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Os fatores que fazem com que os dados da pandemia não representem a realidade

Os fatores que fazem com que os dados da pandemia não representem a realidade

AFP Filipe Teles 24/04/2020 08:27

A melhor forma de olhar para a crise é prestar atenção aos números totais de óbitos, dizem demógrafos.

Hospitais em situações de rutura, serviços funerários sobrecarregados, jornais com dezenas de páginas dedicadas a obituários, corpos amontoados em camiões para serem deslocados para outros locais pela escassez de campas nos cemitérios. Milhões colados aos televisores, monitores e ecrãs a acompanhar o ritmo de propagação do vírus e os terríveis números de mortes causadas pela pandemia da covid-19. Mas um pouco por todo o globo, e com o planeta a caminhar para as 3 milhões de infeções confirmadas e a um dedo das 200 mil mortes, as reticências persistem sobre a real letalidade do coronavírus.

Só alguns exemplos: o Brasil tem provavelmente 12 vezes mais casos de coronavírus do que os que foram reportados pelo Palácio do Planalto, de acordo com um estudo citado pela agência Reuters; a China aparenta ter o quádruplo dos casos, segundo investigadores de Hong Kong; o coronavírus no Reino Unido já matou pelo menos 41 mil pessoas, mais do dobro das estatísticas oficiais, analisou o Financial Times. O Governo da Indonésia atribuiu 84 óbitos ao coronavírus em Jacarta, mas foram enterradas mais de 1000 pessoas do que o normal nos cemitérios na capital do país, segundo dados das autoridades indonésias, citadas pela Reuters.

Pelo menos mais 28 mil pessoas morreram durante a pandemia do coronavírus, no mês passado, do que os balanços oficiais em todo o mundo apresentam, diz o New York Times, que recolhe, rastreia e analisa os dados sobre a covid-19. O diário norte-americano reviu as taxas de mortalidade de 11 países, providenciando uma imagem mais clara, mas ainda incompleta, sobre a dimensão desta crise pandémica.

O diário nova-iorquino explica que no mês passado faleceram muito mais pessoas do que em anos anteriores – os totais de mortes referem-se tanto a falecimentos por covid-19 como por outras causas – muitos desses óbitos podem dever-se ao facto de os hospitais se encontrarem sobrecarregados. Não se morre por covid-19, morre-se de outras doenças que podiam ter sido tratadas nas instalações de saúde.

Espanha tem uma taxa de mortalidade 66% acima do normal para esta época – entre 9 de março e 5 de abril, com 19 700 mortes em excesso; nas mesmas datas, França regista um aumento de 33%; em Nova Iorque, entre 11 de março e 18 de abril, o aumento é aterrador: 298%. No país vizinho, ainda na mesma altura, a doença vitimou 12 401 pessoas, dados oficiais. Mas o número total de falecimentos foi de 19 700, ou seja mais 7300 mortes que não foram registadas como tendo sido causadas pela covid-19 – o que não significa que não o foram, dado que os balanços oficiais, na maioria dos casos, contabilizam apenas aquelas que se deram nos hospitais.

Nos outros países a situação é semelhante. Em Paris, por exemplo, o número diário de óbitos dobrou, um aumento bem superior ao que normalmente ocorre no pico de uma má gripe. Em Nova Iorque, quadruplicou, continua o jornal norte americano.

É muito difícil analisar a taxa de mortalidade no meio de uma crise pandémica, por isso, os números nunca serão exatos. Mas estas disparidades entre os dados oficiais das mortes causadas pela doença e o número total de óbitos devem refletir a insuficiente capacidade de testagem, e não um encobrimento intencional, explica o New York Times, além do que já foi referido acima: muitos países só registam as mortes por covid-19 ocorridas em hospitais.

A inexatidão dos dados também se dá pelo facto de se levar dias a estabelecer a causa de morte, criando um desfasamento nas estatísticas, explica o The Economist. Explica a mesma revista que a melhor forma de medir os danos causados pela pandemia é olhar para o excesso de mortalidade. Ou seja, o número total de mortes, por qualquer causa, e a média histórica de óbitos num determinado lugar e época do ano. “Qualquer número relatado num determinado dia irá ser uma subestimação bruta”, sublinhou ao New York Times Tim Riffe, demógrafo do Instituto Max Planck para a Investigação demográfica.

E os desvios dos padrões normais têm sido confirmados em muitos países, segundo os dados publicados pelo Projeto Europeu de Monitorização da Mortalidade, um centro de investigação que recolhe dados de mortalidade em 24 países.

É muito invulgar os dados da mortalidade serem publicados tão rapidamente. Mas muitos países estão numa corrida contra o tempo para providenciar informação mais fidedigna. Nos próximos dias será possível termos “uma imagem muito mais clara”, garantiu ao diário norte-americano Patrick Gerland, demógrafa das Nações Unidas.

 

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