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Manuel J. Guerreiro 08/05/2020
Manuel J. Guerreiro

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Temas soltos da nossa calamidade

1. TAP - essa verdadeira Trituradora Aérea Pública de recursos financeiros do estado português

Ponto prévio: não tenho nenhum dogma quanto ao modelo de gestão da empresa. Pouco me importa se é para mantê-la com 50% de capital accionista público e gestão mista privada e pública - através da presença de competentíssimo administrador escolhido pelo Estado para o representar no respectivo conselho de administração e/ou na comissão executiva -, ou se ficará mais nas mãos de privados como, de resto, tinha sido decidido pelo Governo de Passos Coelho e, erradamente, alterado pelo Governo seguinte de António Costa, apenas para fazer um frete ao PCP e à CGTP no âmbito dos, mais ou menos, clandestinos acordos que deram origem à maioria parlamentar que sustentou o Governo na anterior legislatura e que ficou para sempre conhecida como geringonça.

Já a ideia radical de tornar a TAP numa empresa maioritariamente pública e gerida pelo amiguismo político do costume, é algo que me deixa com arrepios na pele, mas sem água na boca... Pois um sugadouro de recursos financeiros daquele calibre que nunca deu lucro sustentado, tendo apenas o conseguido fugazmente num ou dois anos destes 46 que já levamos de democracia é, a todos os títulos, desaconselhável. O país não tem capacidade financeira para sustentar aquele monstro que custaria alguns rios tejos de dinheiro dos contribuintes portugueses, apenas para satisfação de um capricho elitista e muito apreciado por uma esquerda burguesa que não aceita viajar - a partir de Lisboa - noutras companhias aéreas...

Importa-me sim, é que a TAP seja uma empresa falida desde sempre e que falida se manteve durante todos estes últimos anos que marcaram o momento de maior fluxo turístico de toda a nossa História colectiva. Demonstrando escandalosamente não ter tido qualquer papel fundamental nesse mesmo sucesso português. Pelo contrário, Portugal deve muito, mas muitíssimo mais esse sucesso à Ryanair e à Easyjet, entre outras companhias low-cost, do que à TAP ou a outras empresas públicas de transportes terrestres como a CP que apenas nos enchem de uma imensa vergonha perante os turistas que nos visitam.

Ou seja, se a TAP não teve lucros no maior momento de sempre da nossa economia na área do turismo, com milhões e milhões de pessoas a visitar-nos no Algarve, na Madeira, nos Açores, no país em geral, mas também, e principalmente, nos dois grandes centros urbanos e, em especial, nas cidades do Porto e de Lisboa que sentiram uma absoluta transformação, ganhando diariamente (até ao passado e fatídico mês de Março) milhões de novos 'habitantes' muitas vezes até criticados pelos seus efectivos moradores, como poderá então a TAP alguma vez ter lucros sem mudar radicalmente de vida?

A resposta só pode ser um estrondoso nunca!

Mas pior, quanto mais inaceitável, é a TAP nem sequer promover uma mobilidade interna de todos nós que poderíamos visitar o país de uma ponta à outra com maior regularidade e rapidez, usando o avião como meio de transporte entre Lisboa, Porto, Faro, Beja, Bragança, Funchal, Ponta Delgada e entre todas as ilhas dos dois arquipélagos a preços realmente baixos para todos os portugueses e residentes em Portugal, por exemplo, usando para o efeito a Portugalia (PGA) subsidiária detida a 100% pelo grupo TAP desde 2007.

A PGA que renovou a sua frota em 2016 e opera com um total de 13 aviões - nove aeronaves Embraer 190, com capacidade para 106 lugares e quatro aeronaves Embraer 195, com capacidade para 118 lugares - deveria ser a nossa low-cost. Uma low-cost verdadeiramente Portuguesa capaz de no futuro fazer concorrência às demais companhias nos voos internacionais e, porquanto, com responsabilidade de serviço público, como o poder político (este em particular) tanto gosta de nos vender, mas que, como sabemos, não passa de publicidade enganosa.

Se assim fosse, haveria uma razão consensualmente aceite para se manter este sugadouro no ar e em terra, pago pelos nossos impostos. Não o sendo, como é manifesto, tudo deverá ser equacionado com vista a não mais se onerar o Estado. Incluindo a sua total alienação a privados.

2. Festivais de Verão e a Festa do Avante.

Foi preciso esperar até ao dia de ontem para que o Governo decidisse o óbvio... Depois de tudo o que já passámos por causa da pandemia e do que poderemos ainda vir a passar se porventura o desconfinamento vier a dar para o torto, obrigando a uma inversão de marcha rumo a casa, como é que alguém ainda estaria à espera de ir ali a Algés em Julho ou à Zambujeira do Mar em Agosto, apenas para citar os dois maiores eventos do género? Pois só gente louca é que certamente se iria meter por aí...

Por isso a tentativa do PCP em travar o adiamento da sua efeméride anual na Quinta da Atalaia no Seixal foi simplesmente patética... Naturalmente queriam o mesmo regime de excepção que a sua milícia sindicalista da CGTP teve no 1.° Maio...

Diz o camarada Jerónimo, lá do alto das suas impecáveis 73 primaveras que "a Festa do Avante não é um simples festival de música".

Tem razão. É um festival de artesanato político-cultural onde sobem ao palco - para além do Comité Central - muitos músicos... E é ainda evidente o carácter absolutamente único que o demarca dos demais festivais de verão. Designadamente na inqualificável isenção de impostos de que a organização do certame beneficia!

3. As desventuras de André

O deputado único e líder demissionário do CHEGA voltou às luzes da ribalta e, para não variar, não pelas melhores razões...

Afirmando na Assembleia da República que Portugal “tem um problema com a comunidade cigana” e defendendo um plano especial de confinamento, exclusivo, portanto, para essa referida comunidade, em tempo de pandemia de Covid-19, com o argumento de um “reiterado incumprimento em várias comunidades do país", o que lhe valeu pronta resposta do futebolista português Ricardo Quaresma nas redes sociais: "sou cigano como todos os outros ciganos e sou português como todos os outros portugueses", André Ventura, obteve também resposta do próprio Primeiro-Ministro durante o debate quinzenal de ontem ao afirmar que Portugal só tem um problema em tempo de pandemia de Covid-19 "com pessoas que cumprem ou não cumprem as normas sanitárias".

Ora, lamento imenso ter de dizer isto, mas André Ventura é que tem, de facto, um problema muito sério - e que bem pode ser um trauma - com a raça.

É intolerável este tipo de argumento que resolveu trazer para o debate público. É um argumento xenófobo e nauseabundo de neo-nazismo que a direita política democrática que se assume herdeira dos valores da liberdade e da democracia de, entre outros, Winston Churchill, não pode deixar de condenar!

E tanto assim, mais me preocupa esta questão, com o crescimento desta seita política nas sondagens. É bom que os portugueses tenham noção de que este partido, como qualquer outro, não é coisa de uma só pessoa. Não é apenas o André. São os muitos outros pequeninos ditadores desconhecidos do público - alguns deles com currículos estranhos - gente oriunda de pequenos agrupamentos e movimentos neo-nazis que, de um dia para o outro, estarão sentados no Parlamento como deputados da nação.

É bom que os portugueses que achando piada ao politicamente incorrecto - eu gosto do politicamente incorrecto e sou crítico há muitos anos do rumo que isto tomou, mas não confundo a árvore com a floresta, nem confundo o bem com o mal e, decididamente, não confundo democracia com totalitarismos - tenham consciência de que André Ventura demitiu-se da liderança do partido a que preside e que fundou para 'correr' com todos aqueles que sejam moderados e questionem a sua liderança. Os que, segundo o próprio, querem fazer do CHEGA "mais um partido do regime, mais um partido do politicamente correcto".

 

Jurista

Escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico


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