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Dias negros para o petróleo

Dias negros para o petróleo

Sónia Peres Pinto 25/04/2020 20:25

Preço está a recuperar lentamente, mas muito longe das valorizações das semanas anteriores. Produtores estão dispostos a pagar para que alguém recolha o petróleo armazenado.

Depois de o barril de petróleo ter estado em queda livre no início da semana, voltou a valorizar, mas  registando apenas uma recuperação parcial. Os analistas contactados pelo SOL garantem que, apesar da negociação estar menos volátil, conta com menos liquidez e ainda está a recuperar das fortes quedas, tendo chegado a negociar em valores negativos de quase menos 40 dólares por barril. Isto significa que os investidores/produtores chegaram a pagar para vender um barril. A explicação é simples: os produtores estão dispostos a pagar para que alguém recolha o petróleo com o objetivo de libertar algum espaço de armazenamento para o petróleo atualmente produzido e, com isso, evitar paragens de produção, que são sempre muito dispendiosas e põem os poços em risco.

Para André Pires, não há dúvidas: «Segunda-feira será lembrada como o pior dia da história do mercado de petróleo. O preço, pura e simplesmente, desceu para valores negativos - algo sem precedentes». Acrescenta, no entanto, que esta situação circunscreveu-se aos contratos de futuros do petróleo WTI relativos a 20 de maio, cujo vencimento foi a 1 de abril.

«Apenas uma pequena parte do mercado estava ainda em negociação, uma vez que a maioria dos players de mercado, cuja intenção nunca foi a de adquirir a mercadoria, mas sim a de negociar os contratos, já havia renovado a sua posição para os contratos de 20 de junho».

Mas as perspetivas para os contratos de junho também não são animadoras.

O analista da XTB_garante que «os contratos de futuros de junho também perderam liquidez e o seu preço cai vertiginosamente. Os investidores procuram, sucessivamente, contratos de futuros de mais longo prazo, na expectativa que a situação de crise mundial atenue brevemente. Porém, as perspetivas são cada vez mais assombradas pelos dados da pandemia e pelos resultados trimestrais publicados pelas empresas ocidentais».

Uma opinião partilhada por Ricardo Evangelista, que reconhece que o grande problema continua a ser o excesso de produção relativamente à procura e a respetiva falta de capacidade de armazenamento para o excedente. «Por este motivo, será natural que, daqui a algumas semanas, quando chegarmos à maturidade do contrato de junho, o pânico se instale novamente e a pressão vendedora leve os preços a cair, uma vez mais, de forma mais acentuada», refere ao SOL o analista sénior da ActivTrades.

Neste cenário, o responsável admite que não se prevê uma valorização que seja sustentável, até que se dê a retoma na procura necessária para resolver os atuais problemas de escoamento. «Antevejo períodos de ligeira recuperação, a intercalar quebras acentuadas que coincidirão com a maturidade dos contratos de futuros», acrescenta.

E as contas não são animadoras. A partir de maio, iremos assistir a um corte da produção diária em 9,7 milhões de barris, que num cenário de procura normalizada seria motivo para vermos uma subida nos preços do ouro negro. Uma situação que, de acordo com  David Silva, «não será um corte suficiente face ao excesso de produção que se tem registado nas últimas semanas. Ainda quarta-feira foram produzidos mais 15 milhões de barris por dia face à semana anterior». O analista da Infinox defende que terão de ser tomadas medidas mais agressivas no que diz respeito ao corte de produção, «seja para um corte superior ou até mesmo para o encerramento de algumas refinarias durante um determinado período, passando a ter apenas o custo de armazenamento»

Para André Pires, a situação só poderá ver melhores dias assim que a procura começar a recuperar, ou seja, com o levantamento das restrições ao livre trânsito. «Se as expectativas de uma redução nos stocks melhorar, os preços dos contratos de curto prazo poderão recuperar», lembrando, no entanto, «que este levantamento das restrições poderá revelar-se uma espada de dois gumes, caso vejamos uma segunda onda de contágios».

 

Galp já sente efeitos

A petrolífera portuguesa anunciou que vai parar a produção na refinaria de Sines [onde se transforma o crude em gasolina e gasóleo] a partir de 4 de maio, durante um mês. Esta paralisação já tinha ocorrido em Matosinhos. A decisão está relacionada com o facto de a capacidade de armazenagem estar «a atingir rapidamente o seu limite», mas a Galp garante que o fornecimento do mercado está garantido e que a medida não terá efeitos nos trabalhadores afetos à refinaria.

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