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Flávio Migliaccio. O ator que não desejava a vida eterna

Flávio Migliaccio. O ator que não desejava a vida eterna

Cláudia Sobral 06/05/2020 08:36

O ator de Shazan, Xerife e Cia e As Aventuras do Tio Maneco foi encontrado sem vida em Rio Belo. “A humanidade não deu certo”, escreveu na sua despedida, aos 85 anos.

No primeiro espetáculo em que participou como ator profissional calhou-lhe o papel de morto. Cadáver, o tempo inteiro. Julgue Você era o título dessa peça estreada em 1954, ano em que iniciava a sua colaboração com o Teatro de Arena, importante companhia brasileira que devia o nome justamente ao dispositivo com que se apresentava, em grande proximidade com o público. A história, com os detalhes sobre a dificuldade quer para se manter imóvel, com as pulgas de que o espaço estava infestado, quer para respirar dentro de um figurino que lhe tirava o ar, foi contada por Flávio Migliaccio em Confissões de Um Senhor de Idade, espetáculo que escreveu, encenou, produziu e protagonizou ele próprio, já depois dos 80 anos.

“Não consigo distribuir. Não que os outros não tenham capacidade. Mas é que quero saber de tudo”, explicava numa entrevista concedida ao Estado de São Paulo a propósito da estreia, em 2017, na qual diria ainda: “Não desejo a vida eterna. Se ocorrer, nada contra. Mas se for com esses políticos que estão hoje por aqui, prefiro não”. Flávio Migliaccio foi na segunda-feira encontrado sem vida no seu sítio em Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro. Tinha 85 anos.

Quando Migliaccio chegou, depois de um curso com Ruggero Jacobbi, o Teatro de Arena tinha acabado de ser fundado e não demoraria a instalar-se na Rua Theodoro Baima, no centro de São Paulo, em frente à Igreja da Consolação, numa garagem adaptada a sala de espetáculos. Participou em vários dos mais emblemáticos da década de 1960: Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho, A Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Eram produções de baixo custo, fiéis à lógica de contracorrente com o que era até então o Teatro Brasileiro de Comédia com que José Renato, ator e encenador saído do primeiro ano da Escola de Arte Dramática de São Paulo, fundara a companhia.

Mas não foi aí que Flávio Migliaccio se cruzou pela primeira vez com o teatro. Nascido no Brás, bairro popular de São Paulo, numa família de 16 irmãos (entre eles a também atriz Dirce Migliaccio, popularizada pela personagem Emília em Sítio do Picapau Amarelo, em 1977) a 26 de agosto de 1934, Flávio Migliaccio estudou num colégio católico do qual acabou expulso aos 14 anos, depois de denunciar o assédio de que era alvo por parte de alguns padres da instituição. É uma outra das histórias da sua vida que percorria Confissões de Um Senhor de Idade, recuperada na morte do ator pelo jornal Folha de São Paulo: “Caminhava perto da igreja do Tucuruvi, na região norte da cidade, quando ouviu um grupo se apresentando no local”. Era o início de um espetáculo. Entrou, ficou a assistir e, no final, dirigiu-se ao protagonista. Acreditava que era capaz de desempenhar o papel. Segundo contava ontem a Folha, o ator terá acabado por ceder o papel a Migliaccio, que a partir daí atuou nessa companhia amadora por três anos.

Nos primeiros anos da sua carreira, ainda longe de as novelas da Globo o transformarem num desses rostos que acompanham os brasileiros nos serões passados em casa, não foi apenas ator. Trabalhou como lojista e como mecânico para sobreviver. Mas depois da chegada ao Teatro de Arena, a vida de Migliaccio começaria a mudar.

Foi pouco depois daquela estreia profissional no teatro em que interpretou um cadáver que, aos 25 anos, chegou ao cinema, em O Grande Momento (1958), de Roberto Santos, um dos precursores do cinema novo brasileiro. Aqui integrou os elencos de filmes como Cinco Vezes Favela (1962), de Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Marcos Farias e Leon Hirzman, A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, ou Todas as Mulheres do Mundo (1966), de Domingos de Oliveira.

Mas não se ficou pela representação apenas. Escreveu, a partir da década de 1960, argumentos para vários filmes e para a série de comédia Estados Anysios, de Chico City (1991), e realizou sete filmes, incluindo Maneco, o Super Tio (1978), que acabaria na década seguinte por ser adaptado à televisão na série As Aventuras do Tio Maneco, exibida pela TVE entre 1981 e 1985.

À televisão chegou em 1972, ao lado de Paulo José, na série infantojuvenil Shazan, Xerife e Cia, transmitida pela Globo até 1974. Nas novelas, participou em Rainha da Sucata, A Próxima Vítima, Vila Madalena, Senhora do Destino, Passione e muitas outras. A mais recente foi Órfãos da Terra, que no ano passado lhe valeu o prémio de ator televisivo do ano da Associação Paulista dos Críticos de Arte, que o havia distinguido já em 1996 com o prémio de melhor ator secundário pelo seu papel em A Próxima Vítima. No cinema teve o seu último papel em Jovens Polacas (2019), de Alex Levy-Heller.

Segundo o seu filho, citado pela imprensa brasileira, Flávio Migliaccio enfrentava nos últimos tempos uma depressão. Ateu convicto, decidira em Confissões de Um Senhor de Idade, o seu último grande trabalho em teatro, estabelecer um pacto com Deus, conforme explicava ao Estado de São Paulo. “Num dado momento do texto, Deus indaga: ‘Como vou estabelecer um pacto com alguém que não acredita em mim?’ Entretanto, ele propõe e eu aceito”. Aos 85 anos, mais do que aceitá-la, Flávio Migliaccio escolheu a sua morte. Com o seu corpo foi encontrado em Rio Bonito também um bilhete de despedida: “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”.

 

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