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Deixem os Discos Girar #9. Mínima Luz dos Três Tristes Tigres
Três Tristes Tigres

Deixem os Discos Girar #9. Mínima Luz dos Três Tristes Tigres

Três Tristes Tigres Cristina P. Pinto Hugo Geada 19/05/2020 21:10

O quarto disco dos Três Tristes Tigres, lançado em plena pandemia, mais de 20 anos depois do seu último disco, é também um dos seus mais ambiciosos e experimentais lançamentos.

Podemos conhecer os Três Tristes Tigres através do seu feliz e descontraído pop-rock (quem nunca tentou imitar o timbre de Ana Deus da introdução à capela de O Mundo a Meus Pés que atire a primeira pedra), mas agora, mais de 20 anos depois do seu último disco de originais, a banda renasce. 

O grupo, composto pela supracitada vocalista, Ana Deus, o guitarrista Alexandre Soares e a letrista Regina Guimarães, atiram-se de cabeça e criam aquele que é um dos seus mais ambiciosos e experimentais discos, com canções com temas pesados, como o suícidio, e com instrumentais que usam loops, samples e guitarradas que fariam Kevin Shields dos My Bloody Valentine corar.

Primeiro, o contexto (por Alexandre Soares):

Este disco foi onde tive oportunidade de desenvolver ideias que vão desde o fundir do som da guitarra elétrica com o sintetizador como base para o que elaboro depois, falo aqui do tema Galanteio. No meio de um ritmo minimal  surgem do outro lado a guitarra acústica a fazer contraponto num modo mais aberto, e pequenos samples a pontuar e a dar espaço à bem presente voz. Quando este tema apareceu, pareceu-me  que estava a alargar o caminho que procurava para o som deste disco, e em parte define-o.

No desenvolvimento de temas como o Jasmim, o À tona, e o Estado de espírito, seguimos uma linha que ilustra mais os encontros imediatos entre os textos trazidos pela voz da Ana, com a guitarra elétrica. A essas improvisações juntaram-se mais tarde electrónica e percussão, sempre num sentido orgânico, com a ideia de transportar esse universo vivo das primeiras gravações. Rui Martelo no baixo elétrico, e Fred Ferreira na percussão foram os convidados e completaram essas histórias de forma livre.

Língua franca dá início a outra viagem de onde fazem parte também os outros temas que lhe seguem, Tigre, Curativo e Purpurina. Muito de desenvolvimento interior, e que procuram que quem ouça se entregue também. Mistura de timbres bastante trabalhados, alguns de origem concreta processados depois, e todos os outros elementos de som falados anteriormente para criarem uma paleta para servir a composição. Visita feliz também da Harpa de Angélica Salvi convidada a este caminho. Surrealina, é uma clara demo, minimal e dura. Terá outro modo ao vivo.

E, agora, as faixas (por Ana Deus):

Galanteio 

"E tu que vento semeias e vento colhes para que o ar se respire"

Encontrei esta frase escrita num caderno. Pareceu-me da Regina pelo seu lado proverbial. Pedi-lhe que fizesse uma letra com esse refrão. Não se lembrava de ter escrito a frase mas na volta do correio mandou-me um "Mais do que um galanteio" com o refrão mais poderoso, na minha opinião, de todas as canções TTT.

"Faz deste parco momento um passado suficiente para se tornar presente fora do espaço e do tempo"

Um contraponto aos "Anos noventa bem medidos" do Zap canal.

À tona

Tropecei nas nets no Life is fine do Langston Hughes. Não conhecia este autor mas esta espécie de estória, onde o personagem à beira do precipício (literalmente) escolhe sempre não se atirar, atraiu-me mais do que o abismo. A Regina traduziu e teceu um belo refrão:

"A vida sabe-me bem 
viva me quero manter
morrer de amor é possivel
mas eu nasci pra viver"

Jasmim

Foi das primeiras a ser feita (letra e música). A partilha daquilo que nos é naturalmente comum mas que temos constantemente de reclamar. Todos flores do mesmo jardim.

Estado de espírito 

A Regina mandou-me este "estado" na véspera de uma operação e já no hospital. A idade é um estado de espírito diz-se mas esta canção é anterior a qualquer idade é o estado antes de todas as formas e formações. Talvez seja isso o espírito.

Língua franca

Pedi uma letra em que tudo comunicasse entre si. Grandes e pequenos, animais plantas minerais, todos. Será a letra mais bela do disco. Infelizmente não a pude gravar toda por ser imensa. Tentei cantar no final do tema como se me fundisse com o resto. Voz quase imperceptível e pequena (coloquei essa parte da letra no vídeo para que se entendesse).

Tigre

Tradução da Regina do poema de William Blake "The tyger". Cantei à beira do tigre adormecido, suavemente para que não acordasse.

Curativo

Foi a resposta da Regina ao meu pedido de responso curativo. Fizemo-la num dia mais triste. Saiu logo exatamente como está gravada. Só refizemos a parte eletrónica e a voz processada que aparece mais à frente.

Purpurina

Uma das minhas sugestões para as letras do disco foram textos proféticos. Com letra do Luca Argel este tema será a visão  mais apocalíptica em resposta ao meu pedido. O apocalipse como um novo Éden.

Surrealina

Tento sempre escrever algum tema por disco. Este foi escrito à beira do sono e reescrito de manhã. Num mundo "perfeito" sem custos nem doenças nem preconceitos. Sonhar não custa.

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