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O apelo do totalitarismo como ficção para estúpidos

O apelo do totalitarismo como ficção para estúpidos

Diogo Vaz Pinto 12/05/2020 20:32

Na adaptação do magistral romance de Philip Roth, “A Conspiração Contra a América”, a HBO serve à audiência uma autópsia das risíveis e banais estupidezes que preparam o caminho para as novas formas de fascismo.

 

Quando a História ganha fôlego diante dos nossos olhos, e a fina camada de paz social, sujeita a uma pressão incomum, ameaça estalar, quando o aspeto dessas situações triviais que submergem o calendário, desses eventos que nos dizem as horas, são sobressaltados, e a expressão do dia-a-dia começa a alterar-se, entre a confusão que toma conta dos instrumentos de navegação e a ansiedade que faz de nós um baloiço, o mais difícil é ter a certeza daquilo que se está a ler. Ninguém sabe que elementos traduzem um alinhamento relevante de factos alternativos para os quais devemos estar especialmente atentos. Mas há alturas em que, sem aviso, a temperatura cai alguns graus e parece que conseguimos ver a nossa respiração misturar-se com a própria trama do presente, a ponto de isso nos afetar o ritmo interior. É como se, intimamente, uma sirene explodisse, incitando-nos a assumir posições numa altura em que cada acto parece ver redobrado o seu impacto. Talvez a realidade e os seus encadeamentos não se deixem conter numa narrativa, mas o certo é que não encontrámos ainda outra maneira de a desenhar senão alinhando cronologicamente uma série de eventos para perceber como respiram entre si um hálito comum.

Na adaptação a uma mini-série da HBO do devastador romance de Philip Roth "A Conspiração Contra a América", David Simon, o criador dessa obra-prima que é "The Wire" no fulgurante género da ficção televisiva moderna, consegue provocar-nos essa sensação do presente a sofrer de urticária, entre uma comichão nervosa e a sensação de ser estrangulado por uma série de eventos que excitam a mente histórica. Trata-se de uma adaptação ousada e bastante fiel de um romance que, tendo sido publicado em 2004, foi escrito sem pensar na recorrência de certos tumultos que levam as sociedades a ceder ao apelo do totalitarismo. Roth, que morreu em 2018, tendo assistido à ascensão de um bufão demagogo, com o seu patético carisma tão ridículo quanto perigoso, mostrou estar consciente de que a sua vida ia acabar num momento em que o presente sorve ruidosamente o caldo quente que contém em si elementos de fantasia e absurdo, mitos e delírios grosseiros, no que pode vir a predispô-lo para se coroar e agir com um desprezo absoluto pelas lições do passado. Ainda que o romancista tenha sempre insistido que não lhe passou pela cabeça que o seu livro pudesse ser lido como uma alegoria política, o certo é que as intenções de um criador acabam invariavelmente por ser atropeladas pelas circunstâncias históricas.

"A Conspiração Contra a América" constrói um sumptuoso mecanismo de indagação histórica em que, substituindo apenas um fio na tapeçaria da história americana, Roth consegue desencadear uma convulsão tremenda, uma deriva que ele irá conter, depois, num dos mais terríficos parêntesis da ficção contemporânea, e que serve não só como um instrumento de análise da evolução das sociedades modernas como um sumptuoso exemplo da fertilidade do romance em face de momentos de incerteza e crise como aquele que estamos a viver. No fundo, este é hoje, como "1984" foi durante as últimas décadas, um dos mais vigorosos testemunhos de que este género, ao contrário do que afirmam tantos críticos ociosos, enfadados nas suas bolhas existenciais, continua tão vivo e eficaz como em qualquer outra época. Mas, como em qualquer outra época, o que não abunda são esses leitores capazes de transpor as grandes ficções para uma análise fina da realidade e dos seus sobressaltos.

Com aquela selvagem paciência de um mestre, Roth supera escritores estilisticamente muito mais dotados, como Bellow ou Updike, ao escolher um perturbador foco íntimo, escrevendo o romance como se se tratasse de um livro de memórias, do ponto de vista do miúdo que ele foi, quando tinha dez anos de idade. Philip vê a sua infância perder-se numa derrocada à medida que a sua família, os Levin, que vivem num enclave judaico de Newark, sofrem com a ascensão de Charles Lindbergh, o herói da aviação e simpatizante nazi que, numa hipotética reviravolta, vence as eleições presidenciais de 1940 frente a Franklin D. Roosevelt, levando o país a uma viragem nacionalista que desencadeia a perseguição generalizada de judeus e outras minorias nos EUA.

Muito antes de a realidade vir testemunhar a favor dos poderes premonitórios desta forma de engenharia alternativa a partir dos componentes históricos, o romance de Roth fora já aclamado como uma “obra-prima contrafactual” da história pessoal, um relato autobiográfico em que o Philip adulto regressa ao bairro de Weequahic, em Newark, onde se criou, para desenhar uma hipótese infernal que ameaça qualquer confiança que tenhamos quanto a esse vago optimismo de que a História, apesar de alguns percalços, de momentâneas derivas - em que ascende um cheiro a enxofre e uma ou outra geração são engolidas, como sacrifício humano, às galerias inferiores e que servem, de resto, para nos assustar de volta para o caminho correcto -, invariavelmente encontra o seu rumo, e leva-nos para a frente, na direcção de um qualquer destino grandioso.

A série de seis episódios da HBO retoma o fio da História no início do verão de 1940, corta-o e faz um remendo, com Lindbergh a ganhar ímpeto na sua campanha nos meses que se seguem com a sua política de se insular dos problemas da Europa, colocando os interesses dos americanos em primeiro lugar. Com essa política de se alhear da guerra enquanto o nazismo avança pelo Velho Continente, o candidato republicano mistura ao seu perfume de heroísmo um travo de xenofobia que se irá acentuar nos anos seguintes decompondo a fórmula que o fascismo usa para desagregar uma sociedade aproveitando-se das suas divisões internas para, estimulando a suspeita e o rancor, florescer. Ao lado de David Simon está uma vez mais Ed Burns, numa adaptação que, apesar de ser uma tradução supremamente competente, vai soluçando e perde algum do rasgo contemplativo que é próprio de um relato na primeira pessoa, e, ainda para mais, de um romancista que tece uma cumplicidade extraordinária face a uma versão alternativa de si mesmo, a do miúdo que assistiu com todo o fulgor sugestionável da infância à ruptura da normalidade e segurança que fez de Roth um fascinante leitor da triunfante e medíocre mitologia norte-americana.

Mas se a série transfere o ângulo da primeira para uma terceira pessoa que permite englobar a experiência de toda a família Levin desse rapto histórico, é aqui que os criadores desta série provam que, embora a adaptação de um romance seja uma audácia inédita para a dupla Simon-Burns, este está longe de ser um território inexplorado, e é evidente que não há erros de palmatória nesta tradução entre dois universos distantes ainda que complementares. Mas talvez tenha sido o imenso escrúpulo e a fidelidade à matéria original o que leva a que, no fim, esta mini-série, ainda que formulando uma reflexão impactante, numa reconstrução impecável e com desempenhos irrepreensíveis por parte dos actores, tenha dificuldade em ser mais do que um exemplo de perfeita relojoaria fílmica. A série impõe-se sobretudo pela eficácia da sua técnica de tradução, pela forma como nos mostra que nos momentos em que a História levanta a cabeça dos livros e sente tonturas no seu esforço de enquadrar o presente, não se percebe logo que um sismo já tomou conta dos labirínticos processos onde um desvio de alguns graus começa a fazer equipas, explorar rivalidades.

O clímax nestas coisas só chega à consciência quando esta se debruça sobre elas em retrospetiva. É como um rumor, tantas vezes fácil de ignorar ou desacreditar. Uma anedota que se ouve aqui, uma história que faz as rondas pelas ruas, nas mesas dos cafés, à porta dos bares. E é neste aspeto que a série mais impressiona, montando um circuito de baixa intensidade para levar a audiência a deslindar, nessas cenas quotidianas, os avisos discretos que vão juntando as peças a partir das quais se pode vislumbrar um ominoso quadro de larga escala em que se torna patente como as marés da História mudam. Como nota Charles Bramesco, crítico de cinema e televisão do The Guardian, é neste ponto que a adaptação do romance, sublinhando os paralelismos com a emergência do populismo nos EUA, “confronta a audiência com o mais peculiar e crucial dos sinais da ascensão de um ditador, que é o facto de tudo ocorrer de forma tão banal até que, numa súbita e horrífica viragem, a realidade muda de figura”.

Num artigo de Richard Brody na The New Yorker, em 2017, tomando pulso dessas linhas de interpretação que o romance de Roth oferece para a situação política actual nos EUA, o crítico diz-nos que o livro explora, por um lado, a susceptibilidade do individualismo norte-americano ao culto das celebridas, e a fé na democracia que pode resvalar numa tirania da maioria, o que expõe uma particular vulnerabilidade a políticos sem escrúpulos que conquistam o apoio popular e absorvem os três ramos do executivo; e, por outro lado, esse instinto americano de valorizar a liberdade acima de tudo, sempre alerta para depravações políticas com vista a sufocá-la. Brody acrescenta ainda que o apelo trágico deste romance nasce precisamente do choque destas duas tendências. 

Onde a série vai mais longe do que o livro é ao aceitar que, desde a sua publicação, e ainda que não fosse essa a intenção de Roth, face ao contexto político, estas memórias não podem esquivar-se a uma leitura alegórica quando nos mostram o homem que ele poderia ter sido se a História se tivesse deixado seduzir por uma celebridade imbecil e preconceituosa, mas perfeitamente alinhada com os delírios e fraquezas da sua época. Sem acrescentar pontos ao relato de Roth, Simon e Burns não recusam o poder de influência que uma ficção televisiva pode ter, e deixam alguns sublinhados que enfatizam os paralelos de Lindbergh com o actual ocupante da Casa Branca, um líder sem experiência política e que, de tão previsível no seu narcisismo histriónico, não esconde a admiração e deixa-se manipular por autocratas. A série, como vinca o crítico do The New York Times, James Poniewozik, não nos deixa margem para ver em Donald Trump uma mera aberração que pode ser apagada como se não tivesse sido mais do que um pesadelo. Tendemos a esquecer como a sociedade é uma frágil construção que pode explodir de um momento para o outro se forem sopradas as velas das nossas mais nefastas paixões, dessas formas de oportunismo odioso que só esperam um sinal de que as normas de decência foram postas em xeque para sair a reclamar a sua justiça. Como nos lembra outro crítico do Times, A.O. Scott, ao contrário da má ficção, que na sua inabilidade para lidar com problemas complexos cede a analogias grosseiras, e coloca as coisas em termos de mal e bem, esta ficção não entretém essas moralidades bacocas. O que nos diz é que a História pode ser encarada a partir de uma série de puzzles de natureza política e ética, questionando-se sobre o impacto que a mudança de regime pode ter no carácter humano.

Claudio Magris, a propósito da autobiografia escrita por um dos carrascos nazis, Rudolf Höss, nas semanas entre a sua condenação à morte e o enforcamento, diz-nos que este “Comandante em Auschwitz”, não tenta enobrecer de algum modo a sua figura, mas rege-se por uma imperiosa exigência de verdade, redigindo os eventos da sua própria vida impessoalmente e com a maior precisão. Assim, apresenta “a descrição objectiva, imparcial e fiel de atrocidades que alteraram toda a medida humana”, diz-nos Magris. E adianta que este livro terrivelmente instrutivo na sua “concatenação épica dos factos mostra como no andar mecânico das coisas se pode chegar, passo a passo, a ser não só polícia de giro ou cozinheiro do exército do Terceiro Reich, comparsa do horror, mas deveras actor de primeiro plano e realizador do extermínio, comandante de Auschwitz”. É esta a mais terrível das lições que a História nos deu no século passado, a de que o terror do indíviduo à sua própria superfluidade acaba por criar a armadilha que desencadeia esses mecanismos banais ainda que imensamente destrutivos. No fundo, a ambição de qualquer déspota é criar a sua excepção histórica, ser imune à passagem do tempo, ao seu processo de aniquilamento, de esquecimento. Esse indíviduo mune-se do presente como de um sentimento de absoluto desdém pelo passado, e aplica-se em traçar planos para travar o curso dessa forma de massacre natural que é a História.

Claudio Magris: “Este respeito por si próprio e pela própria dignidade, mantido no coração do inferno e estendendo-se às calças que se vestem, faz surgir os uniformes SS, ou das autoridades nazis de visita ao Lager, em toda a sua miséria de farpelas de carnaval, trajes alugados no penhorista, na convicção de que um banho de sangue os poderia fazer durar milénios. Duraram doze anos, menos do que a minha velha canadiana que habitualmente uso em passeio.”

O que isto nos diz sobre o terror, aquele que é por nós provocado, é que nasce de uma forma de petulância, um projecto delirante que, quanto mais autoridade assume, mais perde o controlo sobre as consequências nefastas que produz, fazendo da política uma monstruosidade, uma forma de desespero no lugar de uma arte de dirimir conflitos, de negociar alternativas. Alguém que, tentando fazer da História a sua mula, e puxá-la por uma corda, acaba desfigurado, numa caricatura trágica desse pavor de aceitar a justa irrelevância do indivíduo.

 

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