVID-19. Estudos paralelos afirmam que cada Farmácia adianta medicamentos sem custos a 163 utentes. Esta média permite estimar 450 mil e 500 mil portugueses são beneficiários de créditos na rede portuguesa de Farmácias. Há quem não fale nisto, porventura desconfigurado da realidade altruísta de cada Diretor Técnico ou Proprietário, mas, cada Farmácia, em média, acumula perto de 27 mil euros de créditos à comunidade que serve. São tão portugueses quanto nós e a economia dentro de uma Farmácia não ganha contornos diferentes, um euro é um euro e cada profissional de saúde destes também tem família, casa e contas para pagar. No entanto, politicamente, há serviços que faltam chegar aos “olhos” do Estado. Falta dar esse reconhecimento, de forma política e estruturada, a um setor que nunca olhou a meios para dar resposta a todo e qualquer português.

Esta quarta-feira, quando o nosso relógio marcava 15:00 horas, todas as Farmácias suspenderam o seu funcionamento durante 23 minutos, ou seja, de portas abertas mas com a plataforma informática de dispensa de receitas eletrónicas inativa. Tempo simbólico face aos mesmos minutos que a Assembleia da República reservou para debater a petição “Salvar as Farmácias, cumprir o SNS”.

A petição em questão não foi “poucochinha”. Recolheu mais de 120 mil assinaturas de portugueses e alertava, à data, para a iminente falência das atuais 702 Farmácias (na altura da petição eram 675 Farmácias) que enfrentam processos de penhora e insolvência (representam 24% da rede atual). A mesma petição pedia ao Parlamento um programa legislativo de apoio ao setor, através de incentivos e melhores condições de funcionamento para as Farmácias mais frágeis.

Esta semana, enquanto não se registava nenhuma anomalia provocada pelo simbólico protesto de 23 minutos nas quase 3 mil Farmácias do país, o Parlamento votava e apreciava a petição. A Assembleia da República registou, nesta quarta-feira, a unanimidade de totós os Partidos quanto a necessidade de apoiar o setor farmacêutico. O Governo mostrou disponibilidade para aprofundar e avaliar os projetos de resolução do PCP, CDS e Iniciativa Liberal.

Em discussão, na sessão plenária, para além da petição, estiveram quatro projetos de resolução sendo um do PCP, um do CDS e dois da Iniciativa Liberal, nos quais é recomendado ao Governo a adoção de medidas de apoio à rede farmacêutica do país e a garantia de proximidade e acessibilidade no acesso ao medicamento.

Insuspeito, António Arnaut foi recordado pela Associação Nacional das Farmácias e pela Associação de Farmácias de Portugal, após a votação plenária, com a seguinte frase: “As farmácias são a mão longa do SNS. Por isso, estarão sempre ao lado dos cidadãos, em particular dos mais frágeis, e interessadas em colaborar na implementação dos grandes objetivos nacionais de Saúde Pública.”

Esta quarta-feira, acredito, fez-se menos silenciosamente o reconhecimento do mérito das Farmácias e dos Farmacêuticos.

Chegou a hora, e que seja agora, da classe política efetivar e negociar com esta importante “mão longa do SNS” a continuidade dos serviços que prestam aos portugueses de forma justa e atenta.

 

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