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Reabertura do comércio. “As senhoras estavam sedentas de cabeleireiro”

Reabertura do comércio. “As senhoras estavam sedentas de cabeleireiro”

Bruno Gonçalves Rita Pereira Carvalho 05/05/2020 10:33

De Alvalade a Benfica, o regresso do pequeno comércio ficou marcado pelas novas regras e, sobretudo, pelas diferenças: os cabeleireiros já não têm espaço nas agendas para tantas marcações, mas as lojas de roupa ou as sapatarias contam pelos dedos das mãos os clientes que entraram ontem nos espaços. Agora, os clientes só entram de máscara, mas levam consigo pouco dinheiro para gastar.

Regras, nervosismo, expetativa e algum alívio – assim se reabriram as portas do pequeno comércio em Lisboa. Dos cabeleireiros aos sapateiros, rara foi a loja que não teve pelo menos um cliente no primeiro dia, a que muitos deram o nome de “ensaio para o que aí vem”. O comércio reabre a passo lento e foi durante a quarentena que alguns clientes perceberam a falta que as pequenas lojas de rua fazem – seja para comprar uma panela ou para colocar capas nos sapatos. “Ai, nem acredito que o senhor Mário está aberto, finalmente”. Esta foi a reação de Júlia Miguel quando percebeu que o seu sapateiro, junto à Avenida da Igreja, em Alvalade, estava a trabalhar normalmente, depois de um mês e meio fechado. “Durante a quarentena tive tudo, mas a única coisa que perguntava quase todos os dias era ‘quando é que abre o sapateiro?’. São as pequenas coisas que fazem falta e eu precisava mesmo de umas capas nos sapatos”, explicou a cliente de Mário Cardoso, enquanto esperava, fora da loja e de máscara no rosto, pelos seus sapatos arranjados. Dentro da sapataria estava o tão aguardado Mário Cardoso, mas o entusiasmo da cliente contrastava com as dúvidas do sapateiro. Em layoff, como grande parte dos funcionários do pequeno comércio, contou que “o movimento não tem nada a ver com aquilo que era antes, há gente na rua, mas muito menos”. “E clientes são poucos. Alguns vieram pôr sapatos a arranjar e outros vieram buscar coisas que não tiveram tempo de levar quando isto fechou de repente”, acrescentou.

Esta pandemia trouxe também uma nova realidade às retrosarias. “Nunca vendi tanto elástico, é aos 30 metros”, contou Isabel Vicente, da Retrosaria Marquesa. E tudo por causa das máscaras. “Também vendemos tecido para as máscaras, mas elásticos é uma loucura, todas as senhoras querem elásticos”. Ontem foi apenas o primeiro dia e aquela retrosaria conseguiu reunir algumas das clientes habituais – desta vez, todas equipadas a rigor, e nenhuma deixou a máscara em casa.

Regra geral, dizem os comerciantes, os clientes têm cuidado. Aliás, na loja de eletrodomésticos, Joaquim e Estrela contam o episódio que assinalou o primeiro dia, e é sobre excesso de zelo: “Uma senhora de 80 anos, sempre que nos aproximávamos para mostrar o que ela pedia, afastava-se e andava para trás até à porta e dizia, ‘olhe que eu tenho 80 anos, não podemos estar perto’. Mas nós temos máscaras e a senhora também tinha máscara, não temos outra forma de mostrar as coisas às pessoas”.

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