12/7/20
 
 
Afonso de Melo 28/05/2020
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Um corvo na colina

Veio um calor de derreter catedrais, como gostava de dizer o Nelson Rodrigues, e as pessoas encolhem-se nas sombras escassas ou nas ruas internas, tão estreitas que não deixam entrar o sol. O sol é um senhor gordo e luminoso que precisa de espaço. Quando cometo o pecado de o olhar de frente, desenha-me círculos vermelhos e laranja com pontos negros a cada fechar de pálpebras. E eu fico a boiar nessa farândola de cores, bebendo cerveja até que volte a ser a hora de me levantar e escrever, escrever sempre, escrever até ao fim dos tempos.

Todos os dias tenho visitas. Umas mais palradoras do que outras, é certo. O corvo é comedido. Tem sido sempre o mesmo a ir e a voltar. Os craaás dos corvos são um som de Índia ao mesmo tempo. Escondidos por entre as folhas das palmeiras à espera que os pescadores de Karnataka amanhem o peixe na minha praia de Colva, ponto mais alto da liberdade.

Conheci um corvo que falava, de falar mesmo, como os homens. Vivia na esplanada do café São Sebastião, à Venda Nova, em Águeda, tinha a ponta das asas cortadas para não poder voar, um olhar maldoso quando dizia “olá” na sua voz roufenha, e saltitava em busca das migalhas de pão e da gordura do fiambre das sandes mistas que ia, inevitavelmente, parar ao chão. O café pertencia ao Mário dos Táxis e o corvo tinha nome: era o Chico.

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