6/6/20
 
 
Bad Education. As verdades de uma história verídica

Bad Education. As verdades de uma história verídica

Hugo Geada 07/05/2020 20:33

Baseado numa história verídica, Bad Education coloca Hugh Jackman no papel de um diretor de liceu que foi preso por desviar milhões de dólares.

“Pela primeira vez na sua longa e charmosa carreira, Frank Tassone teve um problema”. Esta é a primeira linha da reportagem The Bad Superintendent, escrita por Robert Kolker e publicada na revista New York, que inspirou o filme Bad Education. Alguns dos nomes podem ter sido alterados, mas a história é real.

Com músicas como ‘In This World’, de Moby, ou ‘White Flag’, de Dido como banda sonora, a trama deste filme, lançado na plataforma de streaming da HBO no dia 26 de abril, decorre nos anos 2000 e reconstitui a audiência de um dos maiores escândalos de desvio de dinheiro nas escolas dos EUA.

A história, antes de se tornar viral através da reportagem de Kolker, foi lançada pela primeira vez no Hilltop Beacon, o jornal do liceu de Roslyn.

No filme, a grande responsável por este furo é Rachel Bhargava, interpretada por Geraldine Viswanathan, uma jovem promissora que, depois de lhe ser atribuída uma “puff piece” (uma notícia que serve para elogiar algo) sobre uma obra que estava a ser construída na escola e de ser aconselhada pelo seu diretor a investigar a história de uma forma mais profunda (que assim, sem querer, assinou a sua própria sentença), descobriu que algo de errado se passava nas finanças da escola.

Depois de publicada, a sua investigação acabou por levar Frank Tassone e Pam Gluckin, respetivamente, o diretor e uma professora neste liceu nova-iorquino, a serem investigados pelas autoridades por desviarem milhões de dólares.

Tassone, encarnado por um exímio Hugh Jackman (que para além de Wolverine, protagonizou dramas como The Prestige, de Christopher Nolan, ou Prisoners, de Denis Villeneuve), é um personagem camaleónico.

Sucessivamente mostra-se um diretor politicamente correto capaz de dar a vida pela sua escola e os seus alunos, um marido extremoso, um amante atencioso (que mantém uma relação extraconjugal com um ex-estudante), ou um sociopata com um olhar de lobo para aqueles que se atravessam no seu caminho.

Os seus planos começaram quando usou “por engano o cartão de crédito do liceu para pagar um jantar”. “Ninguém na contabilidade da escola deu por nada. A seguir, foi uma despesa de 90 cêntimos e voltaram não a dar por nada”, confessa no filme Tessone a Bob Spicer, gerente das escolas do distrito, desempenhado por Ray Romano que, depois de O Irlandês, volta a aparecer em grande forma num estilo mais dramático.

Aos jantares de pizza e sumos seguiram-se operações plásticas e viagens até Londres com o seu amante. Quando deu por ela, Tassone já tinha desviado 2,2 milhões de dólares do liceu.

Pam (interpretada por Allison Janney, vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária por I, Tonya, que no curto tempo em que aparece no ecrã mastiga o cenário com mais uma excelente performance) não se fica atrás e, entre máquinas de batidas topo de gama, um Jaguar ou uma PlayStation 2 para o seu sobrinho, apresenta um balanço de 4.3 milhões de dólares.

No total, foram desviados mais de 11 milhões de dólares desse liceu e ambos os funcionários foram condenados a dormir umas noites na prisão. Tessone foi condenado a uma sentença de quatro a 12 anos (foi libertado em 2010 por bom comportamento) e Pam a uma pena de três a nove anos de prisão (foi libertada em 2011 e morreu em 2017).

Baseado numa história verídica O responsável pelo argumento do filme, Mike Makowsky, não foi escolhido ao acaso. Além do seu talento, o próprio foi um estudante no liceu de Roslyn e conheceu pessoalmente Frank Tassone. Quando tinha seis anos e estava no primeiro ano, o diretor, inclusive, de forma a avaliar as suas capacidades de leitura, fê-lo ler em voz alta o livro Uma Lagarta Muito Comilona.

De forma a escrever o seu argumento da maneira mais fidedigna possível, Makowsky entrevistou cerca de 25 professores (antigos e atuais), membros do staff e da associação de pais.

Contudo, de forma a tornar o filme mais interessante, o argumentista tomou algumas liberdades. Por exemplo, Rebekah Rombom – a figura real em que se baseia a heroína do filme, Rachel Bagavara – confessou ao site The Island Now que, ao contrário do que mostra o filme, a primeira vez que ouviu falar em corrupção na escola foi através de uma carta anónima.

“Fiz algumas entrevistas durante o processo”, revelou, “[mas] a Rachel faz um pouco mais de investigação do que eu. Através da Lei da Liberdade de Informação tentei investigar mais a fundo os documentos que pensei que fossem revelar mais detalhes sobre o que se estava a passar, mas, na altura, não conseguia bem perceber como fazê-lo, por isso reportei os factos que juntei com as entrevistas antes de o texto ser publicado”, explicou Rebekah, que agora trabalha no ramo da educação como Diretora Geral da Escola de Flatiron, em Nova Iorque.

Tal como o dilema ético e moral de Rachel, também Rebekah se questionou se devia ou não publicar a história que levaria à queda do diretor. “Senti um conflito ao ser a primeira a publicar esta informação. Sei que o Dr. Tassone implementou um sistema na escola que deu bons resultados em muitos estudantes, inclusive em mim, e também esteve por trás do desfalque de muito dinheiro destinado a financiar nossa educação. É uma realidade difícil de conciliar”.

O mais correto, segundo o argumentista do filme, é olhar para Rachel como uma amálgama de todo o staff do jornal deste liceu. “[A Rachel] em parte é uma combinação e noutra é uma invenção que serve para os espectadores terem alguém para os acompanhar enquanto descobrem toda esta investigação”, disse à revista online Slate.

Uma das facetas mais criticadas no filme é a forma como a sexualidade do diretor é retratada. Tassone foi entrevistado para o podcast Coach Mike e, apesar de ter gostado da interpretação de Hugh Jackman, relevou que, além de nunca ter estado envolvido com um ex-aluno, – o amante acima referido, Kyle Contreras, inspirado em Jason Daughterty, ex-namorado do diretor –, não estava “escondido no armário”.

“Não tenho vergonha de ser um homem gay e, de certa forma, fizeram-no parecer algo sórdido”, disse o ex-condenado. “Nem sequer compreendo porque é que a minha sexualidade foi chamada para o caso”, rematou, afirmando ainda que tinha um casamento aberto.

Após serem libertados da prisão, tanto o diretor como a professora foram ambos proibidos de trabalhar em postos que envolvessem a gestão de dinheiro e tiveram de pagar uma indemnização anual à escola. Até à data da sua morte, Pam todos os anos pagava metade da sua pensão (55 mil dólares anuais) de forma a cobrir o desfalque e trabalhou numa organização não lucrativa. A causa da sua morte é desconhecida.

Em 2006, Tassone confessou em tribunal que as suas ações foram “vergonhosas e deploráveis” e pediu desculpa às “pessoas de Roslyn e às crianças”. Após sair da prisão, o ex-diretor contava que todo este assunto estivesse para trás das costas e, agora, reconheceu que lhe custou ouvir a notícia que iam fazer um filme sobre os crimes que cometeu.

“Pensava que isto tinha finalmente acabado. Mas isto nunca vai acabar para mim, todos os dias sinto dor”, lamentou.

Trassone atualmente vive uma vida recatada em Nova Iorque e recebe uma pensão anual de 170 mil dólares.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×