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Michel Serres. As várias crises da Crise

Michel Serres. As várias crises da Crise

Pedro Miranda 15/05/2020 14:56

Não podemos integrar o mundo, se não conhecemos, como hoje sucede, o mundo... "marinheiros e aviadores dirigem-se agora ao GPS, sem estrelas; os próprios astrónomos trabalham diante de um ecrã. Para saber o tempo que faz, já ninguém observa o céu, toda a gente vê a meteorologia na televisão. Acredita-se na bondade da natureza e na indulgência dos tigres", escreve Michel Serres

Com grande expressão e extensão no tempo e no espaço, estão aí mudanças recentes, não acomodadas por instituições forjadas e formadas para uma outra era, que ameaçam tornar-se placas tectónicas em colisão (a tensão já se sente): desde o Neolítico, o humano lidara com a natureza, vivera a seu lado, estava no mundo; em larga escala, até meados do século XX, os humanos dedicaram-se à agricultura. Num ápice, este mundo, que estava ligado por mais de 10 mil anos, desaparece, (n)uma daquelas cisões determinantes na compreensão do - de um novo - humano (processo de hominescência, formação de um novo humano; "esta ruptura pode ser um acontecimento que ultrapassa, e de longe, a história vulgar", p.21). A ida para as cidades, a tornar-se hegemónica, concentração até em megalópoles, um fenómeno igualmente novo ("o esgotamento brutal da população rural constitui uma das rupturas mais importantes e mais raras do século", p.21), conduz a uma inaudita e inédita ignorância do mundo. Somos acosmistas - como que vinculados e praticantes de uma teoria filosófica que nega a realidade do mundo sensível. Sejam mais fisicistas, reclama Michel Serres. Não podemos integrar o mundo, se não conhecemos, como hoje sucede, o mundo ("marinheiros e aviadores dirigem-se agora ao GPS, sem estrelas; os próprios astrónomos trabalham diante de um ecrã. Para saber o tempo que faz, já ninguém observa o céu, toda a gente vê a meteorologia na televisão. Acredita-se na bondade da natureza e na indulgência dos tigres", p.23). Para a terra, para o mundo rural, para o campo vêm, agora, os ricos da cidade, com uma segunda casa.

De um mundo onde o patológico era a norma, a saúde passou a ser a regra; nunca a mobilidade, de pessoas, animais, mercadorias se imaginou chegar aos níveis actuais; a esperança média de vida, ainda há pouco mais de um século, na casa dos trinta (e algo), agora, nos países desenvolvidos do Ocidente, na casa dos oitenta (e a cada ano, ganhos de três a seis meses, em esperança média de vida, segundo os peritos). A dor, experiência geral e quotidiana, da qual derivavam também comportamentos e moral, ficou entre parêntesis com antálgicos, analgésicos e anestésicos. Os medium de então não serão, por consequência, os que experimentaremos por estes dias. E outras consequências gráficas: o alistamento voluntário em exército de quem sabia durar pouco vs quem tem uma esperança média de vida muito longa (face a um passado recente) e que vê a própria instituição (militar) com grande cepticismo. Os casais que eram para 15 ou 20 anos e que agora serão para bem mais décadas - ainda que, em rigor, nem a atracção pelo exército, nem o valor fidelidade tenha que estar resolvido ou medido com tais relógios.

E o mundo foi, impressivamente, ignorado a Ocidente. Mas o mundo rebela-se contra o esquema, inventado na Idade Média e desconhecido da Antiguidade, (dicotómico) sujeito-objecto. O senhor (o humano) recebe hoje reverberações, gritos esdrúxulos do escravo (mundo), com este dominar ou submeter o dito senhor (clima, enxurradas, etc.) que o ignorava/desprezava/desconhecia (atente-se no esvaziamento dos peixes dos oceanos, principal alimento dos pobres). Em vez de cívicos, devemos ser cívitos, implicar a política numa relação a três, não já sujeito vs sujeito, ou sujeito vs sociedade, mas agora impondo-se o mundo numa equação a três que, a ser de disputa, a ser de vitória-derrota, implicará a destruição do humano.

E quem fala pelo mundo? Não, seguramente, os políticos, que desconhecem, quase sempre, e quase por completo, a ciência, o saber que está em jogo; carecemos dos cientistas (Ciências da terra e da Vida), dos que conhecem, de há muito, o pulsar da terra e da vida; e no entanto, eles não poderão ser os novos aristocratas (e neste caso, tecnocratas), a nova classe que se impõe sobre os demais - sucedendo, historicamente, assim, na teorização de Michel Serres, a sacerdotes ("a religião geriu os homens", p.108), militares ("pretendendo defendê-los [às populações], o exército governou-os e, frequentemente, escravizou-os" e economistas ("a economia começou a reger as suas vidas, por vezes implacavelmente", p.109), as épocas de Júpiter, Marte e Quirino. Tais classes têm lugar, ainda que não em sentido impositivo e hegemónico (na cidade). No que é urgente estudar hoje, na necessidade de recuperar no filósofo o cientista que originalmente também incluía, na existência de grande parte de políticos sem esta preparação, no futuro, na dinâmica e inovação, nas grandes descobertas que hoje estão nas ciências duras, Serres faz aqui lembrar George Steiner.

Serres propõe o seguinte juramento aos cientistas: "No que depender de mim, juro: não pôr os meus conhecimentos, as minhas invenções e as aplicações que delas possa retirar ao serviço da violência, da destruição ou da morte, do aumento da miséria ou da ignorância, da escravidão ou da desigualdade, mas, pelo contrário, devotá-los à igualdade entre os homens, à sua sobrevivência, à sua elevação e à sua liberdade" (p.108). Laicos, jurem não servir nenhum interesse militar ou económico (p.109).

O filósofo que principiou por se licenciar em Matemática e do qual sai um tom optimista sobre o papel da internet enquanto fautora de democracia, acabando com inacessibilidades ao conhecimento, saber (este) que estabelecia hierarquias - porventura, diga-se, um optimismo que não tem tido correspondência na realidade, agora que constatamos um papel muito negativo das redes sociais nas democracias, e partindo, de resto, de um pressuposto igualitário altamente discutível no que concerne aos graus de conhecimento, aptidão para tratar/trabalhar informação/conhecimento/saber, sugestão que desemboca no participai!, que se deseja, mas acoplando um "a tempo e a destempo" menos compreensível: "gostaria de escrever narrativas, canções, poemas, mil textos entusiásticos para encorajar todas as mulheres e todos os homens a intervir, a tempo e a destempo, em todos os assuntos públicos que lhes digam respeito ou que não lhes digam respeito" (p.114) - é um crítico da separação das ciências duras das humanas e sociais, considerando estas últimas "uma espécie de subsecção das ciências da vida e da Terra. E reciprocamente"(p.102). E vê uma "traição dos letrados" na ausência de uma acomodação, de um aggiornamento, de um novo programa para o mundo que resulte das grandes mudanças ocorridas no século XX: "confrontados com alterações mínimas quando comparadas com as nossas, os pensadores do século XIX promoveram dezenas de novos programas políticos, utopias e pseudociências incluídas. Perante os nossos abalos gigantescos, os do século XX, nada" (p.115). Entre os grandes desafios do nosso tempo está o confronto do saber (conhecimento) e (com) da ética. A filosofia deve meditar muito bem nos conflitos inesperados entre a ciência e o direito, entre o bem comum e a verdade (p.108). E ao humano, sobretudo, compete mobilizar uma inteligência inteira: "Quanto ao Homo, detém a inteligência. Não cessou de utilizar o seu assinalável poder, mas a maior parte das vezes para dominar, ser o primeiro, tornar-se o mais forte, esmagar todas as coisas e todos os humanos à sua passagem, ganhar. Usando-a como uma arma, venceu a natureza e os seus pares miseráveis, no decurso de uma evolução guerreira que, de facto, se cumpre nessa vitória, mas é um triunfo tão paradoxal que pode desencadear a erradicação da espécie. Como evitar uma tal derrota? Mudando a arma nociva: sim, a inteligência. Ainda do lado da peçonha e da mordedura, ela deve mudar o mais depressa possível e sob risco gravíssimo, da vontade de poder à partilha, da guerra à paz, do Ódio ao Amor" (p.116)

A informática propõe novos modos de armazenar, tratar, emitir e receber informação. Antes dela, a impressão, no século XV e a escrita, antes de Jesus Cristo, haviam gerado mudanças igualmente de alcance tremendo. Tecnologias suaves, mais do que tecnologias duras na base de grandes movimentos. Entre 1960 e 1965 dão-se as últimas revoluções camponesas em França, da Bretanha a Avinhão; entre 1960 e 1962, dá-se o Concílio Vaticano II que, pela sua actualização, "perturbou, ou melhor, pôs em desequilíbrio a maior religião mundial"; em 1968, os movimentos estudantis espalhavam-se por toda a parte enquanto a bomba atómica se tornava nuclear. Muita gente que só raciocina com base na política e na economia, não reparava nestes três acontecimentos decisivos do século pretérito dado que "afectavam o que há, porventura, de mais longo e de mais profundo nas nossas tradições e nas nossas culturas: o religioso, erudito ou cultural, o militar, o económico" (p.43), ou seja, as classes enunciadas por Georges Dumézil que nos trouxeram até ao presente. Para lá, ou no subsolo da crise financeira que se tornou económica, há cerca de dez anos, outros elementos se tocavam já.

 

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