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José Paulo do Carmo 15/05/2020
José Paulo do Carmo

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Os dias das pequenas coisas

Talvez por isso Portugal esteja por esta altura tão bem cotado no combate à Covid. Sempre fomos bons a ficar em casa e a queixarmo-nos da vida. À entrada a pedinte do costume também já se protege e desinfeta de quando em vez o chapéu onde guarda as moedas.

Os dias das pequenas coisas (não confundir com dias de coisas pequenas…). Foi assim a minha semana de regresso progressivo à normalidade. Dar-me oportunidade de degustar da liberdade de caminhar retirando felicidade dos mais simples prazeres. Sair à rua, olhar as pessoas e perceber o que se alterou e o que se mantém igual. Ouvir as angústias e incertezas de quem se encontra, por acaso, na esquina do bairro e se oferece a dois dedos de conversa. Adivinhar pensamentos e construir histórias através de expressões e atitudes. Comecei pelo cabeleireiro. As saudades que eu tinha deste ritual (e o que estava a precisar!), o meu pai ainda se ofereceu para mo cortar mas não é apenas cabelo. É todo um protocolo só meu, do sair de casa a pé, atravessar Campo de Ourique pela Ferreira Borges, (a minha rua preferida de Lisboa) e chegar por fim ao Gabriel, já nas Amoreiras onde obras de remodelação se misturam com barbeiros de viseira, máscara e luvas, a fazer lembrar um videoclip dos Daft Punk.

Pelo caminho vou encontrando conhecidos. Percebo que ainda nos estamos a habituar, (uns mais rápido do que outros) e que a tentação do cumprimento com um bacalhau já não é para todos e mesmo os que cometem tal ignomínia rapidamente invertem a marcha do braço e enfiam a mão no bolso como se o movimento sempre tivesse sido pensado assim. A cara semicoberta pelo bocado de pano não esconde o embaraço. A conversa adapta-se perfeitamente ao registo português do vai-se andando, agora com a adição do “na medida do possível” e de um “veja lá o que nos foi acontecer”. Talvez por isso Portugal esteja por esta altura tão bem cotado no combate à Covid. Sempre fomos bons a ficar em casa e a queixarmo-nos da vida. À entrada a pedinte do costume também já se protege e desinfeta de quando em vez o chapéu onde guarda as moedas.

Aproveito também para percorrer o bairro de uma ponta à outra e paro na pastelaria “Az de Comer” onde gosto de comprar pão e o folhado da casa com doce de ovos e amêndoas mas também aquilo que não se compra, a simpatia constante dos funcionários que nem nesta altura se negam a um sorriso inefável. Continuo pela calçada e um casal que vem de frente atravessa para o outro lado para não se cruzar comigo embora tenha tomado banho e me apresente de máscara. As pessoas ficaram ainda mais estranhas, têm medo umas das outras e olham-se desconfiadas. Tempo para ver o que está fechado e o que já se encontra aberto e dá-me especial gozo ver a forma como alguns se estão a adaptar para seguir em frente. Também eu sigo e vou ao minimercado comprar fruta. Entram dois de cada vez o que me dá tempo para cumprimentar ao longe mais uns amigos e para reparar numa senhora que rosna e vocifera alguns impropérios para o ar porque só estou a 3 metros de distância dela. Altura ideal para os que têm receio até do vento se sentirem menos sozinhos.

Impressionam-me os idosos que encontro com cheiro a solidão e que são recriminados por gente sem paciência pela sua falta de jeito para esta nova realidade. Não é fácil para quem vê a ampulheta do tempo esgotar-se ainda ter de levar com este melancólico isolamento. Talvez por isso não se preocupem tanto e estejam mais preocupados em aproveitar o que ainda lhes resta. Admiro-os por isso. Recordo por isso Sara Afonso, nascida a 13 de Maio ,uma das mais brilhantes artistas contemporâneas do nosso país, também ela confinada pela história como mulher de Almada Negreiros. Retratava a arte popular e o nosso tradicionalismo. Estes passeios pela rua a contemplar “tempos, lugares e as coisas simples”. No fundo, “os dias das pequenas coisas” nome que deu corpo a uma exposição sua. Lá ao fundo a porta da Trempe (restaurante na Coelho da Rocha, de que tanto gosto ) já está aberta. Devem estar em limpezas para reabrir. Gosto de pessoas simpáticas e de bem com a vida. Passarei por lá amanhã…

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