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Um caso de doença infantil associado à covid-19

Um caso de doença infantil associado à covid-19

Marta F. Reis 01/05/2020 15:25

Depois do alerta no Reino Unido, países reportaram uma centena de casos de doença de kawasaki associada à covid-19. Doença parece estar a ganhar terreno com o vírus.

O alerta soou esta semana no Reino Unido e está a chamar a atenção de peritos em todo o mundo. Os pediatras têm estado a detetar quadros clínicos compatíveis com a doença de kawasaki, uma inflamação aguda dos vasos sanguíneos, que nos casos mais graves pode levar a problemas cardíacos e aneurismas, e que parecem agora estar ligados à infeção por covid-19. Algumas crianças precisaram de ser assistidas em cuidados intensivos, mas a maioria tem evoluído favoravelmente. O conselho é que os pais estejam atentos, mas sem alarme: na maioria dos casos em crianças com covid-19 têm tido uma evolução positiva e doença ligeira.

A preocupação veio a público no início da semana, quando a imprensa britânica revelou que o NHS tinha pedido aos médicos que reportassem casos idênticos desta vasculite com ligação à epidemia de covid-19. Seguiram-se alertas em Itália, Espanha, França, EUA, com os países a sinalizar mais de 100 casos na última semana. Em Itália, estimam-se 50 a 100 casos nas últimas semanas – no maior hospital de Bergamo foram registados 13 casos no último mês. Lorenzo D’Antiga, diretor do serviço de pediatria do Hospital Papa Giovanni XXIII, explicou que a incidência deste quadro clínico nas últimas semanas, pouco frequente, foi 30 vezes acima do habitual. Não deram o alerta mais cedo por ainda estar em investigação e para não gerar preocupação geral, justificou. Todas as crianças tiveram alta em 15 dias. Em dois casos houve uma dilatação da artéria coronária que deverá ser controlada na idade adulta, descreveu ao jornal Il Fatto Quotidiano. Como é que não reportados casos na China? «Fiz a mesma pergunta e a resposta é que não sei, mas estou convencido de que também os têm», afirmou.

 

Portugal com um caso

Em Portugal, o presidente do colégio de pediatria da Ordem dos Médicos, Jorge Amil Dias, garantiu no início da semana ao jornal i que os pediatras estão atentos à informação. «Os pediatras há muitos anos que diagnosticam doença de kawasaki em crianças, há critérios de diagnóstico e terapêutica. O que temos agora é uma possível associação de infeção. Se corresponde a um risco maior ou não, só o tempo permitirá perceber. Se para a comunidade médica isto é importante para alargar o diagnóstico, e os médicos estão atentos, não se deve criar o pânico na população». A diretora-geral da Saúde, que esta quarta-feira indicou que não havia casos no país, revelou ter recebido entretanto a indicação de um caso no país. Jorge Amil Dias explicou ao SOL que a situação continuará a ser analisada pelos médicos, adiantando que este é um processo inflamatório que se pensa que pode decorrer de uma infeção prévia que ativa o sistema imunológico, combinado com alguma predisposição genética. «Neste sentido, qualquer infeção pode, em algumas circunstâncias, criar o terreno para esta doença, que acaba por ser resultado de uma tempestade inflamatória. [...] Sendo uma situação conhecida, sabemos que em alguns casos pode causar aneurismas por isso temos de estar atentos”, diz Jorge Amil Dias, responsável pelo serviço de pediatria do São João. O médico adianta que neste hospital, nos últimos cinco anos, foram registados 25 casos de doença de kawasaki e até ao momento não foi reportado nenhum caso durante a epidemia. «Neste momento sabemos que existem quadros clínicos menos típicos que poderão estar associados a infeção mas de um modo geral a infeção por covid-19 não tem um impacto grave na população pediátrica. Há casos mais severos, mas a população pediátrica tem sido de um modo geral poupada e no hospital onde trabalho a maioria das crianças foi tratada em ambulatório e apenas uma foi internada», disse Amil Dias ao i.

Desde a confirmação do primeiro caso de covid-19 em Portugal, testaram positivo para o vírus 402 crianças com menos de nove anos. Foram ainda diagnosticadas outras 748 crianças e jovens entre os 10 anos de idade e os 19 anos. Podendo existir mais casos de doença de kawasaki, não parece até aqui ser uma complicação frequente.

 

Primeiro caso numa bebé de seis meses

Apesar de só esta semana ter soado o alarme a nível internacional, o primeiro caso a alertar para uma possível relação entre a doença de kawasaki e a covid-19 em crianças foi descrito a 7 de abril num artigo publicado na revista  Hospital Pediatrics por uma equipa de Faculdade de Medicina de Stanford.  Os autores relatam o caso de uma bebé de seis meses atendida numa urgência pediátrica com febre alta (38.8ºC) e recusa alimentar há um dia. No segundo dia, desenvolveu rash cutâneo e conjuntivite. O agravamento do quadro levou a que regressasse à urgência, onde foi admitida para tratamento com suspeita de doença de kawasaki e acabou por ser testada para o coronavírus antes de ser internada, embora a família estivesse confinada em casa há uma semana e não houvesse historial de contacto com doentes. Apenas o irmão de nove anos tinha tido sintomas respiratórios três semanas antes. O eletrocardiograma não mostrou alterações e a criança teve alta, com indicação para a família ficar em isolamento 14 dias e repetir mais tarde os exames cardiológicos. No artigo, os autores recordam que a doença de kawasaki é uma vasculite grave em crianças e a principal causa de doença cardíaca em crianças nos países desenvolvidos, com 50% casos a verificarem-se antes dois anos anos de idade.

Os investigadores concluíram na altura não ser clara relação entre o caso desta criança, que teve um quadro ligeiro, deixando no entanto um alerta: «Na pediatria, com o espetro clínico ainda por ser definido de forma clara, os doentes que tenham apenas febre ou outros órgãos envolvidos como sintomas gastrointestinais podem passar despercebidos se o teste foi restrito apenas às crianças com queixas respiratórias», concluíam.

A Direção Geral da Saúde revelou no início da semana que em março houve uma quebra de 13% na vacinação em Portugal, reforçando o apelo para que os pais e cuidadores não atrasem a ida às vacinas.

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