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Jean Cocteau. «Façam de conta que choram meus amigos...»

Jean Cocteau. «Façam de conta que choram meus amigos...»

Rita Homem de Mello 30/04/2020 18:47

O leitor depara-se no Livro Branco com «uma França que suporta mal papéis que não sejam de corpo inteiro» (p.42) e com um homem que procurava ter mão nele próprio. Deparamo-nos também com uma tempestade sentimental sem tréguas, com muito ciúme e aventuras à época escabrosas.

«Façam de conta que choram meus amigos, porque os poetas só fazem de conta que morrem.» (p.18)

O Livro Branco seguido de O Fantasma de Marselha (Sistema Solar 2015)

É bom que nos demoremos no primeiro desenho do livro. Não estou a referir-me ao desenho da capa, mas sim ao autorretrato do poeta, dramaturgo, encenador, cineasta, pintor e escultor.

“Ça vie es une” lemos em letra manuscrita no canto esquerdo. Impossível está claro, não associarmos o lado esquerdo ao império asteca do coração. Esta frase revela em pleno a essência deste homem.

Pode parecer o mais banal dos lugares comuns, mas não. Cocteau viveu intensamente, sofregamente.

Da literatura à música, ao ballet, ao teatro, esteve envolvido no surrealismo, em todos os movimentos artísticos da sua geração.

Próximo de Picasso, Modigliani, André Breton, Erik Satie, Jean Marais, Piaf, Stravinsky, André Gide, Matisse, Delacroix. Enfim, a lista de personalidades é imensa, pulsante, extraordinária. Paris vivia uma época fosforescente em todas as artes.

É ao som de L’Histoire du soldat, de Stravinsky, que escrevo estas palavras.

Um autorretrato nunca é o próprio ao espelho, é antes a ideia do que nós somos para nós ao espelho.

Cocteau (p.43)conta que «Uma vez, um narciso que se apreciava muito chegou a boca ao espelho, colou-a nele e levou-a ao fim a aventura consigo próprio. Invisível como os Deuses gregos, pousei os lábios nos dedos dele e imitei-lhes os gestos. Ele nunca soube que o espelho atuava, em vez de refletir, que estava vivo e o tinha amado.»

Neste autorretrato, vemos duas metades de um corpo. Dois corpos metades, cinco membros metades. Duas metades nunca equivalem a uma, equivalem a múltiplas. 

Um Cocteau nu e outro de jaqueta, camisa e laço. Calculo que de botões de punho de ouro cinzelado também.

Vemos-lhe a metade do sexo, o quinto membro a que me refiro, que nele, seja talvez o primeiro, o mais vivo, tóxico, esmagador dada a carga de erotismo, sexualidade e líbido que imprime nas suas obras.

A meu ver, a metade é o cravo ardente deste livro, da sua cronologia, da sua autobiografia, da sua memória.

A par e passo, confere-lhe ritmo na prosa, no aperto e na fantasia.

Se o leitor pensar, nunca se lembrará de tudo por inteiro. Às vezes lembrar-se-á de umas coisas acerca de determinado acontecimento que o marcou, mas nunca se lembrará fielmente de tudo. A metade é sempre o que resta de uma noite, de uma viagem, de um casamento, ou até o que aconteceu quando tantas vezes não vivemos a vida por inteiro.

Em Cocteau, na maioria o que fica são «rastos do meu gosto por rapazes.» Esse rasto é o assombro, o vislumbre, o fantasma.

Pois bem, neste livro encontramos depois da biografia vincada em O livro Branco, esse assombro em O Fantasma de Marselha. Uma biografia seguida por um conto, uma metade seguida da outra.

Um livro que apenas é branco porque não é perfilhado nem pelo autor nem pela editora num primeiro momento. Branco pelo receio de escândalo, pelo receio da mãe e dos seus contemporâneos que não aceitavam de bom grado a homossexualidade.

Jean Cocteau receava expor-se demasiado. A tiragem inicial foi de vinte e um exemplares. Se pensarmos, talvez seja equivalente à tiragem habitual dos livros de poesia de pequenas editoras.

A pequena tiragem não retira valor a nenhum livro, pelo contrário, dignifica-o. Disso é exemplo sanguinário este Livro Branco. Eu própria me orgulho de ter na estante a Biografia do David Teles Pereira número 39, ou o número 17 do Livro da Luz do António Poppe.

Quando André Gide fez uma recensão crítica ao Livro Branco, sublinha que apenas teve a oportunidade de o ler porque lhe fora emprestado pelo amigo Roland Saucier. Impressionante, como é que passados tantos anos, consigo partilhar a mesma impressão que Gide quando este admite que «certas obscenidades são contadas de maneira encantadora.» Este encanto é quase celestial, ingénuo, imberbe.

Toda a vida Gide antipatizaria com Cocteau por disputas de um grande amor, Marc Allégret.

Só em 1981, dezoito anos depois da sua morte, é que finalmente surge o livro com assinatura do seu autor, agora com a tiragem de quatrocentos e cinquenta exemplares.

É em branco que o autor tem que se aproximar de um escritor como Cocteau. É em branco que no conto O Fantasma de Marselha nos temos que deixar levar nesse ténue abismo da ilusão. Um homem, Acciles, faz-se passar por Lilly, e por uma fatalidade um velho industrial deixa-se morrer de amores por ele/ela, por essa metade indefinível que logo no auto-retrato nos é dada a provar pelo autor. Mais uma vez a metade, quando a vida é uma. «Ça vie est une.»

O leitor depara-se no Livro Branco com «uma França que suporta mal papéis que não sejam de corpo inteiro» (p.42) e com um homem que procurava ter mão nele próprio. Deparamo-nos também com uma tempestade sentimental sem tréguas, com muito ciúme e aventuras à época escabrosas.

Como é sabido, Cocteau amou e desejou muitos homens. Homens do céu, da terra e dos mares. Homens lindos, ciganos, jovens, árabes, marinheiros. Homens dotados de sensibilidade artística como ele. Homens que o fizeram sonhar com o êxtase. Homens que morreram e o deixaram cedo demais. Homens que o entristeciam porque também amavam outras mulheres.

Primeiro Radiguet, depois Desbordes, Marcel Khill, Jean Marais, Edouard Dermit, Rolland Garros. Neste livro apenas são mencionados os primeiros cinco homens.

O Livro Branco é um exílio encastelado de uma vida que foi muito mais que uma.

A literatura e a arte são a prova viva que o cilício é o melhor jejum para alcançar o clímax, como o próprio nos diz no Mito de Greco a respeito de Miguel Ângelo «Por isto as bisnagas de cores, a tela a madeira, as cozinhas secretas, as pequenas figuras (que infelizmente não temos!) esculpidas na cera, no gesso e na lama, tornavam-se entre os dedos deste monge mais eficazes do que os jejuns e o cilício para obter o êxtase.»

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