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José Paulo do Carmo 30/04/2020
José Paulo do Carmo

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O dia regressa aos poucos. A noite não

A noite tal como o dia é feito de pessoas boas e más. Sim, é verdade que muitas vezes, devido aos excessos, consegue mostrar o pior que o ser humano tem. Mas também é verdade que consegue retirar o melhor e serve de escape a muita gente que precisa de momentos de descontração entre amigos para desanuviar a cabeça.

A partir da próxima semana a vida voltará tímida e progressivamente à sua normalidade. A noite definitivamente não. Acredito que para muitos este não seja um tema prioritário, porque quando olham para a noite, para os bares e as discotecas, só se lembram da diversão, das bebedeiras e do supérfluo e desnecessário, ainda para mais numa altura como esta. Dir-me-ão que agora as prioridades são outras, que não vale a pena pensar nisso e que esses gatunos e violentos personagens que vivem da noite não merecem a nossa atenção. Que até é bom que fechem porque assim os nossos jovens não irão para a “má vida”, como se costumava dizer, o que deixará muitos pais teoricamente mais descansados. Ora, eu considero que esta visão é errada.

Primeiro porque o negócio da noite, como em tudo na vida, também tem gente boa e séria, que paga os seus impostos, que tem famílias e que dá emprego a muitos outros. Depois porque o nosso turismo também é feito da atratividade da nossa atividade noturna, e o dinheiro que gera não é assim tão residual. Mas, sobretudo, porque também estamos a falar de pessoas e dos seus empregos tão honestos como quaisquer outros. A noite tal como o dia é feito de pessoas boas e más. Sim, é verdade que muitas vezes, devido aos excessos, consegue mostrar o pior que o ser humano tem. Mas também é verdade que consegue retirar o melhor e serve de escape a muita gente que precisa de momentos de descontração entre amigos para desanuviar a cabeça.

Mas há uma coisa que todos temos que perceber. Não há discotecas sem contacto, não há a mesma diversão sem álcool e não é exequível abrirem estes espaços com as regras dos outros locais de restauração. Ninguém vai usar máscaras a beber, não é possível controlar a distância social nem se conseguirão evitar as palhaçadas dos bêbados a tirarem as máscaras aos barman e a mandarem perdigotos para tudo quanto é sítio. Já nem falo da risada que seria medir a temperatura à saída dos espaços. Com o uso de drogas, como as pastilhas ou a cocaína, generalizado no nossa praça, que fazem subir a temperatura corporal e provocam suores, mas também o excesso de álcool ou a simples ação de dançar na pista e ainda as cada vez mais consumidas bebidas energéticas, seria um descalabro total que colocaria de quarentena imediata a maior parte. E haveria de ser bonito manter 2000 ou 3000 pessoas, muitas delas alteradas, confinadas em espaços porcos e imundos e sujeitas a exames.

Não é por isso plausível, nem aconselhável, que abram a breve trecho. Das duas, uma: ou abrem e existe a consciência de que não serão passíveis de controlo, ou mantêm-se fechadas, porque abrirem com esse tipo de regras é só para quem não conhece o meio. Isto vai gerar, ao contrário do que alguns pensam, outro tipo de problemas na nossa sociedade. Os guetos nos bairros e algumas festas clandestinas sem o mínimo controlo. Se nos festivais de música já se fala da possibilidade do drive-in, mantendo as pessoas nos seus carros para um leve recomeço, já na noite não vejo como se possa dar a volta à questão, sem ser transformando primeiro os espaços em bares com mesas, assumindo a devida distância e com horários mais reduzidos. É importante que se olhe para o tema com seriedade, porque pode significar a falência de toda uma área e uma tragédia para muitas famílias. Desde empresários, seguranças, pessoal das limpezas, empregados de bar, promotores e todo o tipo de artistas, desde bandas a djs e bailarinos. Não consigo conceber a diversão sem abraços, sem encostos e sem copos. É-me, por isso, difícil conseguir vislumbrar a normalidade ou uma qualquer reinvenção.

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