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Carlos Zorrinho 21/05/2020
Carlos Zorrinho
opiniao

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Industrialização verde

Ou mudamos ou perdemos o comboio da nova economia com consciência social e ambiental que tem de emergir das ruínas da devastação pandémica.

Vivemos as últimas décadas num quadro global insustentável, com uma população crescente puxando pela procura de bens e serviços e um modelo industrial incapaz de lhe responder sem aumentar o volume de emissões indutoras do aquecimento global e das alterações climáticas.

Ao mesmo tempo, a fortíssima competição tecnológica e de preços levou à deslocalização de muitos centros de produção e à diluição das cadeias de valor, fragilizando a sua resiliência e expondo-as a chantagens inaceitáveis, justificadas por uma globalização que não se desenvolveu com uma perspetiva colaborativa justa e humanista.

A disrupção criada pela pandemia fez com se tivesse disseminado na sociedade a consciência da insustentabilidade dos modelos antes prevalecentes, gerando uma forte pressão para um recomeço diferente.

O sofrimento, o medo, a pobreza e o desemprego agravados pelo impacto da covid-19 exigem dos decisores políticos a capacidade de reconfigurarem os princípios orientadores da globalização, em particular o modelo industrial e de trocas a ela associado, de forma a satisfazer as necessidades das pessoas, reduzir as desigualdades, criar novas oportunidades e salvaguardar a diversidade e a sustentabilidade do planeta.

A União Europeia, que viu conjugar-se um impacto forte da crise sanitária com a exposição da dependência logística e da fragilidade tecnológica de uma parte significativa da sua indústria, tem de ser rápida, flexível e ambiciosa a aplicar uma resposta baseada na industrialização verde, aproveitando os princípios do pacto ecológico europeu e os recursos do plano de recuperação e transformação que se prevê seja lançado até ao final do semestre em curso.

Já antes da crise se tinha percebido que a indústria europeia tinha de se modernizar. Consumia demasiada energia, fator de produção caro na União, emitia excessivos gases com efeitos de estufa e estava muito exposta às flutuações dos preços das matérias-primas. A pandemia trouxe à tona outras fragilidades. Não é mais aceitável adiar a reconversão industrial, que antes da crise já era necessária e urgente.

A grande dependência das cadeias de fornecimentos globais tem de ser combatida. A resposta não é o fechamento, mas a integração das cadeias de valor de forma a assegurar o seu controlo partilhado. O atraso na digitalização dos processos tem de ser recuperado. A resiliência e a sustentabilidade têm de ser a base da recuperação da economia europeia e, em particular, da sua indústria.

No seu contributo para uma nova Estratégia Industrial Europeia, no quadro de um relatório de iniciativa do Parlamento Europeu, os Socialistas e Social-Democratas propõem uma regulação inteligente que combata as desigualdades e as insuficiências do mercado único, apoiando a ciência e a inovação, qualificando e valorizando os trabalhadores, protegendo os consumidores, apostando na neutralidade carbónica e na economia circular e promovendo a ética e a responsabilidade social nas relações económicas e nas plataformas empresariais físicas ou virtuais em que elas se vão desenvolver.

É mais fácil propor do que fazer, mas não temos alternativa. Ou mudamos ou perdemos o comboio da nova economia com consciência social e ambiental que tem de emergir das ruínas da devastação pandémica.

 

Eurodeputado

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