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José Paulo do Carmo 08/05/2020
José Paulo do Carmo

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“Não tem vergonha de vir aqui buscar comida?”

A falta de caráter, de respeito e de amor pelo próximo é a maior pobreza que alguém pode atingir. E andam por aí muitos assim, que apontam o dedo e comentam em surdina a indigência dos outros. Que compram pipocas para assistir na primeira fila ao mais lamentável e decadente espetáculo da humanidade. 

“Não tem vergonha de vir aqui buscar comida?” Foi assim que uma repórter da TVI interpelou uma pessoa que se encontrava na fila de um centro de apoio para levar alimentos. O cenário repetiu-se à porta de uma mesquita na Amadora, onde centenas de pessoas se acumulavam à procura de bens essenciais, distribuídos diariamente. As câmaras de filmar dos vários meios de comunicação circundavam vezes sem conta a fila, a fazer lembrar as hienas que se babam e riem ao encurralarem o animal que lhes servirá de repasto. Também alguns jornais fizeram disso capa, mostrando gente necessitada que vai tapando como pode a cara para não ser submetida a maior humilhação, pessoas encostadas entre a parede de uma fila de onde não podem sair (senão perdem a vez e correm o risco de não ter com que alimentar os filhos) e a espada das objetivas, ávidas por colocar a nu as debilidades de um ser humano e assim saciar quem tem o sádico prazer de ver o sofrimento alheio.

Mas não foi só aqui que a ética ficou em casa. Lembro-me de tantas fotografias nas redes sociais, por altura dos graves incêndios que tivemos no país, em que alguns apareciam em poses de super-heróis, sentados em cima de meia dúzia de pacotes de leite ou garrafas de água para mostrar ao mundo como eram solidários e boas pessoas. Ou os gabarolas que dissertavam nos cafés e na televisão, mostrando a sua bonomia, enquanto insuflavam o seu próprio ego. Ou algumas empresas que se aproveitam do momento para lançar campanhas publicitárias com palavras bonitas e imagens emocionantes, a enaltecer o seu próprio altruísmo ou a capacidade de superação do povo português, como se nós fôssemos estúpidos e não percebêssemos qual a finalidade. Suprema hipocrisia de marcas que, quando é preciso ajudar, se escondem e se calam, e depois vêm promover-se à custa da desgraça alheia.

Será que já não existe respeito pelos que mais precisam nesta altura? Será que não percebem a dificuldade que é para muitos submeterem-se ao jugo da sociedade que recrimina, que goza e pisa quem está no chão? Como é possível existir quem tenha a desfaçatez de ordenar a estes repórteres tamanha palhaçada? Já quando o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa vai entregar comida aos sem-abrigo e usa (e bem) o seu mediatismo para chamar a atenção para este flagelo, será que a comunicação social tem mesmo de mostrar a cara dos que vivem na rua, encarcerados numa vida de miséria? Independentemente dos motivos que levam as pessoas a chegar a determinado ponto, não pode valer tudo. Estamos a tornar-nos carniceiros, alimentando as nossas frustrações com os que estão pior do que nós.

A falta de caráter, de respeito e de amor pelo próximo é a maior pobreza que alguém pode atingir. E andam por aí muitos assim, que apontam o dedo e comentam em surdina a indigência dos outros. Que compram pipocas para assistir na primeira fila ao mais lamentável e decadente espetáculo da humanidade. Que nunca vos falte comida em casa nem algo para dar aos vossos filhos, que não passem pelo sofrimento da inópia e pelo enxovalho de se sentirem inúteis, desprezados e recriminados. Se querem ajudar, ajudem, ajudem muito, mas não façam disso matéria publicitária para engordar a vossa imagem. O nosso retrato é feito pelo silêncio e pela privacidade. O altruísmo e a solidariedade não se promovem, complementam-se no recato. A dignidade humana assim o exige. Pedir ou aceitar ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de força, de humildade e de coragem. Não podemos deixar que quem precisa se deixe amordaçar pela vergonha.

 

“(…) A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre, mas quem cria pobreza”

Mia Couto,
in E se Obama Fosse Africano?

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