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TVI. Guerra aberta entre Cofina, de Paulo Fernandes, e Mário Ferreira

TVI. Guerra aberta entre Cofina, de Paulo Fernandes, e Mário Ferreira

Raquel Wise Daniela Soares Ferreira e Sónia Peres Pinto 20/05/2020 16:48

Depois do negócio falhado para a compra da Media Capital pela Cofina, o empresário adquiriu sozinho 30% da dona da TVI. A partir daí, foi alvo de várias notícias negativas em vários meios do grupo de Paulo Fernandes. E não é meigo na resposta: classifica de “lixo” as ações da Cofina.

A compra da Media Capital está longe de ser pacífica. Depois de o negócio ter fracassado por inciativa da Cofina, que liderava um consórcio em que participava também Mário Ferreira, o empresário nortenho decidiu avançar sozinho para a compra de 30% da dona da TVI por 10,5 milhões de euros. O negócio já tinha sido anunciado pelo SOL, mas só na semana passada é que foi oficializado. A partir daí, assistiu-se a uma verdadeira “guerra aberta” entre os dois patrões dos media.

O grupo detido por Paulo Fernandes tem-se multiplicado em ataques contra Mário Ferreira. No mesmo dia em que é anunciada a compra por parte do dono da Douro Azul – o valor agora acordado aponta para uma avaliação da Media Capital de 130 milhões de euros, inferior à avaliação feita na tentativa de compra feita pela Cofina (ver página 6) – a revista Sábado revelou que o empresário está a ser investigado pela PJ e pelo Fisco. Segundo a mesma publicação, o Mário Ferreira, não sendo ainda arguido, é alvo em dois processos judiciais relacionados com os Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

O mais recente processo é do Fisco e terá sido aberto na sequência de uma certidão extraída do inquérito em curso na PJ. Segundo a revista, a investigação visa alienações de património dos estaleiros e a utilização de uma empresa de Mário Ferreira na ilha de Malta. Ora, a investigação pretende perceber a utilização desta empresa como veículo para a compra do navio Atlântida por 8,7 milhões, tendo sido revendido pouco depois por 17 milhões a uma empresa na Noruega. A Sábado avança ainda que, tanto no processo da Autoridade Tributária como no da PJ, existirão indícios de que poderá ter havido viciação do concurso público, tendo parte do lucro da empresa ficado em Malta.

No mesmo dia em que a notícia da investigação é anunciada, é também divulgada a oficialização do negócio da Media Capital que provocou reações como a de Ana Gomes. Através do Twitter, a ex-eurodeputada questiona-se sobre o negócio. “Já chegámos à Madeira??? No caminho das Ilhas Cayman, passando pela Florida, com volta pelo lago Ozark, até ao Porto, fazendo escala em Lisboa com ámen complacente da CMVM e do Banco de Portugal?”, ironizou, sem nunca se referir ao empresário Mário Ferreira, mas partilhando a notícia do negócio. A ex-eurodeputada já tinha admitido ao SOL, a 9 de maio, que a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e o Governo devem avaliar a idoneidade de quem está a comprar a TVI obem como dos detentores da Global Media (grupo proprietário do DN, JN, TSF e O Jogo). “O senhor mete-se nos negócios que entender, desde que sejam lícitos e pague os seus impostos – por mim, não tenho problemas. Agora, em relação à TVI, quer a CMVM, quer a ERC, quer o próprio Governo deveriam avaliar a idoneidade dos intervenientes. Ainda por cima quando se trata de controlar um órgão de comunicação”, disse a socialista, que há muito questiona negócios feitos por Mário Ferreira, como é a compra do navio ‘Atlântida’.

O facto de a notícia ter saído no SOL uma semana antes não impediu o Correio da Manhã de dar destaque de primeira página às críticas de Ana Gomes.

E dois dias depois é a vez do mesmo CM denunciar que Mário Ferreira tinha 500 trabalhadores em layoff. A notícia baseou-se no descontentamento menifestado pelo partido liderado por Jerónimo de Sousa, que denunciou através das redes sociais: “Os trabalhadores da Douro Azul que têm o seu salário cortado em 1/3 (e que parte do que recebem é pago pela Segurança Social, dinheiro de todos nós) gostaram de saber que o seu patrão, afinal, conseguiu arranjar uns milhões para comprar um canal de televisão (a TVI). Como diz o nosso povo: com as calças do meu pai também eu sou homem...”.

 

Mário Ferreira contra ataca

A resposta do empresário não se fez tardar. “Temos 500 trabalhadores em layoff e não vamos despedir. Ainda vamos contratar mais em Portugal e fora”, esclareceu Mário Ferreira à Lusa, acrescentando estar a terminar um hotel em Vila Nova de Gaia e também apartamentos na zona histórica do Porto: “Temos alocados este ano 100 milhões de euros em Viana nos estaleiros e mantêm-se da mesma forma”.

O empresário tem vindo a reagir aos “ataques”. Ainda na semana passada usou o Linkedin para dizer ser “um homem de paz”: “E a quem me ataca, respondo com trabalho e obra”. É desta forma que Mário Ferreira responde às notícias divulgadas sobre as investigações do Fisco e da PJ. E acusa: “O eng.º Paulo Fernandes ao saber que hoje iria perder o negócio, que abandonou por vontade própria, demonstra ter um mau perder. Acredito na justiça e as mentiras do Correio da Manhã e Sábado não passarão disso mesmo”, esclareceu.

Já ontem garantiu que ficou “agarrado” a ações do grupo dono do Correio da Manhã, que lhe estão a dar perdas. Numa entrevista à Rádio Renascença, revelou que pediu para investir e ir ao aumento de capital da Cofina, ficando com 2,5% da empresa.

“Fui comprando ações, estavam a um preço bastante mais alto, mas como ele abandonou o negócio da forma como abandonou, as ações passaram para metade. Obviamente não as quero para nada, para mim são lixo, como é o jornal de que ele é proprietário. Mas tenho-as porque estou a perder umas centenas de milhares de euros nas ações, e neste momento não faz sentido nenhum vendê-las”, disse na mesma entrevista.

Recorde-se que, o CEO da Douro Azul é atualmente detentor de 2.125.200 ações. A preços de mercado, a participação vale 575.929 euros, tendo já chegado a valer 1.062.600 euros no pico do preço em janeiro. “Tenho poucas esperanças, a ver se o preço melhora. Se não acontecer qualquer dia vendo-as, não sei“.

Ainda esta segunda-feira, Ana Gomes e Mário Ferreira confrontaram-se no Twitter. A discussão foi iniciada por Ana Gomes, ao voltar a relembrar o negócio com a TVI. “Um navio de Mário Ferreira, comprador @tvi. Abençoado por Carla Bruni e @antoniocostapm, licenciado p/#casino na #Madeira. Aguardo q @AUT_TRIB_ADUA me esclareça como é de #impostos, quem fiscaliza e faz controlo #bcft. Ou é p/ Atlântico ser grande Ozark?”, escreveu. Desta vez, Mário Ferreira resolveu responder à publicação. “Está a tentar danificar a reputação de um cidadão exemplar, em troca de uns milhares de euros de comentários, prove que é mentira o seguinte: Paguei mais IRS em 2019 do que a senhora pagou em toda a sua vida... A senhora um dia vai cair na realidade, já que na [não] produz”, avançou o empresário, acusando Ana Gomes de mentir. E foi mais longe: “Senhora comentadora Ana Gomes, depois não se queixe das ações em tribunal, o que a senhora faz é uma perseguição financiada, sabe que mente. Não existe nada de errado no nosso navio, na verdade nem existe casino nenhum, também como a senhora sabe... Quase todos os navios têm um mini casino. Uma dúzia de máquinas, dava tanto prejuízo por falta de uso que o seu espaço foi substituído por uma zona de SPA e sauna... As suas invenções têm apenas um propósito de danificar a imagem de um cidadão cumpridor”, justificou o empresário do norte.

 

Mudanças?

Chegado à TVI, Mário Ferreira pode vir a fazer algumas mudanças no canal. Na semana passada, o empresário revelou que “se é preciso 50 funcionários não se pode ter 350”. Ao falar sobre o futuro dos media, que na sua opinião dependem da capacidade de se “reinventarem”, Mário Ferreira foi claro: “Isto tem que ver com gestão, se é preciso 50 funcionários não se pode ter 350 e isso é o que acontece em muitos destes jornais. Infelizmente, as novas tecnologias e a forma de consumo da imprensa escrita mudou e muitas destas máquinas pesadas não se ajustaram”. No entanto, mostrou-se otimista em relação ao setor. “Acredito neste setor e neste grupo de empresas em particular pelas possibilidades e instrumentos que tem”.

 

CMVM rejeita extinção da OPA

Entretanto, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) rejeitou a extinção da oferta pública de aquisição (OPA) da Cofina à Media Capital. O regulador dá agora “dez dias úteis” à dona do Correio da Manhã para que fundamente os motivos que a levaram a desistir da operação.

Foi a 25 de março que a Cofina pediu a anulação da OPA sobre 5% do capital da Media Capital (que pertencia, na maior parte, ao banco espanhol Abanca), já depois de ter cancelado a compra de 95% da dona da TVI à Prisa, justificando a decisão com uma “inesperada e muito significativa degradação da situação financeira e perspetivas da Vertix e da Media Capital”, especialmente agravadas pelo presente contexto da pandemia de covid-19. O grupo liderado por Paulo Fernandes acusou ainda a espanhola Prisa de incorrer “em violações contratuais graves” que “manifestou expressamente a intenção de não cumprir o contrato, o que afetou irremediavelmente a relação de confiança entre as partes”.

Caso a CMVM não aceite as justificações da Cofina, a empresa poderá ser obrigada a lançar uma OPA sobre os 5% da Media Capital – distribuídos por pequenos acionistas (sendo o maior o Abanca) –, uma operação que pode custar cerca de 10 milhões de euros, caso todos os acionistas deem o aval positivo. Este é também o valor contestado em tribunal pela Prisa, correspondente à caução do negócio cancelado pela Cofina, e que o grupo espanhol considera ser seu por direito.

 

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