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Deixem os Discos Girar #7. Spazutempo dos Zarco
Zarco

Deixem os Discos Girar #7. Spazutempo dos Zarco

Zarco Ana Paganini Hugo Geada 05/05/2020 20:29

O disco de estreia dos Zarco é um delírio psicadélico que, para lá das referências anglo-saxónicas do costume, não se esquece das suas raízes portuguesas. 

A banda de João Sala, Fernão Biu, “Joe Sweats” e Pedro “Pete” Santos lançou em outubro do ano passado o seu álbum de estreia. Com selo da Cuca Monga, era de esperar que o som fosse inspirado nos seus precursores Capitão Fausto, responsáveis pela criação desta editora. Contudo as suas referências vêm de longe, como cantava José Mário Branco, uma das influências, assim como cantores de intervenção como Fausto Bordalo Dias ou Sérgio Godinho.

Spazutempo está perdido no espaço e confuso no seu tempo, mas isso não quer dizer que esteja desenquadrado com os tempos que correm. A banda explica porquê:

Sombra

Eu, alguém, ninguém – três faces da mesma moeda que escrevem e descrevem os processos da autognose. Tu que te lês, tu que te vês e tu que te escreves numa “valsa lenta” a 15 tempos, dançada com a própria sombra.

Vitamina Z

Ao jeito da famosa sitcom dos anos 90, é uma música sobre nada onde se fala sobre tudo. Uma compilação de observações, delírios e desejos corridos a verbos no infinitivo. O cartão de visita da nossa banda em formato vitamínico, para consumo auditivo.

Tava Num Bar

É um relato de um homicídio que empatiza com as várias partes envolvidas: com a ira da multidão que popula o bairro difamado pela alegada criminalidade, com a inocência de um sorriso amarelado pela timidez, e com a obrigação dos protocolos investigadores que constrangem as duas partes anteriores. É uma azáfama social que polui uma das
partes da totalidade do spazutempo.

Shicksalsrad

É a música mais antiga do álbum e também aquela que ninguém consegue dizer à primeira; termo alemão que significa “roda da fortuna”, no sentido de destino. É um mantra da ideia de rotação e de respiração que governa a circularidade da vida.

Feira das Memórias

Num universo onde a tecnologia nos permite registar ou materializar memórias, o comércio ainda acontece em bazares onde lojistas e fregueses se encontram presencialmente. Este tema descreve o ambiente de uma feira onde se coleccionam e adquirem memórias; as motivações de quem lá vai comprar, os vícios de quem lá vai vender e a constante amnésia de quem lá passa os dias.

Spazutempo 

Spazutempo é tudo, tudo é spazu. Spazu explica o que acontece e tem poder sobre o tempo! O teu isqueiro desapareceu? Spazu. Voltaste a encontrar um velho amigo depois de muitos anos? Spazu! Era esse mesmo amigo quem tinha o teu isqueiro? SPAZUTEMPO. É Ele quem controla e domina o que se passa, sem nunca se impor. É a relatividade da quarta dimensão e a música que fizemos foi a melhor maneira de tentar explicar tanta coisa em pouco mais de três minutos.

Arco da Velha

É uma perspectiva histórica da Humanidade, subjectiva e objectiva simultaneamente, como manda o spazutempo. Explora avanços e vícios, retrocessos e rotinas açambarcadas pelo andar do tempo, continuamente em mutação nos metros do mesmo espaço.

Corsário

Um tema que usa a história de António de Faria (1479 – 1548), um navegador e fidalgo português, para falar, não só daquilo que foi a sua vida e os seus desígnios pelos mares por ele navegados, mas também, para falar do processo de construção de uma identidade por meio de uma narrativa de viagens, em que através de diversas mortes iniciáticas, um indivíduo cresce e e se descobre – uma analogia para a vida. Canção de ambiência e atmosfera melancólica e nostálgica apenas quebrada pela parte instrumental a meio do tema, parte essa, que age como uma analepse de todos os momentos vividos numa vida cheia de aventuras, a bordo de um barco (como sugere a divisão ternária do compasso) inclinando-se ora para um lado ora para o outro. E é nesse barco com António Faria que, num final tempestuoso, somos levados p´ra lá do rio...

P’ra Lá do Rio

Este tema é sobre um modo de estar na vida, estar-se sem expectativas e esperar o devir natural, seja ele qual for, das coisas. A música tenta manter a ideia de presente estendido, como se fosse um momento que se se pudesse captar e em que se pudesse estar. Estar no momento em que surge uma dúvida e com ela a sensação que a
acompanha - acompanhar a estranheza que há em nós e, aceitá-la.

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