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Stanley Ho. Morreu o magnata dos casinos aos 98 anos

Stanley Ho. Morreu o magnata dos casinos aos 98 anos

Sónia Peres Pinto 27/05/2020 08:55

“Uma figura maior que a vida, cuja visão sem paralelo e espírito empreendedor, desenvolto e temerário foram amplamente reconhecidos e respeitados”: é desta forma que a família caracteriza o “rei” dos casinos de Macau.

Morreu, aos 98 anos, o magnata do jogo Stanley Ho. Figura incontornável de Macau e um dos homens mais ricos da Ásia há décadas – a sua fortuna pessoal foi estimada em 6,4 mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros) quando se reformou, em 2018 –, começou a ver a sua saúde deteriorar-se há quase uma década, após ter sofrido um traumatismo em resultado de uma queda em casa, em 2009. O incidente obrigou-o a pôr um ponto final na sua carreira de empresário. Ainda assim, só passou a “pasta” em junho de 2008, altura em que abdicou da presidência das holdings dos seus casinos em nome da sua filha Daisy Ho. “Uma figura maior que a vida”, é desta forma que a sua família o caracteriza, “cuja visão sem paralelo e espírito empreendedor, desenvolto e temerário foram amplamente reconhecidos e respeitados”.

“Ele foi e sempre será o nosso modelo inspirador. Passou-nos valores importantes. Ensinou-nos a ver possibilidades em territórios novos e desconhecidos, a abraçar desafios com tenacidade e resiliência, a ser compassivo e empático, a retribuir à sociedade, a apreciar a nossa herança cultural e, acima de tudo, a sermos patrióticos no nosso país”, sublinhou a família, num comunicado enviado à Lusa.

Stanley Ho nasceu a 25 de novembro de 1921, em Hong Kong, e fugiu à ocupação japonesa para se radicar na então portuguesa Macau, onde fez fortuna ao lado da mulher macaense, oriunda de uma das mais influentes famílias da altura.

Na década de 1960, conquista com a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) o monopólio da exploração do jogo, que manteve por mais 40 anos, até a liberalização, que trouxe a concorrência dos norte-americanos, lhe roubar o monopólio do jogo. No entanto, no seu currículo deixou a sua marca na transformação do território, desde a dragagem dos canais de navegação – uma das imposições do próprio contrato de concessão de jogos – à construção do Centro Cultural de Macau e do aeroporto internacional ou à constituição da companhia aérea Air Macau.

O certo é que a exploração exclusiva do jogo tornou-o um dos empresários mais ricos do mundo. E isso permitiu-lhe alargar-se a outros negócios. Exemplo disso é o investimento no setor imobiliário, transportes, hotelaria e banca além-fronteiras. A partir de Macau, alargou os seus investimentos a Portugal, África, Filipinas, Vietname e Coreia do Norte.

Em Portugal, Stanley Ho destacou-se por ser acionista maioritário do grupo Estoril Sol, sendo dessa forma proprietário de três dos maiores casinos do país: Lisboa, Estoril e Póvoa de Varzim.

Origens Stanley Ho nunca escondeu as suas origens. O pai perdeu a fortuna na bolsa e o empresário acabou por ser obrigado a trocar os estudos pelos negócios devido à ii Guerra Mundial, havendo várias histórias sobre a sua possível ligação ao mundo do crime, incluindo a tríades.

Pansy e Lawrence são dois dos 17 filhos que teve com quatro mulheres: a macaense Clementina Leitão Ho, falecida em 2004, Lucina Laam, Ina Chan e Angela Leong, que assumiu a liderança da Sociedade de Jogos de Macau (SJM) e é deputada eleita pela população à Assembleia Legislativa de Macau.

Em 1998 foi dado o seu nome a uma avenida e Stanley Ho tornar-se-ia o primeiro chinês na história de Macau a receber tal homenagem. Dez anos mais tarde, por ocasião do 50.o aniversário da Estoril Sol, Cascais prestou-lhe igual homenagem, a primeira outorgada em Portugal, e em vida, a um cidadão chinês.

Além das mais altas condecorações em Macau e em Hong Kong, Stanley Ho, de nacionalidade chinesa, britânica e portuguesa, foi agraciado por Portugal, nomeadamente com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, e em diversos pontos do mundo, como França, Reino Unido ou Japão.

Em julho de 2009, Stanley Ho sofreu um traumatismo na sequência de uma queda em casa, de acordo com a família, que o confinou a uma cadeira de rodas e ao afastamento dos negócios do jogo, uma época marcada por acirradas disputas entre as “famílias”.

Cinco meses depois aparece em público, pela primeira vez, para a cerimónia de investidura de Fernando Chui Sai On como chefe do Executivo de Macau.

Desde então, raramente foi visto. Surgiu em eventos esporádicos, em fotografias rodeado da família, pelo seu aniversário, bem como, todos os anos, em vídeos exibidos na gala de Ano Novo Chinês da SJM, nos quais mantinha o seu característico sentido de humor.

Stanley Ho também desempenhou importantes funções políticas nos processos de transição de Macau e de Hong Kong, foi membro do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, sendo-lhe também reconhecida a veia de filantropo.

Reações O Governo de Macau elogiou Ho “pela dedicação à causa social e à filantropia, pelo seu valioso contributo para a prosperidade e a estabilidade de Macau”. Já o cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong descreveu-o como “um amigo da comunidade portuguesa em Macau”. Paulo Cunha-Alves salientou que “ao longo da sua longa e proeminente carreira, enquanto empresário e homem de negócios, Stanley Ho sempre demonstrou um apreço especial por Portugal”.

O último governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, considerou que o mundo perdeu, com a morte do empresário Stanley Ho, um “amigo de Portugal e dos portugueses”, em declarações à Lusa. “Recordo um homem inteligente, versátil, agradável no trato, respeitador das suas posições e das suas competências”, disse Rocha Vieira, comentando a morte do magnata, que teve o exclusivo do jogo no território durante 40 anos, um império a que nem a liberalização do setor retirou protagonismo.

Também o presidente da Fundação Oriente considerou que o empresário era uma pessoa muito reconhecida, nomeadamente em relação a Portugal, pela oportunidade que lhe deu de ficar com a concessão do jogo em Macau. “Stanley Ho era uma pessoa que não esquecia as coisas boas que lhe faziam. Era reconhecido (...). Não pensei que uma pessoa que viesse daquele meio fosse tão reconhecida, nomeadamente a Portugal, pela oportunidade que lhe tinha dado de ficar com a concessão do jogo de Macau”, afirmou Carlos Monjardino à Lusa.

 

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