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Luiz Ruffato. Um livro asselvajado

Luiz Ruffato. Um livro asselvajado

Rita Homem de Mello 05/05/2020 22:14

Um livro que não desilude é um livro que depressa arranca o leitor da sua zona de conforto, para depois lhe mostrar que há muito prazer por aí escondido longe dos clássicos, do rala e rola, ou simplesmente longe de tudo.

Os meus cavalos estiveram sempre mais próximos do picadeiro da Cecília Meireles, mas vou confessar que adorei esta arena desenfreada do Luiz Ruffato, porque realmente é esta a atual cavalaria do Brasil.

Embora tivesse chegado ao fim com a cabeça em água e o estômago revirado. Tive a sensação de estar quatro horas num táxi com um motorista brasileiro do corinthias a debitar ladainhas da banha da cobra. Tive a sensação de percorrer um país, de lés a lés no auge da sua beleza e podridão. Mas o Brasil é mesmo assim. Há dois ou três dias a Alexandra Lucas Coelhos postou uma fotografia da Bahia pelo seu aniversario. Parecia um oásis ao fundo. Mas este livro é muito mais que um cartão postal do Brasil inteiro. É antes uma impressão digital linguística, uma impressão radical de uma realidade díspar, podre e contrastante. Revejo capítulo a capítulo como se fosse eu o miúdo atrás do carrinho de hot-dog.

Dos 70 há uns capítulos que me marcaram mais, não vou enumera-los todos, apenas o 9, o 10 e o 67.

Os ratos impressionaram-me muitíssimo. Pelo nojo, por senti-los dentro das chupetas na boca dos bebes indefesos. Ao longo do livro vai-se perdendo a esperança que algo de bom aconteça, algum milagre, mas antes disso nunca ninguém imagina que o homem bom que leva as crianças ao circo vá abusar da mais velha. Muito menos que ela engravide. Essa pobre rapariga acaba por ter um hominho, um escarro. E é neste hominho que o Português do Brasil e o Português de Portugal se entrecham.

Todos os capítulos parecem saídos do esgoto, da náusea e da violência. Como se o autor tivesse uma urgência desesperada em contaminar o leitor dessa própria violência que o ensombra. Uma urgência quase tão desenfreada como os próprios cavalos.

O capítulo 10 mexeu comigo também, só porque sou mulher.  O QUE UMA MULHER QUER. Tudo o que se despreza.

Achei a visão mais pura do homem-macho-vitimizado. No fundo somos todos vítimas. No fundo a mulher não quer um homem. No fundo a mulher quer o homem que idealiza. Que masturba no seu pensamento. A mulher que quer as férias, as contas pagas e a despensa cheia não é a mulher que despreza os livros densos nas mãos do marido porque também as despreza no meu seu corpo. Neste capítulo reconheço-me como num espelho na última frase. Só na última.

Por exemplo eu, como praticamente todas as meninas bem, europeias, cresci com naturezas-mortas na sala de jantar. Então natureza-morta é sinonimo de quê? De mesas postas com arranjos de flores e velas vermelhas u azuis nos castiçais, de jantares melhorados, de toalhas de linho bem engomadas. Mas aqui a natureza-morta é outra. É a hortinha da Tia fuçada e esventrada. São “as criancinhas a caminharem entre cadáveres verdes”. Cadáveres verdes. Credo. Mas é mesmo assim. Eu compreendo esses cadáveres porque cresci na terra e no amor pela terra. Sangue é sempre sangue, Terra é sempre Terra. Terra quanta a vejas. Foi nesta oração, dentro desta campânula que fui criada. Criada, não educada. Mas o Brasil mesmo esventrado, fuçado, assassinado, nunca será um país morto. Porque não é da sua natureza ser um país morto. O livro devia-se chamar ELES ERAM MUITOS CAVALOS VIOLENTOS. Um livro sem réstia de inocência, sem margem de esperança.

Senti muito nojo na maior parte das vezes, mas especialmente no cap 67. Quando me apercebo num discurso tao corrido como asqueroso que realmente é um país que vale tudo. O tipo que acaba de dizer que fulano fugiu com citrana que até era bem gira, acabou por não lhe chupar o pau só porque alguém tinha acabo de entrar. Nojento.

Ao longo dos capítulos quase me senti a fazer um bolo. Sem bater as claras em castelo. Porque as claras em castelo são nuvens de sonho nas mãos e sonho é nuvem que não se enxerga em capítulo nenhum deste livro.

Senti-me a misturar todos os ingredientes ao mesmo tempo. A tapioca, os brasileiros, homens e mulheres, ricos e pobres, a infância, a cachaça, a coxa de frango, a morte, os índios (nunca soube distinguir um guarani de um pankararu), o crack, os botecos, as ruas, a feijoada, o samba, as mulheres de programa. Mas todos os ingredientes, todos são asquerosos, podres, imundos. Ou se ainda não são, por exemplo as crianças, serão assim um dia. Lembrei-me agora da pobre Fran do capítulo 15. Há personagens que me deixaram profundamente virada. Triste. É um livro asselvajado. O Brasil é como a manga. Manga Rosa, Brasil-espada, Brasil-carma.

Esta escrita é uma escrita que sai do trilho. Sai do trilho pelo seu ofegante e desmesurado realismo cénico, pictórico, carnal, sentimental, que tanto magoa e fere. É um livro para se ler a ouvir os Novos Bahianos, o João Gilberto, a Nara Leão, o Tim Maia ou a Bebel. A ouvir o Bielzinho, O Cordeiro de Nana ou um Samba da Bênção. Um samba bom nos abençoe e nos leve a bem. A mal já bastam estes cavalos.

Um livro destes vale tudo na medida em que ensina o leitor a nunca se achar refém de nada. De estilo nenhum ou corrente. O leitor tem que se aperceber que nunca poderá ler só o que quer que lhe seja escrito. Nunca poderá ser completo no perfeito. Só e sempre no imperfeito. Como este Brasil. Imperfeito e maravilhoso. Imperfeito e mesmo assim eternamente tentador. Afinal, o Rio de Janeiro ainda continua lindo.

Talvez eu possa continuar a pertencer aos cavalos da Cecília Meireles, mesmo que ninguém mais saiba o meu nome, a minha pelagem, a minha origem, mas também pertenço a estes cavalos selvagens e desenfreados do Luiz Ruffato. 

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