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Little Richard. A estrela que guiou o rock ‘n’ roll

Little Richard. A estrela que guiou o rock ‘n’ roll

Hugo Geada 11/05/2020 10:50

O autor de músicas como Tutti Frutti ou Long Tall Sally morreu este sábado, aos 87 anos, e, prontamente, alguns dos mais importantes nomes da música prestaram homenagem ao “arquiteto do rock ‘n’ roll”.

Muito antes de os Ramones, do Iggy Pop e dos Stooges espalharem a anarquia com o punk, antes de os Beatles cantarem sobre submarinos amarelos ou até sobre agarrar a mão de miúdas, antes de Mick Jagger subir para cima de palcos com toda a sua extravagância e cantar sobre o que lhe dava (ou não) satisfação, até antes de Elvis Presley fazer audiências perder a cabeça com os seus movimentos de ancas, ele já estava à frente da curva em 1955.

O músico que ficou conhecido como o “Arquiteto do Rock ‘n’ Roll”, Little Richard, morreu este sábado, dia 9 de maio, aos 87 anos. A informação da morte foi confirmada à Rolling Stone pelo filho do músico, que acrescentou que “a causa de morte era ainda desconhecida”. As causas da morte do músico não foram reveladas, mas sabe-se que Little Richard teve recentemente vários problemas de saúde, incluindo um AVC e um ataque cardíaco.

Richard Wayne Penniman, de seu nome de batismo, carismático e inovador músico, responsável por êxitos intemporais como a inconfundível Tutti Frutti (1955) ou Long Tall Sally (1956), foi o responsável pela grande maioria das convenções do rock ‘n’ roll que hoje conhecemos, desde o seu estilo extravagante e voz e presença selvagem às letras com conotações sexuais.

Do coro da igreja para o topo do mundo E para a igreja novamente Nasceu em Macon, no estado da Geórgia, no dia 5 de dezembro de 1932. Richard era o terceiro de 12 filhos de Charles “Bud” Penniman, fabricante clandestino de bebidas alcoólicas, e Leva Mae.

Cresceu numa família religiosa na qual cantar era uma parte tão importante da sua rotina como a oração; por isso, desde cedo cantou no coro da igreja. Contudo, os seus pais conservadores não lidavam bem com a homossexualidade do filho, o que levou a que este saísse de casa aos 13 anos.

Foi adotado por um casal de brancos, donos do Tick Tock Club, onde por diversas vezes atuou e começou a dar os primeiros toques numa nova paixão, o R&B, “a música do diabo”. Foi em outubro de 1947 que Sister Rosetta Tharpe, mais conhecida como a “madrinha do rock ‘n’ roll” e uma das maiores inspirações de Richard, ouviu o miúdo, na altura com 14 anos, a cantar uma das suas músicas e o convidou a fazer a abertura de um dos seus concertos. Depois de lhe pagar pela sua atuação, não havia volta a dar. Little Richard estava convencido de que queria ser músico profissional.

A sua carreira começou em circuitos de espetáculos de vaudeville onde era frequente atuar em drag, com a cara maquilhada e roupas excêntricas – algo que mais tarde se transferiu para a sua carreira. Depois de ter lançado diversos singles de pouco sucesso ou de ver a sua música posta de parte e excluída (os estúdios da RCA consideram a sua música “demasiado derivativa de outros músicos”), foi numa sessão nos J&M Studios – do produtor pioneiro Cosimo Matassa, responsável pelo som de muitos dos primeiros músicos de R&B e rock ‘n’ roll –, rodeado por músicos experientes, que Richard revolucionou o mundo da música.

Em setembro de 1955, depois de um mês pouco produtivo, Little Richard, alcunha que a família que o abandonou lhe atribuía pela sua baixa estatura, decidiu improvisar uma música nonsense que abria com uma das linhas mais icónicas da história da música: “Whop bop b-luma b-lop bam bom”.

A indecifrável frase que abre a música nasceu nos anos em que o músico trabalhava num restaurante a lavar loiça e a ganhar 12 dólares por noite. “O meu chefe obrigava-me a lavar tanta loiça e eu não lhe podia responder. Então, a única coisa que lhe dizia era “whop bop b-luma b-lop bam bom”, porque ele não percebia o que eu estava a dizer”, explicou numa entrevista, em 1975.

“Eu cantei a Tutti Frutti durante anos, mas nunca pensei que fosse uma canção que alguma vez fosse gravada”, contou Richard à Rolling Stone. A verdade é que a música quase não foi gravada. Na sua génese, a letra era uma referência a sexo anal: “Tutti Frutti, good booty/ If it don’t fit, don’t force it/ You can grease it, make it easy”. Só depois de a música ser reescrita e ter adquirido um tom menos sexual é que foi gravada e lançada como single.

A decisão acabou por se revelar acertada e Tutti Frutti foi um êxito instantâneo. Hoje, esta faixa é considerada o ground zero do rock ‘n’ roll, com o seu volume alto, voz poderosa e ritmo acelerado. Sem qualquer tipo de exageros, a canção foi gravada por centenas de outros músicos, nomeadamente Elvis Presley, os Beatles, os Queen, os MC5, Marc Bolan e Elton John, que confessou que a sua paixão pelo piano nasceu depois de assistir a um concerto de Richard.

A esta música seguiram-se três anos recheados de êxitos como Long Tall Sally, Slippin’ and Slidin’, Rip It Up, Ready Teddy, The Girl Can’t Help It ou Lucille. Richard alcançava um sucesso inédito. Contudo, em constante conflito interno entre a sua sexualidade e a sua educação conservadora e religiosa, o músico fez uma pausa na carreira para prosseguir a sua vida como padre, lançando inclusive diversos álbuns de música católica e gospel como Pray Along with Little Richard (1959) ou The King of the Gospel Singers (1961).

“Ele abandonou o estrelato num ponto bastante alto, nos anos 1950, para se tornar pastor. Andava para trás e para a frente com isto e isso teve um papel fundamental no que dizia sobre a sua sexualidade”, explicou o escritor Anthony DeCurtis ao Guardian. “Há alturas em que diz que toda a sua vida foi homossexual e noutras diz que Deus fez o homem para ser um homem e a mulher para ser uma mulher. Ele fala sobre ser bissexual ou omnissexual. Este tipo de luta interna transparece na sua música e, em parte, é a isso que se deve a loucura das suas primeiras canções”.

Por fim, o arquiteto do rock ‘n’ roll regressou à sua arte, em 1962, num mundo então dominado pelos Beatles e pelos Rolling Stones, mas a personalidade continuava a mover mundos e multidões. Em 1964 foi convidado a participar numa tour que envolvia os The Everly Brothers, Bo Diddley e os Rolling Stones, para tentar evitar que fosse um fracasso. “Ouvi tanto sobre a reação da audiência, pensei que fosse um exagero. Mas era tudo verdade”, disse Mick Jagger. “Não conseguia acreditar no poder que o Little Richard tinha em palco. Ele era incrível”.

O músico continuou a atuar regularmente e com bastante sucesso. Teve James Brown, seu amigo de infância, a abrir os seus concertos, e um jovem Jimi Hendrix fazia parte da sua banda de apoio, entre 1964 e 1965, mas, novamente, a sua personalidade contraditória e o excesso de drogas fariam com que voltasse a abandonar o mundo da música.

Até à data da sua morte, Little Richard ainda fazia aparições pontuais como convidado em álbuns de outros músicos (o seu último álbum de originais saiu em 1992, Little Richard Meets Masayoshi Takanaka) e em concertos em nome próprio – que, em 2009, perderam a componente energética do músico que, depois de uma operação à anca, tinha de atuar confinado ao banco do seu piano.

Quem não foi influenciado por Little Richard que atire a primeira pedra “Eu conseguia fazer a voz do Little Richard, que é uma coisa selvagem, rouca e gritante. É como uma experiência fora do corpo”, explicou Paul McCartney, cuja primeira música que tocou ao vivo foi Long Tall Sally e que chegou a ter aulas de canto com Richard. “Tens de abandonar as tuas sensibilidades e dar um pouco mais de ti a cantar. Tens de sair de ti mesmo”.

No seu Twitter, o ex-Beatle comentou que Little Richard entrou na sua vida a “gritar” quando ele ainda era adolescente. “Muito daquilo que faço devo ao Little Richard e ao seu estilo; e ele sabia. Ele costumava dizer ‘ensinei ao Paul tudo o que ele sabe’”, escreveu num post acompanhado por uma foto com os Fab 4 e o seu mestre. “Sem ele, provavelmente, eu nunca me teria tornado músico”, confessou Bowie, pouco tempo antes de morrer, que disse ainda que depois de ter ouvido Tutti Frutti pela primeira vez pensava ter “ouvido a voz de Deus”.

As mensagens de pesar multiplicam-se pelas redes sociais para lamentar a partida de Richard Penniman e atravessam gerações e campos da arte. De Mick Jagger, Keith Richards, Iggy Pop, Lenny Kravitz, Brian Wilson, dos Beach Boys, a cineastas como John Waters, que disse que ele tinha sido o “primeiro punk (“he was the first everything”, disse à Rolling Stone), Spike Lee, Ava DuVernay ou a atriz Viola Davis.

Todos quiseram partilhar as memórias que tinham do lendário músico e, de uma lenda para outra, até o reclusivo Bob Dylan utilizou o seu Twitter para divulgar uma mensagem emotiva de despedida: “[Little Richard] foi uma estrela brilhante que me guiou quando eu ainda era muito novo. O seu espírito original moveu-me a fazer tudo o que fiz”.

 

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