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Coreia do Sul. Bares LGBT ligados a novo surto de infeções

Coreia do Sul. Bares LGBT ligados a novo surto de infeções

AFP Filipe Teles 11/05/2020 20:49

Novo surto de infeções está a ser ligado a um bairro com bares LGBT em Seul, levando a abusos homofóbicos. 

Chegou a ser o segundo país com o maior número de infeções, mas uma ação pronta permitiu controlar a pandemia. Desde então, a Coreia do Sul tem sido apontada como um modelo de contenção do contágio pelo novo coronavírus. Mas, nos últimos cinco dias, o número de novos casos confirmados tem crescido e pode dar aos outros países um exemplo do que acontece após o desconfinamento. Este novo surto está a ser ligado à comunidade LGBT pelas autoridades e a imprensa, revelando a homofobia vigente no país asiático - e o medo de muitos sul-coreanos de serem identificados como homossexuais, lésbicas, transgénero ou bissexuais.

O levantamento de algumas regras de distanciamento social na Coreia do Sul começou na quarta-feira. “Saiam à rua, socializem, divirtam-se”, disse o Governo sul-coreano, citado pelo New York Times. Não passou muito tempo até que começasse a temer-se uma segunda onda de infeções. Desde sábado que as autoridades têm ligado este aumento de casos - 86, segundo o Guardian - aos bairros de Seul com bares e discotecas, levando o presidente da câmara da capital do país a ordenar o encerramento desses estabelecimentos.

Dos 35 novos casos registados esta segunda-feira, 29 encontravam-se ligados a Itaewon, um bairro de Seul conhecido como a “capital gay” da cidade. O “paciente zero”, um homem de 29 anos (identificado logo no dia em que se começou a aliviar as medidas de distanciamento social), visitou Itaewon dias antes de ter sido diagnosticado com covid-19: foi a primeira infeção local registada, quando a Coreia do Sul vinha a apresentar um pequeno número de novos casos importados.

Os agentes de rastreamento de infeções detalharam os movimentos pré-quarentena do homem de 29 anos e publicaram online os locais noturnos que havia visitado - como tem sido a prática no país, o que, embora tenha sido elogiado pela sua eficácia, também está a levantar preocupações sobre a invasão de privacidade. Esses lugares foram identificados como bares e discotecas gay pela comunicação social , começando pelo Kookmin Ilbo, um diário nacional com ligações à igreja evangélica, diz o Washington Post.

Outros meios de comunicação social sul-coreanos reproduziram os relatos dos média evangélicos, revelando não só a identidade dos clientes dos bares mas também a sua idade e os seus locais de trabalho, informa o Guardian. Os abusos não se fizeram esperar, espalhando-se na internet e redes sociais nos dias seguintes. “Clube gay” e “coronavírus gay” passaram a ser os termos mais pesquisados nas redes sociais sul-coreanas: os ataques foram do discurso de ódio homofóbico à publicação de imagens que alegavam mostrar a “imundície” do que se passava nos bares gay e que teriam dado origem ao novo aumento de infeções, refere o mesmo diário norte-americano.

Espera-se que o balanço de infeções originados nos estabelecimentos em Itaewon aumente nos próximos dias, enquanto os responsáveis pelo rastreamento estão a tentar identificar as milhares de pessoas que visitaram o bairro durante esse fim de semana: as autoridades alegam que cerca de 3 mil pessoas estão por identificar. As coisas complicam-se devido ao estigma da sociedade sul-coreana perante a homossexualidade e outros géneros que se desviem da norma: bissexuais, transgénero, queer.

Embora o Governo prometa o anonimato a quem visitou Itaewon, e o primeiro-ministro, Chung Sye-kyun tenha instado os cidadãos a conterem-se nas críticas a determinadas comunidades, o medo da comunidade LGBT permanece, levando alguns a ter ideação suicida.

“Admito que tenha sido um grande erro visitar o bairro gay quando a situação do corona não estava completamente encerrada”, disse ao Guardian Lee Yougwu, um homem homossexual na casa dos trinta. “Mas visitar a área é a única altura em que posso ser eu mesmo e passar tempo com outros que me são semelhantes. Durante a semana, tenho de fingir gostar de mulheres”.

Lee sente-se encurralado, pois a empresa do seu cartão de crédito passou a informação de pagamento que realizou em Itaewon às autoridades. “Sinto-me tão preso e [como se estivessem a tentar] caçar-me. Se for testado, a minha empresa vai provavelmente descobrir que sou gay. Perderei o meu trabalho e enfrentarei uma humilhação pública. Sinto que a minha vida toda está prestes a colapsar. Nunca tive vontade de me suicidar e nunca pensei que viesse a acontecer, mas tenho pensamentos suicidas neste momento”.

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