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As oportunidades de um copo meio cheio

As oportunidades de um copo meio cheio

Eduardo Baptista Correia 22/05/2020 11:05

Os tempos que vivemos incentivam ao desenvolvimento de práticas que apoiem na resolução de um vasto conjunto de dificuldades que o estilo de vida urbano e contemporâneo acarreta.

Os tempos que vivemos constituem novidades absolutas e inesperadas para a generalidade dos analistas económicos e videntes profissionais. Tal como em muitas situações, da história e da vida, ao olharmos a realidade podemos identificar oportunidades ou ameaças. Depende essencialmente dos níveis de resiliência, criatividade, confiança, inovação e vontade de fazer. Há, aliás, uma história, bem demonstrativa dessa verdade, que muitas vezes utilizo em sala de aula em contexto de evolução de uma análise SWOT em SWOT dinâmica, onde se intercetam realidades internas e externas, precisamente para identificar zonas de intervenção. Conta essa história que duas empresas robustas, concorrentes, do setor do calçado, enviaram cada uma delas um prospetor comercial a uma ilha de “pés-descalços”. Sendo a observação e informação recolhida por cada um dos prospetores exatamente a mesma, as recomendações são, contudo, diametralmente opostas. Um aconselha o mais possível o afastamento desse mercado, por considerar que o facto de ninguém usar calçado naquela ilha é suficientemente demonstrativo da impossibilidade de sucesso. O outro considera que a ilha constitui uma excelente oportunidade de desenvolvimento de mercado pelo facto de ninguém ainda usar calçado. São apenas os traços psicológicos, a capacidade de entusiasmo face ao risco e a visão de futuro que, neste tipo de circunstâncias, determinam a disparidade entre recomendações.

Também os tempos que vivemos, carregados de ameaças, nos proporcionam e incentivam ao desenvolvimento de práticas que apoiem na resolução de um vasto conjunto, sobejamente identificado, de dificuldades que o estilo de vida urbano e contemporâneo acarreta, e dos quais aqui destaco o excesso de burocracia na relação com o Estado, os tempos excessivos na resolução de processos em tribunal, as enormes filas de trânsito em hora de ponta nos centros urbanos e as respetivas consequências nocivas ao nível da produtividade, saúde e ambiente. 

As semanas de confinamento demonstraram que, para muitas atividades profissionais, o trabalho remoto é, em parte do tempo, recomendável. Se as organizações onde tal é possível decidirem implementar práticas em que, em parte do tempo, a profissão é executada remotamente, torna-se possível ter locais de trabalho com mais dignidade e mais espaço per capita; veremos também, por essa via, reduções significativas no consumo e gasto em combustíveis e tempos de viagem dentro das zonas urbanas, contribuindo desse modo para níveis de qualidade de vida e felicidade superiores. O período de confinamento foi a melhor campanha publicitária, com direito a amostra significativa, das vantagens desta prática nalgumas atividades profissionais.

No que às responsabilidades operativas do Estado respeita, o repetido discurso de desburocratização e digitalização tem agora também um conjunto de áreas onde essa transformação não deveria ser adiada. Há, indiscutivelmente, um vasto conjunto de áreas onde a desburocratização e digitalização são hoje perfeitamente seguras e cuja persecução contribuirá não só para instituições mais eficientes como para maiores índices de qualidade de vida dos respetivos profissionais e utentes. Refiro-me, entre outras, ao alargar da desburocratização num vasto conjunto de processos na relação entre cidadãos, empresas e repartições públicas, e à possibilidade de os tribunais funcionarem na maioria dos processos com ferramentas que possibilitem o trabalho remoto dos vários intervenientes, bem como o testemunho remoto. 

Lamentavelmente, não se assiste à introdução destas matérias no debate político e estratégico, tão importante para a evolução de Portugal. Ao invés, assistimos à discussão do nome do próximo governador do Banco de Portugal e às tricas internas a um Governo de fraca gente... Deve ser a este tipo de coisas que alguns se referem quando falam de baixa política. Nas oportunidades, o copo está meio cheio; no ambiente político, está demasiadamente vazio.
  
Subscritor do “Manifesto: Por Uma Democracia de Qualidade”

CEO do Taguspark. Professor na Escola de Gestão do ISCTE

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