28/10/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 13/05/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Este não é um tempo de cenários

A prova de fogo no combate à covid-19 é o desconfinamento em cada país e a evolução planetária da doença.

1. Não é preciso ser um especialista em virologia para perceber que este mês de maio é absolutamente essencial para ter uma ideia realista do que vai acontecer com o levantamento progressivo das restrições de confinamento.

Nas próximas semanas, a questão vai colocar-se num patamar supranacional e, por isso, vai passar a ter menos significado a situação de cada país, ganhando mais importância as visões globais, senão ao nível planetário, pelo menos em termos de continentes e subcontinentes.

O que aí vem é uma incógnita. Mas todos já percebemos pelo menos duas coisas. Uma é que o evoluir da pandemia depende da soma dos comportamentos, da capacidade imunitária de cada pessoa e de cada povo. A outra é que a economia tem de ser ativada, sob pena de a crise sanitária ser ultrapassada em consequências negativas por uma convulsão social, geradora de fenómenos de fome, de violência e de caos em termos planetários, com uma dimensão potencialmente dramática. Num mundo que caminha para os oito mil milhões de seres, um alastrar ainda maior da pobreza nos países menos desenvolvidos e nos núcleos dos mais miseráveis e excluídos das sociedades prósperas seria um cataclismo.

De uma forma ou de outra, ligeiramente mais cedo ou um pouco mais tarde, o mundo tem de tentar voltar a uma certa normalidade, ainda que com regras e elementos de prudência suplementares e com possíveis avanços e recuos. Os passos mais decisivos são os desconfinamentos nacionais e, seguidamente, a abertura de fronteiras. Só a partir daí se poderá ter uma ideia do que vai acontecer, com base em elementos concretos.

Havendo tantas incógnitas, é com espanto que se toma conhecimento de dezenas de estudos, que traçam cenários económicos, que vão de um otimismo relativo ao puro catastrofismo.

Empresas de consultores, agências de rating, bancos centrais ou nacionais, institutos de toda a espécie, sociólogos, académicos, universidades, organismos internacionais desataram a produzir cenários baseados sabe-se lá em quê. Não é preciso ser um Einstein nem ter um quociente de inteligência de 150% para perceber que nada daquilo tem fundamento.

Estamos dependentes do vírus, da sua evolução ou extinção natural, da imunidade que criarmos, de uma vacina ou de um medicamento. Esses são os fatores que vão determinar tudo o resto, nomeadamente a retoma ou não da economia, que depende do comportamento humano, que está mais condicionado do que nunca.

Tentar avançar a caminho de uma relativa normalidade é essencial para evitar a morte lenta da nossa sociedade. Mas desatar a fazer cenários e a construir modelos sem ver como as coisas evoluem no terreno de forma efetiva é pura especulação. A economia é excessivamente volúvel e impressível nesta altura. Os peritos e sábios começam por errar em tempos normais. Se assim é, o que será agora? Uma coisa é ouvir uma análise do que está a suceder neste momento, por quem sabe e tem autoridade e experiência para falar. Outra é ouvir quem governa o quotidiano ou tem responsabilidades imediatas, nos Governos, nas oposições ou em organizações. Outra, porém, é lançar projeções e colocá-las no mundo acrítico da comunicação. Isso são bitaites. Mais valia estarem quietos e fazerem qualquer coisa de útil para a sociedade, como dizia uma figura de uma notável série emitida na televisão e interpretada por Nuno Lopes, um ator genial.

 

2. O atraso na reação dos governantes portugueses perante a aproximação da covid-19 justificou, e bem, a necessidade de se proceder a compras em cima da hora e com ajustes diretos. Mais vale tarde do que nunca, diz o povo, com razão.

O procedimento de urgência foi e é correto mas, à boa maneira portuguesa, a coisa começou a descambar. Logo se percebeu que havia umas quantas empresas que monopolizavam as aquisições e uns amigalhaços de permeio, mais umas recomendações a apadrinhar este ou aquele.

É quase sempre assim. A prova mais recente antes da covid-19 é a situação referente à reconstrução depois dos grandes incêndios, em que o primeiro-ministro era o mesmo e a máquina governativa, praticamente, também. A confusão foi total no combate aos fogos e na reconstrução que se seguiu, ao ponto de haver casos de justiça, para nossa vergonha coletiva.

A rapidez não é incompatível com a transparência. A adjudicação direta está prevista, mas tem de ser clara. Empresas de brindes passarem a ser os importadores oficiais do Estado tem de ser uma coisa muito bem explicada. É preciso saber se o que foi comprado e pago tinha qualidade e funciona, quando se sabe que há material inoperacional que está a ser distribuído noutros países. É preciso saber também onde param os ventiladores que já pagámos e não andarmos a dizer que a culpa é da China, que mudou procedimentos, o que, obviamente, soa a falso. A inatividade da nossa diplomacia, que deveria ser económica nos dias de hoje, suscita questões. A máquina dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, que ocupa um prédio inteiro na Avenida da República, pura e simplesmente pifou.

O Governo não pode deixar pairar a dúvida sobre estes processos. Os partidos da geringonça, que vai subsistindo, não podem ignorar a matéria. A oposição esclarecida e séria tem de estar vigilante, assim como o Ministério Público e o Tribunal de Contas. Atempadamente foram feitos alertas a quem de direito sobre estas matérias, sem grande êxito. Seria péssimo que as compras urgentes de hoje virassem comissões de inquérito amanhã. Até porque estas servem para se perceber muitas coisas, mas não para sancionar os culpados, como se viu, por exemplo, com a que analisou as questões relacionadas com o assalto ao BES. Dali saíram muitas verdades, mas nos tribunais não se passa nada. Ainda agora, os portugueses desembolsaram quase mil milhões para o Novo Banco, o que é sensivelmente o mesmo que o Governo disponibilizou em apoios à economia desde a chegada da covid-19. A banca, no seu estoiro monumental, já nos custou cerca de 25 mil milhões de euros. Não podemos dar-nos ao luxo de sermos enganados outra vez, sobretudo agora, numa crise sanitária de proporções gravíssimas.

 

Escreve à quarta-feira

 

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