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Alexandra Duarte 04/05/2020
Alexandra Duarte

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Covid-19: entre a liberdade e a vida

Há liberdade neste tempo de luta contra o vírus. Somos livres de escolher viver e de protegermos os outros, assim como temos liberdade para sermos exemplares na nossa cidadania.

Terminou o estado de emergência. Segue-se o estado da urgência. É urgente ter consciência de que não estamos a recuar a fevereiro deste ano e que as medidas de distanciamento social, que fomos adquirindo ao longo do período de quarentena, deverão manter-se nas nossas rotinas diárias. Na rua, encontraremos aqueles que são mais céticos quanto aos efeitos do distanciamento social e que, por isso mesmo, continuarão nas filas de supermercado em cima de nós, entrarão para o elevador mesmo que já esteja quase cheio, quererão cumprimentar os nossos filhos com um beijo ou com uma festa no rosto, se sentarão na cadeira ao lado da nossa, ainda que haja outras vagas, insistirão em conversar a menos de um metro, e tudo isto com um ar desentendido e como quem não quer a coisa…

Cada um terá de ser responsável por si e pelos seus e até pelos outros, caso o permitam. Com delicadeza, deveremos relembrar as normas de distanciamento social, se quisermos evitar a repetição do confinamento. Se, para uns, os dias de quarentena foram tempos de dedicação a projetos pessoais para os quais não havia tempo e a descobrir novas formas de estar em família ou até mesmo em solidão, para outros, foram tempos muito difíceis e de preocupação. Habitações mínimas que abrigaram 24 sobre 24 horas mais pessoas do que as assoalhadas disponíveis; doentes crónicos que não puderam ser acompanhados regularmente; associações comunitárias que deixaram de receber bens para distribuir por quem precisa e andaram no terreno, com um número mínimo de voluntários, realizando o mesmo trabalho de sempre; situações em que o “inimigo” está dentro de portas; famílias a quem comunicaram o despedimento ou cortes nos salários e tiveram de ficar em casa, com as despesas a aumentar; crianças privadas do sol, das brincadeiras com os amigos, das correrias saudáveis; pais preocupados com o novo método de ensino – a telescola – e com os recursos indispensáveis para esta nova realidade; negócios que tiveram de encerrar sem qualquer perspetiva de abertura; investimentos que foram adiados; um país suspenso a calcular como será o dia seguinte à quarentena e que não chega a resultado algum.

Vêm aí novos tempos para todos nós. Desconhecidos dos manuais das ciências económicas e sociais. A História vai escrever-se com o passar dos dias, tal como aconteceu a seguir à gripe espanhola, à Grande Depressão e até a seguir à ii Guerra Mundial. A primeira batalha que travámos foi com nós próprios, durante este confinamento, procurando novas formas de adaptação ao distanciamento social. Agora teremos de derrotar o nosso inimigo, o vírus, sem lutar, simplesmente mudando o nosso comportamento e adequando-o à evolução do inimigo. E esperar pela vitória sobre a ameaça constante que representa a covid-19 ao nosso modelo de comunidade.

O que prezamos mais: a liberdade ou a vida? Durante uns tempos, a vida terá de ser a maior das nossas preocupações e devemos elevar o princípio universal da vida acima de todas as preocupações que nos entretiveram em debates e referendos e que, perante esta realidade, nos parecem, agora, distorcidas e superficiais. Há liberdade neste tempo de luta contra o vírus. Somos livres de escolher viver e de protegermos os outros, assim como temos liberdade para sermos exemplares na nossa cidadania e foco de motivação para terceiros que desanimem mais facilmente perante a adversidade. A escolha é nossa, bem como a responsabilidade que advém das nossas escolhas e que pode ter repercussões nos outros.

 

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