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Mário João Fernandes 22/05/2020
Mário João Fernandes

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2021: odisseia no PIB

A discussão em torno de qual seja a mais velha profissão do mundo não costuma apontar para os economistas – uma injustiça que urge corrigir.

A tradição bíblica, mesmo revisitada pelos evangelistas, é omissa quanto ao papel dos economistas na criação do mundo. “No princípio era o verbo”, o versículo de abertura do quarto Evangelho, precede como chave interpretativa o primeiro versículo do Génesis. Os economistas  abusam do verbo na alegria desenfreada da previsão económica, que polvilham com números. Um novíssimo testamento poderia acrescentar um versículo final ao Livro do Apocalipse: no fim era o número.

Na circunstância presente, as previsões económicas concentram-se na dimensão da queda do produto interno bruto de cada país medido no final do corrente ano. Os economistas que tomam de empréstimo a metodologia dos comentadores televisivos trazem no bolso três cenários, como o pronto-a-vestir da Maconde nos anos 80 do século passado: alto, baixo e médio. O alinhamento dos números varia: começou com brandura no 6-8-10%, passou para o 8-10-12% e já surgem profissionais da previsão económica a apontar para uma queda de 10-12-14% do PIB. A credulidade popular gosta que lhe façam cócegas, valham-nos os economistas com sentido de humor. John Kenneth Galbraith, um príncipe dentro desta segunda e selecta categoria, repetia a quem o queria ouvir: “A única função da previsão económica é tornar a astrologia respeitável”. Para os que tinham dificuldades em apreender a ideia geral e abstracta, complementava o pensamento com um passo em direcção ao concreto: “Há duas categorias de autores de previsões: os que não sabem e os que não sabem que não sabem”.

Com a chegada do Verão, a indústria da previsão económica lançará a colecção Outono-Inverno e passaremos a discutir quanto crescerá o PIB de cada país no ano de 2021. À semelhança das mutações cíclicas da altura da bainha da saia e da espessura do salto do sapato, a nova moda contraria a precedente. Para 2021 haverá previsões de crescimento do PIB de 6-8-10%, seguidas de previsões de 8-10-12%. Da equivalência entre a queda de 2020 e o crescimento de 2021 passa-se para um crescimento em 2021 inferior à queda em 2020. Torturados os números, chegam as tentativas de previsão com base na geometria. A recessão será em L, U, V, W, M, ou, fazendo prova de originalidade na contestação às convenções gráficas, em U invertido ou em V invertido? Os economistas sucedem-se na previsão e desenham um cadavre exquis com a precisão de um lápis de cera nas mãos de um bebé.

Qual a relevância da previsão económica? Consoante a importância do pregador e a dimensão da respectiva igreja, assim variará o efeito placebo associado à previsão. Se um conjunto importante de agentes económicos acreditar que, em 2021, o PIB vai crescer 10%, é provável que as respectivas decisões económicas de investimento e consumo contribuam para o aumento do PIB. Se a fé for muita, a métrica da previsão de crescimento económico pode ser atingida ou até mesmo ultrapassada.

O culto da previsão económica tornou-se um culto do Estado por via da previsão anual das receitas e despesas, especulação a que se convencionou chamar, com algum lirismo, Orçamento do Estado, mesmo depois de, por pudor, ter caído em desuso o apodo “geral”. O choque das previsões com a realidade dá origem, consoante as colheitas e os produtores, a orçamentos rectificativos (anos troika) ou suplementares (anos covid).

A economia é a ciência que explica porque é que os economistas falharam nas suas previsões. O exercício da função, mesmo sem titulação profissional, deveria ser causa de inelegibilidade para cargos políticos.

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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