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José Paulo do Carmo 24/04/2020
José Paulo do Carmo

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Como fica a noite em Portugal?

Parece-me que a atividade noturna, pouco discutida por estes dias, será talvez a mais afetada e com efeitos mais prolongados

Têm sido amplamente discutidas as consequências desta pandemia nas nossas vidas e nos nossos negócios. De cada área têm vindo vários empresários reclamar apoios e com ideias estratégicas para o tempo que virá após a covid-19 ou, pelo menos, para uma altura em que a disseminação esteja já minimamente controlada e voltemos pari passu a uma seminormalidade. Parece-me que a atividade noturna, pouco discutida por estes dias, será talvez a mais afetada e com efeitos mais prolongados. As pessoas terão nos próximos tempos outras prioridades e hábitos bastante diferentes que não se coadunam com estar num ambiente cheio de gente, com alguns bêbados a cuspir fogo e outros a dançarem agarradinhos, seja em bares ou discotecas.

Temo, por isso, que as condições destes espaços fiquem insustentáveis, com rendas elevadas e custos assumidos, assim como as vidas dos seus funcionários, a larga maioria a recibos verdes, que utilizam normalmente este escape para ganhar uns trocos extra enquanto se formam ou procuram algum emprego mais fixo. Mas também os produtores de espetáculos, os artistas e respetivas bandas, sobretudo aqueles de quem poucos se lembram quando vão a um concerto, os técnicos de som e luz, as pessoas da limpeza e da segurança e todo o pessoal da produção. Pelo menos este verão, as necessidades de diversão e entretenimento serão supridas de outra forma. Ainda esta semana, em conversa com o ilustre dono de um restaurante algarvio, falávamos de como as grandes festas em casas com dimensão para isso – e até nas outras com lotação mais reduzida – irão ganhar maior preponderância. Será um género de regresso ao passado que ainda permanece vivo para quem pode e para quem é convidado para as inúmeras festas privadas, que continuam a existir sobretudo para quem não se identifica com o instituído ou prefere a discrição e a segurança, longe de olhares indiscretos.

Sobrará, por isso, pouco espaço para os “tentilhões” da nossa praça ou para as meninas que rodam habitualmente carteirinha pelos balcões da cidade. Também eles terão de se reinventar. Como dizia um brasileiro no outro dia, “o jogo virou, agora só os casados transam”. E se esses se alimentavam do vaivém constante das discotecas pejadas de gente, agora terão de se contentar com a vizinha do prédio ou, eventualmente, com essas aplicações para telemóveis tão em voga de “engate à la carte” e sexo ao domicílio. Esses lobos solitários que gostam de comer fora todos os dias para irem variando o prato vivem agora dias de míngua, solidão e clausura que não lhes augura grande futuro nessa empreitada habitual. Engraçado como as vontades e o conforto mudam de um momento para o outro.

Teremos uma nova forma de nos relacionarmos, com atrações à distância e novas modas com máscaras provavelmente estilizadas e desenhadas por grifes reconhecidas para os wannabes do costume poderem gastar o seu dinheiro. Talvez seja tempo de aprendermos com os árabes, para melhor percebermos o que se encontra para lá delas. Parece-me que nos próximos meses iremos assistir a um receio de aproximação ao desconhecido. Não sei bem como será , mas imagino um desses afoitos a perguntar à menina se tem o certificado de imunidade da covid para que possam falar mais a vontade. Ou o sensual que irá ser um simples gesto de baixar a máscara ligeiramente, de forma a mostrar apenas o lábio superior. Em suma, meninos e meninas, o recreio mudou! Nos próximos meses terão de inventar novas brincadeiras, o que, com a sede que já por aí vejo e as mentes criativas que por aqui existem, não me parece difícil.

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