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Pandemia e solidão. Morrer só o estritamente necessário

Pandemia e solidão. Morrer só o estritamente necessário

Diogo Vaz Pinto 08/05/2020 19:51

Mesmo separados, não perdemos a capacidade de criar e, na verdade, as tecnologias permitem-nos dobrar as vezes que forem precisas o território como se fosse um mapa, e abrir caminhos e criar uma resposta global para uma crise que afecta a todos.

Diante dos constrangimentos actuais, do isolamento a que nos vimos obrigados, no esforço de protelar os efeitos da pandemia, “achatar a curva”, muitos de nós ficámos sem escolha, perdendo os territórios que só se abrem como áreas comuns, e que, na falta de mais alguém, no seu avesso, deixam à vista o esqueleto em que se sustenta um calafrio. As nossas cidades tornaram-se ruínas que nos sideram, percorridas por uma sirene feita de subtracções, um arrepio da própria vida. A imagem das ruas vazias, antes apinhadas, de vias quase intransitáveis, proporcionou-nos, enfim, a sensação de se ser levado no sono de um deus arrependido. Como se um intervalo nos impusesse a imagem das nossas vidas por um mecanismo que nos permite estranhá-las, ouvir o seu eco esvaziar-se até ficar reduzido à sua trama central. Fomos, assim, avançando mais para dentro da nossa solidão, a solidão do que resta, daquilo que fica ainda connosco após o fim de todas as festas, depois de todas as manobras se terem esgotado. Essa solidão de um fim de rua, de levar as chaves à porta de casa e, ao abri-la, tocar a extremidade da corda, acender a luz num quarto que se foi escavando e sentir que o mundo lá fora se apaga e talvez nem tenha regresso. Há a solidão como um privilégio, casca que se segrega, se engrandece e reforça, às vezes contra o mundo, outras fora dele, ou, pelo menos, indiferente a ele; há essa de que fala Jorge de Sena, na carta dirigida a um eventual jovem poeta, afinando uma definição assombrosa: “A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa.” No fundo, a solidão pode conter tudo ou quase nada, vir perfeitamente mobilada, ou ter só um piano e um cinzeiro sobre ele. É uma geografia, diz-nos o poeta catalão Joan Margarit, acrescentando que “não comemora nada”.

De repente, e até por incitação dos media, com as suas infindáveis listas de motivos de lazer, escapatórias sob a forma de livros, filmes, séries, discos, vendo-nos diante da tarefa de iludir o tempo, como se o perigo fosse ser esmagado por ele. Esse parece ser um dos grandes perigos de uma sociedade que já não se defende do lazer, já não lhe opõe o ócio, e em que cada vez mais pessoas se sentem desarmadas diante da solidão, quando o tédio nos emaranha e ameaça sufocar-nos. Na sua crónica no Público, António Guerreiro apontava para essa segunda epidemia que entrou em acelerada gestação no útero da outra: a epidemia do tédio. “Quando, de repente, e não pelas razões mais felizes, o tempo se torna disponível para um número significativo de pessoas, apercebemo-nos de que ele se tornou uma coisa estranha ou mesmo uma espécie de doença, cujo primeiro sintoma é o tédio, que é preciso curar. Pelo menos, é isto que sugerem os médicos ad hoc e as respectivas terapias para curar as doenças do tempo (...) Quando perdemos a capacidade de nos apoderarmos do tempo, aparece logo quem nos quer guiar pelo tempo perdido e ensinar-nos a “perder tempo” sem dor. Ler, ouvir música, ver filmes: tudo isto cumpre essa missão de entreter o tédio.”

Outro fenómeno que veio transformar a forma como sentimos a solidão é esta ingerência e pressão constante do mundo mesmo nos espaços mais confinados. A internet concentrou o mundo como uma vizinhança barulhenta e a cujos dramas e apelos é muito difícil, hoje, escapar inteiramente. Estamos permanentemente sensíveis a essa teia, e à frequência em que a solidão se torna mais audível, em que o seu sinal sem grandes perturbações exige uma disciplina cada vez maior. É fácil imaginar um número cada vez maior de pessoas exiladas da sua própria interioridade. Pessoas que recebem um jornal já amarelecido onde se lêem as notícias da sua intimidade, sem saberem ao certo a validade que esses relatos mantêm. Nas últimas semanas, além da obsessiva campanha contra o vírus, as conversas que fomos mantendo uns com os outros, debruçavam-se sobre os modos da ausência, a forma como demos por nós a viver numa variação do cenário descrito por Lao Tse: “Os países vizinhos podem estar tão próximos/ que se ouve o canto dos galos e o ladrar dos cães de um lado e do outro./ E no entanto as pessoas morrem velhas/ sem nunca terem passado a fronteira.”

Vimo-nos retirados, incapazes de cruzar essa fronteira, precisamente pelo risco de contaminar ou sermos contaminados. É uma estranha forma de paranoia afectiva esta que se gerou, em que os piores temores nascem da perspectiva de pôr em perigo precisamente aqueles cuja falta mais sentimos. Assim, nos mesmos lugares de antes, foi possível sentir “uma espécie de enjoo em terra firme” (Kafka), como se a solidão recortasse o espaço entre nós, fazendo do isolamento uma deriva sujeita a correntes imprevisíveis. Num artigo publicado na The New Yorker, Masha Gessen retira ilações, descortina as consequências políticas do isolamento e da solidão a que temos sido expostos devido à pandemia, e no esforço de nos protegermos a nós próprios e aos outros. O texto remete-nos para o capítulo final de “As Origens do Totalitarismo”, onde Hannah Arendt defende que a solidão como uma forma de desamparo é aquilo que o totalitarismo produz, enquanto o terror faz as suas rondas. O isolamento, segundo a filósofa, “pode ser o princípio do terror; é certamente o seu terreno mais fértil, e é sempre o seu resultado.” Para Arendt, qualquer um de nós só alcança o poder político a partir do momento em que está em condições de agir de forma coordenada com os outros, e o isolamento é o garrote que impede qualquer acto político de ser desencadeado.

Mesmo confinados no espaço, vários dos pensadores que, nas últimas semanas, se reuniram numa espécie de Ágora virtual, confrontando os desafios que a pandemia nos colocou, deram relevo ao facto de estarem a ser descobertas formas de proximidade bem mais reais e produtivas do que outras ilusões de proximidade em ambientes tipicamente sociais. Mesmo separados, não perdemos a capacidade de criar e, na verdade, as tecnologias permitem dobrar as vezes que forem precisas o território como se fosse um mapa, e abrir caminhos e criar uma resposta global para uma crise que afecta a todos. Se Arendt diz que a solidão é uma forma de desenraizamento, de não se ter um lugar no mundo, o confinamento das últimas semanas foi um momento em que uma imensa orquestra, em que as secções já tocavam cada uma para seu lado, e boa parte dos músicos não ouviam mais ninguém, ou agiam como ruidosos vândalos, emergindo o auditório num ambiente de estridente batalha campal, este momento pode ter significado uma pausa, e um esforço para afinar os instrumentos, e para se consultarem e porem de acordo sobre a pauta que irão seguir. Para Arendt, a perda do “senso comum”, de uma realidade partilhada e que nos permite conhecermo-nos a nós próprios, saber onde nós acabamos e começa o mundo e como estamos ligados uns aos outros é um aspecto decisivo para escapar aos efeitos mais nefastos dessa forma de solidão alienada. Sem essa ligação, a sociedade desagrega-se. “Vivemos sem a sensação de termos um país debaixo dos nossos pés// as nossas palavras são inaudíveis a dez passos de distância”, escreveu, em 1933, o poeta russo Ossip Mandelstam, que Masha Gessen cita para resumir essa sensação de desemparo para a qual somos empurrados por sistemas totalitários – “uma perda do sentido de tempo e lugar, a erosão da sociedade e de toda a esperança de sermos ouvidos ou olhados”. E se, hoje, as formas de tirania se organizam de forma mais complexa, mais difusa, através, nomeadamente, desses mecanismos compulsórios que a economia tem de sequestrar a acção política, neste espaço virtual, para o qual a vida em comum estava já a transferir-se, foi subitamente precipitada, sendo difícil avaliar, para já, o que se perdeu e o que se ganhou. Há medida que uma forma de terror que estava adormecida desde há mais de um século despertava entre nós, elevando ainda mais a ansiedade e a incerteza com que já vivíamos, com o profundo abalo económico que está a abrir um abismo sobre nós, é difícil saber se a política será arrancada aos seu estupor, e voltará a definir um horizonte que não se vá moldando aos caprichos dos mercados. “A ideia de que teremos de mudar o mundo para sobreviver a esta crise e perseverar é algo que se tornou auto-evidente”, vinca Gessen. Remetendo-nos, desta vez, para um ensaio da romancista indiana Arundhati Roy, que propôs que esta pandemia fosse olhada como um portal: “Podemos escolher atravessá-lo arrastando atrás de nós a carcaça dos nossos preconceitos e ódios, a nossa avareza, os nossos bancos de dados e ideias mortas, os nossos rios e céus sujos e degradados. Ou podemos atravessá-lo libertando-nos da nossa bagagem, e dando-nos liberdade para imaginar outro mundo.”

Por agora, estamos ainda aturdidos, estamos longe de sentir que seja firme o chão que temos debaixo dos pés, o mundo que nos cerca, no aperto de uma vizinhança imensa, calorosa e solidária, por vezes, outras apenas barulhenta, ou pior: assustada, confusa, atreita a embarcar em derivas perigosas, a deixar-se encarniçar contra inimigos inventados, ou a reanimar antigas rivalidades, coçar velhas feridas de guerra. Por agora, se o vírus não é, por si só, uma ameaça existencial, além de ter ceifado já muitas vidas, e de não termos a menor ideia de quantos meses ou anos irão passar até que esta epidemia seja contida, há que extrair da catástrofe um ímpeto que possa transformar uma ordem que, não só não é solidária consigo mesma, como está a criar todas as condições para, em algumas décadas, nos colocar perante um cenário de absoluta devastação nas condições de vida neste planeta.

Se temos consciência de que a nossa existência, embalada pelo recital subtil do consumo, está a produzir uma catástrofe sem saída, se sabemos que o destino que nos espera, passa por esgotarmos os recursos do planeta até que a natureza nos declare guerra, voltando sobre nós o abismo que criámos, resta-nos colaborar com os nossos temores, esses que, nas últimas semanas, fizeram balançar de tal modo o nosso inconsciente colectivo que, boa parte de nós, sentiram as suas noites cerrarem os dentes, os sonhos prepararem-se para um embate violento. Para os espíritos que não suprimiram inteiramente os seus instintos, que são capazes de, ao invés de desesperar, iniciar um processo de adaptação, inquirindo a natureza à sua volta em busca de indícios de uma estratégia que está para lá do que a História tem a ensinar-nos, desfazendo desde logo a ilusão de que não estamos a viver nada de novo. Cabe-nos, assim, um recuo estratégico, quando os acontecimentos corroem as nossas certezas, a sensação de segurança, e, desde logo, a presunção de que tínhamos sobrepujado as forças naturais.

E, nesta busca, viramo-nos para essas fontes de inspiração cuja natureza instável lhes permite estarem sempre em diálogo com a vida, e deparamo-nos com um ser que, devido a um assombroso talento para a sobrevivência, chegou ao leito de um poema de Wisława Szymborska, poeta polaca que, em 1996, após uma distinta e exemplarmente discreta intervenção como poeta, se tornou uma das últimas celebridades desta anacrónica forma de arte, tendo sido consagrada ao ser-lhe atribuído o Prémio Nobel. A holotúria, ou pepino-do-mar, como também é conhecido, uma espécie de larva marinha – e aqui recorde-se que, além das virtudes de metamorfose que caracterizam estas espécies, larva no latim é um espectro, um fantasma –, um ser que desenvolveu uma estratégia de sobrevivência aparentemente desesperada, mas que é, na verdade, um desses passes de mágica da evolução, já que, quando enfrenta o perigo, diante de um predador, mutila-se, contrai violentamente os músculos e expele certos órgãos internos e supérfluos num estratagema de dissimulação, deixando o inimigo emaranhado nas suas vísceras, enquanto se põe a salvo e trata de se regenerar. É uma estratégia em que na fraqueza se constituiu uma imprevisível reserva, uma força imponderável, esse plano de fuga feito de uma rendição tacteando entre a vida e a morte a precisa fronteira que as separa, e usa-a a seu favor. Isto diz-nos como o ânimo que nos segura à vida tem de ser encontrado de forma precisa na separação entre o que é vital e aquilo que pode ser sacrificado, reconhecendo os elementos a partir dos quais nos poderemos regenerar depois de um golpe que prometia dar-nos morte.

Consultando uma enciclopédia online, é possível saber que outra das fenomenais características desta espécie é a forma como todo o seu corpo se reveste de uma espécie de membrana de colagénio, que lhe permite, através do controlo dos músculos, mudar de forma, expandir ou contrair-se, ao ponto de quase se liquefazer quando precisa de se esgueirar para um abrigo estreitíssimo. Para se manter a salvo nessas fendas e orifícios, consegue também concentrar as suas fibras de colagénio para forçar o seu caminho, tornando o seu corpo novamente firme.

E se chegámos a este ser esquivo, a este fantasma do leito dos mares, muito apreciado no Oriente como iguaria gastronómica, mas que é também utilizado na medicina tradicional, inclusive no tratamento da malária e da artrite (tal como o medicamento de que tanto se falou nos últimos tempos, apontado como uma potencial defesa para a Covid-19, o a Hidroxicloroquina), foi através de um texto do antropólogo brasileiro Salvador Schavelzon – “Corpo isolado, revolta e poesia” –, que começa por reproduzir o poema “Autotomia”, de Szymborska. Eis, numa tradução colectiva, publicada em 2001, no décimo número da revista brasileira “Inimigo Rumor”, o poema que pode dar-nos algumas lições sobre como reagir à inaudita crise que está a abater-se sobre nós, fazendo do holotúria um mestre numa guerra que talvez só possa ser ganha de forma artística:

“Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.”

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