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Da velha estante – O Covil de Wolf Barker

Da velha estante – O Covil de Wolf Barker

Ricardo António Alves 18/05/2020 18:47


Mickey é fruto de um desaire. O estúdio de animação de Walt Disney (1901-1966) produzia desde 1927, para a Universal, os desenhos animados do Coelho Osvaldo. Um diferendo fez com que Walt perdesse os direitos sobre a personagem, que foi entregue a Walter Lantz (1899-1994), o futuro criador de Woody Woodpecker (o Pica-Pau).
Ub Iwerks (1901-1971), que estivera também na criação do coelho, dá o lápis a um rato imaginado por Disney, estreando-se em 1928 nos cinemas com a curta-metragem Plane Crazy. Um sucesso retumbante teria de levar Mickey aos comics, tal como sucedera já com outro clássico, o Gato Félix – criado em 1919 por Pat Sullivan e Otto Messmer –, então mais célebre. Tanto que Monteiro Lobato fá-lo aparecer numa história do Sítio do Pica-Pau Amarelo, em 1928, e, no ano seguinte, Almada Negreiros executa um baixo-relevo que hoje pode ser visto no Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés.

Desafiados pela King Features Syndicate, os criadores asseguram as primeiras tiras, mas cedo passam a tarefa a Floyd Gottfredson (1905-1986). Com ele, Mickey transforma progressivamente uma personagem cómica num caráter mais bem delineado, herói íntegro cuja idealização já foi observado dever-se a uma ética mórmon, religião professada por Floyd. Este não apenas marcou indelevelmente a série, na qual trabalhou 45 anos, como criou algumas personagens marcantes: Chiquinho e Francisquinho, Esquálidus, o Prof. Gavião e, máxime, o Mancha Negra, entre outros.
O livro de hoje traz-nos três histórias: O Covil de Wolf Barker (1933) é a primeira narrativa de largo fôlego deste rato boa-praça, em coautoria, no argumento, de Ted Osborne (1900-1968). Ausente no estrangeiro, Mortimer, tio de Minnie, pede a Mickey que tome conta do seu rancho no Oeste, onde cria cabeças de gado. O convite é acolhido com entusiasmo pelo casal de ratos e seus amigos: Horácio e Clarabela, a que se junta o Pateta, ainda muito incipiente e secundário, pois fora criado no ano anterior, ainda sem direito ao nome original, Goofy, mas a um igualmente cómico “Dippy Dawg”, um e outro salientando o caráter trapalhão desta personagem, futuro super-herói de capa e pijama, graças a uns superamendoins... História movimentada, em que Mickey tem de haver-se com um ladrão de gado, o desenho é muito tributário das figuras arredondadas dos filmes de animação; um prazer retro, nomeadamente os muitos cavalos caprichosos desta coboiada...
Entremeado por uma curta história de uma página, segue-se Os Sobrinhos do Mickey, de 1932, sucessão de gags de cortar a respiração, em que Chiquinho e Francisquinho estão longe de ter o carácter atilado que viríamos a conhecer. Uma nota curiosa: a arte-final foi feita por Al Taliaferro (1905-1969), que cinco anos mais tarde, com Ted Osborne, irá criar os sobrinhos do Donald, inspirando-se nestes de Mickey. E serão os do pato, e não os do rato, que ganharão o epíteto de sobrinhos por antonomásia...
 
Mickey – O Covil de Wolf Barker

Texto Floyd Gottfredson e Ted Osborne Desenho Floyd Gottfredson
Editora Abril Morumbi, Algés, 1990
 
BDTECA
 
Western de saias Se O Covil de Wolf Barker é um western em que o outrora mal chamado “sexo fraco” está no seu lugar e é alvo de serenatas ou raptos, neste Hippolyte, álbum assinado por duas mulheres, Clotilde Bruneau (texto) e Carole Chaland (desenhos), a coisa fia muito mais fino. Numa cidadezinha perdida no deserto do Arizona, em 1872, vivem 27 pessoas, todas elas mulheres e, literalmente, mulheres de armas. O segredo da sua sobrevivência reside na união: só assim podem fazer face aos desperados e outros indesejáveis que passam rente à porta. Desta vez foi um abelhudo, um jornalista que terá o que contar. Terá? Uma recriação do mito das amazonas, edição Glénat / Vents d’Ouest.
 
Zola O autor de Germinal é um gigante do romance oitocentista. Como seria de esperar, obra imensa e figura apaixonante – Polanski lembrou em J’Accuse (2019) o heroísmo do escritor, que arriscou a pele em nome da decência humana –, um corpus literário que tem fornecido o audiovisual  e também a BD. Ainda no ano passado, L’Affaire Zola, uma biografia por Chapuzet, Grave e Girard (Glénat); já este ano, dois romances conheceram adaptação: Pot-Bouille, ou a história de um arrivista, por Éric Staine e Cédric Simon (Les Arènes) e Au Bonheur des Dames (o microcosmos dos grandes armazéns de moda e lar na apoteose da burguesia), por Agnès Maupré, que a Casterman lançará em junho.
 

 
 

 

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