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Eduardo Oliveira e Silva 27/05/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Num segundo mandato, Marcelo não vai mudar

Se há pessoa que não muda a forma de estar é o atual Presidente, que não virá com uma agenda predefinida, até porque vivemos numa era imprevisível.

1. Numa magnífica manobra de diversão, a questão presidencial foi colocada na berlinda da comunicação social e está para ficar, desde logo porque dá um jeitão a António Costa e ao PS e é um engodo para o jornalismo do “vai atrás do osso”. É uma forma hábil de desfocar a atenção da fome que alastra, da incapacidade absoluta da Segurança Social, das falhas do ministro da Economia e das contradições no combate à pandemia. Outro fator magnífico de distração do essencial é a oportuna circunstância de o futebol estar para voltar e os comentadores já estarem nas suas poltronas, com a exceção de André (des)Ventura.

Dito isto, vamos ao tema: Marcelo e o futuro. De acordo com dezenas de “expertos”, uma vez reeleito Marcelo, a versão 2.0 será diferente. E porquê? A resposta em geral é porque sim. E porque assim foi com Eanes e com Soares, não havendo dados tão claros sobre Sampaio e Cavaco.

Muitos comentadores e politólogos convergem em achar que Marcelo vai querer deixar o PSD no Governo no termo do seu segundo mandato. É o absurdo total, porque estamos a falar de uma distância temporal enorme e logo no tempo mediático de hoje, em que tudo muda dez vezes num repente. Vivemos numa época de absoluta imprevisibilidade, como mostram os incêndios assassinos, as suas consequências e trafulhices subsequentes, e agora, tragicamente, a pandemia mundial, que não dá sinais de fraquejar quando analisada à escala planetária, enquanto nacionalmente navegamos ao sabor do vento do dia e de planos inventados na hora.

Uma análise atenta permite verificar que, tal como os seus antecessores democráticos, Marcelo é uma peça única. Todos foram chefes de Estado em circunstâncias que os levaram a tomar posições por vezes duras e controversas em função de crises que não originaram, mas que aproveitaram politicamente. Verdadeiramente, só Mário Soares tinha uma agenda própria no seu segundo mandato, facto para o qual contribuiu decisivamente a circunstância de ele e Cavaco Silva terem visões políticas diferentes e personalidades antagónicas.

No período democrático, os portugueses escolheram os seus Presidentes de forma lógica e sábia, não pondo os ovos no mesmo cesto e gerando contrapoderes. Todos os eleitos constituem um quadro de honra que deve orgulhar-nos coletivamente. O Presidente Marcelo está bem acompanhado, e se há coisa que não vai certamente acontecer-lhe é deixar de ser quem é num segundo mandato. O seu destino não está associado a estratégias mesquinhas, mas às situações que vivermos, sejam elas boas ou más, sendo estas últimas as mais prováveis. E será aí, nas situações-limite, que a História irá buscar elementos para o julgar.

Marcelo tem estado presente sistematicamente em todos os momentos essenciais, sem que se lhe possa, hoje, apontar os excessos de afeto e de exposição pública inútil, que aprendeu a limitar. É verdade também que pode ser sibilino, maquiavélico q.b. e taticista sempre que lhe convém. E é provável que gostasse de ter um cognome histórico do género “O Adorado”. Até por isso, não cairá no erro de transformar Belém numa plataforma de assalto ao poder ou de ataque ao Governo em troca de uma aspiração partidária, de um regresso do centro-direita ou do neoliberalismo ao poder, onde ele, aliás, conta com cada vez menos amigos. Salvo circunstâncias de conjuntura excecionais, tentará manter as distâncias, até porque sabe que, nos dias de hoje, não estão em causa colisões puramente ideológicas entre modelos de sociedade. Já quase ninguém discute modelos. A economia de mercado, a acumulação de riqueza e a propriedade são aceites por toda gente, do Bloco ao Chega. Os temas políticos giram à volta do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social e dos seus modelos, em termos de eficácia. Qualquer esquerdista se dá bem com o facto de a EDP e a REN serem empresas chinesas e, portanto, estatais. Qualquer apoiante de Ventura aceita que os bancos sejam castelhanos. A visão política que separa uns de outros tem menos a ver com política e mais com temas ambientais, como a inteligência artificial e a aceitação ou não de mecanismos de controlo da vida privada através de aplicações e coisas do género. A ideologia pura e dura é para conversa de café e digestivo…

Pensar que numa segunda tomada de posse, Marcelo irá jurar a Constituição com um plano político preconcebido é diminuir a sua seriedade, a sua inteligência e, sobretudo, a sabedoria dos portugueses. Uma coisa será ele atuar em função da conjuntura e do Governo que estiver em funções na altura e que, provavelmente, será ainda o de António Costa, embora já remodelado. Outra é admitir que ele será um chefe de fação, coisa que nunca há de querer ser, até por causa do seu gosto pela popularidade não populista.

2. A discussão do Orçamento suplementar que se avizinha promete ser dura. Os jogos políticos terão de ser muitos para evitar uma crise política. Objetivamente, o PCP já se pôs de fora de um acordo, tal como faz com a CGTP na concertação social. Portugal não pode agora juntar à degradação sanitária, social e económica uma queda de Governo, numa fase em que o Presidente Marcelo entra num período de poderes limitados constitucionalmente. A todos os agentes políticos sem exceção vai caber uma responsabilidade redobrada nesta fase. Começa no Governo, que evidencia uma enorme falta de qualidade e preparação. António Costa e Centeno têm de ser muito hábeis e responsáveis nesta fase. Na seguinte, Costa tem de escolher novos protagonistas para o Executivo, aproveitando a mais que provável saída do titular das Finanças. Este Governo não cumpre os mínimos, como está mais que provado. Costa está numa ofensiva mediática permanente para tapar as incompetências. Mas um destes dias vai ter de parar e tratar do assunto a sério, começando na Segurança Social, onde a ministra é um desastre tão grande que quase começa a ultrapassar o grau de incompetência do seu antecessor, o inimitável Vieira da Silva, o tal que dizia que havia no ministério 20 mil milhões para assegurar reformas e crises. Cadê eles?

Escreve à quarta-feira

 

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