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Deixem os Discos Girar #8. Aurora dos Sensible Soccers
Sensible Soccers

Deixem os Discos Girar #8. Aurora dos Sensible Soccers

Sensible Soccers João Pedro Almeida Hugo Geada 12/05/2020 21:10

No terceiro disco dos Sensible Soccers o conjunto desmarcou-se do seu som antigo, influênciado pelo contemplativo post-rock, e, ao adotar a eletrónica de pista de dança, celebra uma nova fase da carreira como se tivesse marcado um golo de levantar um estádio de futebol de uma ponta à outra.

Os Sensible Soccers pareciam ter encontrado uma fórmula perfeita para fazer música. Depois de 8 (2014) e Villa Soledade (2016), o som do conjunto estava firmado no imaginário da música alternativa portuguesa como uma das suas coqueluches. Para quem os ouviu no mínimo uma vez, era impossível não ouvir a guitarra da sua música e rapidamente associar à banda.

Contudo, no final de 2017, depois da saída de Filipe Azevedo, guitarrista, a Hugo Gomes e Manuel Justo ficaram com um problema para resolver. Como é que podiam substituir o som do guitarrista? A resposta: não substituir, investir em algo completamente diferente.

Entra em cena André Simão (baixista de Astonishing Urbana Fall e Dear Telephone) e com ele um som revigorado e fresco, conduzido por um ritmo contagiante e melodias impossíveis de resistir provenientes de sintetizadores.

Aurora, lançado no ano passado, foi um dos discos mais elogiados pela imprensa portuguesa e, agora, a banda oferece-nos uma retrospetiva do disco.

Primeiro, com o contexto:

Aurora foi composto entre dezembro de 2017 e dezembro de 2018 e gravado em residência na Casa do Soto em Arouca, na companhia de Sérgio Freitas e Jorge carvalho (músicos que nos acompanham desde o início desta nova fase), João Brandão (engenheiro de som) e B Fachada (produtor). 

Como quem pinta
Nasceu de madrugada, a partir de um arpejo mágico que se estende do início ao fim da música. Uma espécie de loop roubado ao fraseado de um cravo barroco travestido, que faz dançar nos bosques de um palácio que não existe. Por ter, à nascença, esse caráter quase místico, trabalhamos os arranjos usando percussões tribais, baixo e teclados processados e esvoaçantes, fazendo a canção desembocar num solo de flauta, que parece obra de um Hamelin melancólico e dramático. Praticamente desde o dia em que foi feita, imaginamo-la a abrir o álbum.

Farra lenta

Uma composição partida em 3 momentos claramente distintos. A primeira parte do tema foi de onde ele nasceu. Escuro, com uma cadência dub. A batida passa por um delay de fita, sujo, trôpego e textural. A segunda parte é uma espécie de limbo, um pôr do sol sobre a poeira inicial, um fôlego para a explosão final, mais colorida, mais pop, à italiana. 

Elias Katana 

Apesar do seu carácter orgânico, é uma música de laboratório. Arranca solta, com kick e percussão em jeito africano num 4/4 que se vai tornando um 6/4 com a chegada da marimba. O recheio foi surgindo de um conjunto de ideias gravadas quase aleatoriamente e posteriormente encaixadas na música como se de um puzzle se tratasse. O Fachada sugeriu introduzir um seben (técnica congolesa em que a música aumenta bruscamente o andamento após uma paragem). É um bicho híbrido de Techno no kick e no baixo, de House nos acordes groovy, de África nas congas, bongós e marimbas e de exotismo oriental na flauta encantadora de serpentes. Habitat natural? Ibiza, claro. 

Chavitas

A última música que compusemos para o álbum, feita de impulso e instinto num fim de tarde bem disposto. Certamente a faixa cuja forma final mais se aproxima do primeiro esboço. 

Fenómeno de refracção

Começou por ser uma das demos que ficaria de fora do alinhamento do álbum, estava mal concretizada e sentíamos que lhe faltava foco. Durante a semana de gravações em Arouca, o Fachada sugeriu destruir uma música. Numa noite bem regada fizemos uma experiência com a notícia do furacão fantasma do algarve a passar por delay e um excerto dessa demo transfigurada por um sintetizador modular. A versão final é o primeiro take dessa tentativa.

Import export

Durante muito tempo chamamos a esta música "ideia 1", precisamente porque foi a primeira ideia que começamos a trabalhar para o Aurora. É um tema com duas partes distintas e um dos que mais se alterou no ambiente de estúdio. Embora a composição se tenha mantido fiel à demo, alguns sons mudaram e o beat electrónico deu lugar à bateria e à percussão. A canção ganhou assim uma nova aura e um sabor tropical-melancólico que a define. 

Bichos do Soto

Faz parte da primeira leva de temas que fizemos para o Aurora. É uma música muito complicada de replicar ao vivo, sendo a única que ainda não apareceu nos nossos concertos. Tem várias frases sobrepostas que se vão ligando de forma quase cómica, criando uma ideia de brincadeira ou mesmo de liberdade. Todos os timbres jogam a favor dessa intenção, o piano bom de se trautear, o baixo brincalhão, as percussões finas num jogo repetitivo, as marimbas em crescendo e o solo final que concretiza a música mais bem disposta do disco.

Luziamar

Vulgarmente apelidada no seio do grupo de "Farra gingona" (por oposição à Farra lenta). Foram ideias que surgiram em simultâneo numa segunda fornada de composição e que tinham em comum uma base de loops de baixo a que se sobrepõe uma melodia do mesmo instrumento. Sem sabermos bem, estávamos aí a definir muito do que viria a ser o baixo camaleónico desta nova fase.

Um casal amigo

É uma música com duas partes, uma primeira com uma linha de baixo processada e uma segunda de synths e ruídos de carácter generativo (pintada pelo Fachada com o seu modular). A ideia de casar duas partes compostas separadamente e criar uma nova entidade a partir daí fez-nos sentido. Percebemos também que esse nosso lado ambiental e ruidoso fazia falta ao disco e podia ser um momento importante de pausa ou de passagem para outra fase, num álbum que é denso e labiríntico.

Telas na areia 

A Telas foi o nosso grande debate deste disco. Foi das primeiras músicas em que começamos a trabalhar, a partir de uma demo feita pelo Né e pelo Hugo em 2011. Durante muito tempo parte da banda não a queria integrar no disco, mas as dúvidas foram à vida com a sua versão final (tocada num impulso, em estúdio) e com a insistência do Fachada. E ainda bem que assim foi. 

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