28/11/20
 
 
Alexandra Duarte 20/04/2020
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

As responsabilidades do milagre português

A corrente de solidariedade que esta epidemia desencadeou deverá continuar a ser alimentada e incentivada. O tecido comunitário sai fortalecido e não devemos desperdiçá-lo.

Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se ao milagre português, destacado pela imprensa internacional, como um bom exemplo que os portugueses têm dado no cumprimento das regras de confinamento e de distanciamento social, assim como nas respostas rápidas e incisivas que o Governo foi definindo para este período de crise pandémica.

Temos motivos para estar orgulhosos de nós próprios e pelo facto de não termos chegado a um ponto de rutura do nosso Serviço Nacional de Saúde, que antes da pandemia já se encontrava em sérias dificuldades e merecia críticas ao seu desempenho em várias áreas de especialidades e em unidades hospitalares que não reuniam condições mínimas de funcionamento. Estou a recordar-me da ala pediátrica do Hospital de São João, no Porto, por exemplo…

Não só temos sido cumpridores do que nos foi pedido como nos reinventámos em vários setores: fábricas que passaram a produzir máscaras e a improvisar viseiras, sem que alguma vez o tivessem feito; centros de investigação que concentraram os seus recursos para criar um teste que identifique os anticorpos da covid-19, permitindo o controlo da pandemia e o regresso dos cidadãos à normalidade desejada; restaurantes que passaram a cozinhar para equipas hospitalares…

A par destas adaptações, assistimos à reanimação do voluntariado e à confirmação de que os portugueses são solidários e preocupados com o sofrimento e segurança do próximo. Seja por iniciativa própria, ou inseridos numa instituição solidária, a resposta foi imediata na ajuda a terceiros. Há quem faça máscaras para doar, quem visite os mais velhos e lhes entregue os medicamentos e as compras em casa, quem tenha respondido ao apelo das Forças Armadas e se tenha inscrito como voluntário (7800 inscrições) sem saber muito bem para o que iria ser destacado, Cristiano Ronaldo doou ventiladores, a Federação Portuguesa de Futebol fez uma doação para ajudar o futebol amador, e por aí fora. Tudo bons exemplos dos portugueses.

Mas o dia seguinte ainda não chegou. Neste momento estamos todos numa tábua de salvação à deriva no mar, rodeados de vagas, com o céu escuro que nem breu que se abate sobre nós. O dia seguinte será aquele momento em que alcançamos a ilha e, finalmente, colocamos os nossos pés em solo firme. A seguir vamos precisar de arranjar um sítio para dormir e de comida para nos alimentarmos, já que sobrevivemos ao pior, o que só foi possível porque todos remaram na mesma direção. Agora, já a salvo, vão começar os problemas, com a trama a intensificar-se.

Os tubarões da nossa história serão personificados pelas grandes empresas privadas, que encontrarão neste contexto a oportunidade de se reestruturarem, sem grandes consequências e com um pretexto válido. As pequenas e médias empresas (PME) sofrerão, como já estão a sofrer, com esta paragem, mais do que as grandes empresas. Mas é curioso: são as PME que maior consciência social têm demonstrado na manutenção dos postos de trabalho, evidenciando esforços conjuntos entre entidades patronais e funcionários.

Daqui se conclui que as relações interpessoais se prolongam para além das relações laborais e que, até neste plano, a cooperação comunitária se constata. Esperemos que o Governo mantenha sob escrutínio a atuação das entidades empregadoras que tenham a tentação de seguir um caminho oportunista; e que, em simultâneo, providencie os meios necessários para as empresas que genuinamente se esforçam por ultrapassar esta paragem forçada, sem fazer contas aos apoios que o Estado poderá dar e como podem reclamá-los.

A corrente de solidariedade que esta epidemia desencadeou, iluminando dentro dos portugueses a capacidade de entrega para a qual não havia tempo, deverá continuar a ser alimentada e incentivada. O tecido comunitário sai fortalecido e não o devemos desperdiçá-lo, mesmo quando a nossa vida já não estiver em risco.

Comunitariamente, adotámos um mecanismo de crítica social que funcionou em silêncio, sob olhares de reprovação quando as regras eram infringidas por outros, e que funcionou na perfeição como medida coerciva. Sem alarmismos ou dramas, fomos também exemplares no nosso comportamento social e humano. Resta-nos continuar atentos e exercer a nossa responsabilidade social quando for decretado o fim do estado de emergência.

 

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