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Índia. Alívio das restrições não apaga cenário negro que o país enfrenta

Índia. Alívio das restrições não apaga cenário negro que o país enfrenta

AFP Filipe Teles 25/05/2020 22:18

A Índia é o décimo país com mais casos, registando até ontem mais de 144 mil infeções confirmadas e pouco mais de quatro mil mortes. Os números são pouco fiáveis. A Associated Press relatou no dia 17 de maio que a Índia tinha capacidade para fazer cerca de 8 mil testes por dia (mesmo assim, um número muito insuficiente); no entanto, estava a realizar apenas 90.

Um dia depois de o país ter registado o maior número de infeções confirmadas em 24 horas (6767), a Índia retomou os voos domésticos, esta segunda-feira. A maior e mais rígida quarentena do planeta deixou um rasto de miséria e a gestão de Narendra Modi, primeiro-ministro, está a ser posta em causa.

O Centro Nacional de Prevenção de Doenças emitiu as instruções no domingo. Os passageiros assintomáticos têm, a partir desta segunda-feira, permissão para se deslocarem para o seu destino, desde que utilizem máscara no avião. Mas terão de monitorizar a sua saúde por si próprios durante 14 dias. Caso desenvolvam sintomas, estão obrigados a informar as autoridades de saúde ou o agente distrital de vigilância de casos de covid-19. 

Quem demonstrar sintomas será isolado e deslocado para a instalação de saúde mais próxima, procedendo-se a uma avaliação clínica e da severidade da sua situação. Os doentes que apresentarem sintomas severos serão admitidos nas instalações próprias para a covid-19, e a sua saúde monitorizada de acordo com o seu estado.

Se os passageiros testarem negativos para a doença, podem ir para casa e automonitorizar-se  durante sete dias, tendo a obrigação de alertar as autoridades caso desenvolvam sintomas. 

 

“O PIOR e o mais punitivo confinamento do mundo”

No dia 24 de março, Modi impôs a quarentena a quase 1,4 mil milhões de pessoas com apenas quatro horas de aviso. “O confinamento mais punitivo e mal planeado do mundo”, escreveu no Financial Times Arundhaty Roy, autora indiana.

Quem mais sofreu com a má gestão do Governo foram os trabalhadores do setor informal. As imagens de milhões de trabalhadores migrantes que dependem de rendimentos diários a tentarem voltar para as suas aldeias natais, a centenas de quilómetros dos grandes centros urbanos, passaram um pouco em todos os ecrãs do globo.

Para escaparem à repressão policial, começaram por caminhar pelas linhas dos caminhos de-ferro. Cientes dessa mudança de roteiro, as autoridades deslocaram polícias para o controlo das linhas, obrigando estes migrantes a caminharem perto de rios, ribeiras e correntes com as malas às costas ou transportando-as sobre rodas. “A irem para casa, para a fome e para o desemprego”, escreveu Roy. 

Uma das histórias que mais sensibilizaram foi a de Jyoti Kumari. Desesperada, percorreu 1200 quilómetros de bicicleta carregando o seu pai, que tem dificuldades motoras. Arriscando a morte pela fome, outra alternativa não existia para a rapariga de 15 anos. “Não tive outra opção”, disse. “Não sobreviríamos se não tivesse ido de bicicleta para a minha aldeia”. 

A Índia é o décimo país com mais casos, registando até ontem mais de 144 mil infeções confirmadas e pouco mais de quatro mil mortes. Os números são pouco fiáveis. A Associated Press relatou no dia 17 de maio que a Índia tinha capacidade para fazer cerca de 8 mil testes por dia (mesmo assim, um número muito insuficiente); no entanto, estava a realizar apenas 90. 

Embora a taxa de desemprego antes da pandemia fosse a mais alta das últimas décadas, o número daqueles que não conseguem encontrar sustento nas zonas rurais é devastador: um em cada quatro encontra-se desempregado, segundo dados do Centro de Monitorização da Economia Indiana. Nas zonas urbanas, a população desempregada ascende a 22%. No geral, a taxa de desemprego cifra-se nos 24%. Estima-se que haja entre 120 milhões e 135 milhões de pessoas desempregadas.

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