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A união nacional

A união nacional

João M. A. Soares 21/05/2020 09:40

Vive-se um clima de unanimidade por mero equívoco que faz lembrar a velha União Nacional e faz temer que as futuras gerações tenham de esperar décadas para se livrarem de gente “bem-intencionada” que se vai governando.

Para os mais idosos (os tais para quem o Governo ditou prisão domiciliária durante o estado de emergência e muitos outros dos que, estando internados em “lares” e casas desprotegidas – e que continuam com menos visitas que os presidiários –, ainda têm memória), a situação política do país parece hoje a projeção de um filme velho e visto por eles e os seus pais durante muitos anos.

Salazar, ditador de província que fez o seu caminho para o poder com a sobriedade de um contabilista competente e intratável, tinha por obsessão ter as contas em ordem (primeiro) e salvar o país e os portugueses do comunismo (depois).

Ele começou realmente essas tarefas em 1928 como ministro das Finanças, passando a liderar o Conselho de Ministros em 1933, quando o comunismo internacionalista varria a Europa e deixava nas nações integradas na URSS um rasto sanguinário de morte, fome e terror, e continuou toda a vida a olhar para um mundo que, do seu ponto de vista, se afastava dos padrões da Igreja (onde estudara) e que justificava – julgava ele – alguns “excessos” sobre aqueles que eram comunistas ou rotulados como tal, sob o título global de subversivos.

Era tão “divina” essa missão que a sua preocupação era “instruir” o povo na paciência, no respeito e na docilidade (os primeiros livros de leitura nas escolas estavam cheios de parábolas sobre o “pobre feliz” versus “o rico infeliz”) e “desinfetar” a administração e os (muitos) funcionários públicos das ideias comunistas (com o famoso juramento prévio do “ativo repúdio pelas ideias comunistas”).

Tudo isto, afinal, para garantir e fortalecer a união nacional. A tal ponto que a única força política organizada viria a chamar-se assim mesmo: União Nacional. Os ativos e passivos que discordavam desta “paz” eram, pois… os subversivos (para cuja “correção” a Constituição de 1933 permitia situações de exceção).

Nesta União Nacional viveu o país “estavelmente” até ao 25 de Abril, como disso é bom exemplo a gigantesca ovação que varreu a multidão que enchia o Estádio do Sporting em 31 de Março de 1974, por ocasião de um Sporting-Benfica, em inequívoca manifestação de apoio ao então presidente do Conselho de Ministros que, depois de ter sido enxovalhado numa deslocação a Londres, recebera um primeiro banho de multidão no seu regresso, em julho de 1973. (E não se torne a falar hoje no facto de, no antigo regime, os manifestantes virem da província em autocarros alugados “pela entidade manifestante”, que os aliciava previamente com bandeirinhas e um prato de lentilhas…) Na sua larga maioria, eram os mesmos milhares que se juntaram entusiasticamente às tropas que derrubaram esse mesmo primeiro-ministro, umas semanas (!) mais tarde.

Fizeram-no porque, no fundo, estavam “fartos do mesmo” e começavam a sentir a necessidade de poder ver, ler, ouvir e falar em liberdade. E, enquanto sociedade, sofriam a primeira crise petrolífera e estavam definitivamente exauridos com uma guerra sem fim (político ou militar) à vista.

Levou, pois, o país quase quatro décadas a livrar-se de um senhor “bem-intencionado e incorrupto” (custa reconhecer, nos tempos que por cá vão correndo) que tudo fazia para nos manter unidos (e, “para nosso bem”, a salvo de más ideias e suspeitas companhias).

Pois vem tudo isto a propósito dos estranhos ventos que sopram por cá! O chefe de Estado é incensado diária e acefalamente na imprensa – quando acerta e quando erra; o primeiro-ministro copia as manobras mediáticas daquele (às vezes, não se percebe quem copia quem) e garante que nada os separa, a ponto de combinar em público um reencontro institucional para depois das (desnecessárias, pensam ambos) eleições; o chefe da falange dos “críticos construtivos” oferece-se para integrar, direta ou indiretamente, a união “que nos fará mais fortes e capazes de superar as dificuldades”; os desalinhados desta união ou são comunistas ou são os terríveis (e ainda mais perigosos) fascistas.

Resumindo, vive-se um clima de “unanimismo poético” (unanimidade por mero equívoco) que faz lembrar a velha União Nacional e faz temer que as futuras gerações tenham de esperar décadas para se livrarem de gente “bem-intencionada” que se vai governando (ao contrário do velho “Botas”) enquanto finge que sabe o que está a fazer quando nos governa.

Há pouco foi a prisão domiciliária dos idosos; há não muito tempo foi um ministro que afirmou com ar sério que “a Lei não se pode interpretar literalmente”; há dias foi a promessa de dinheiros para a comunicação social que prometa não se fazer eco de fake news; há anos inventou-se uma comissão independente para impedir compadrios no topo da administração pública, cuja transparência é zero e que faz pré-escolhas sempre alinhadas com as cores do Governo (seja elas quais forem), mas… não vá o diabo tecê-las, multiplicam-se agora os casos de altos dirigentes em “regime de substituição” e não sujeitos às regras; ainda há pouco tempo, os portugueses foram avisados (foi o Presidente que o fez) que, se algum autarca for acusado de infringir a lei (por bem fazer, claro, que a pandemia justifica o não cumprimento de certas leis), ele cá estará para o defender; e… “estamos juntos!” (como sempre foi o slogan do MPLA).

Viva a união nacional!

Antigo secretário de Estado das Florestas

 

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