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Fim do cerco a Ovar. “Saímos disto com um maior espírito comunitário”

Fim do cerco a Ovar. “Saímos disto com um maior espírito comunitário”

Marta F. Reis 17/04/2020 17:26

Um mês depois, a cerca sanitária em torno de Ovar vai ser levantada. “Se não tivesse acontecido, provavelmente teria sido catastrófico”, diz comandante dos bombeiros. No meio de dias com muito trabalho, a solidariedade manifestou-se de várias formas. “Não nos faltou nada”.

Com a farmácia a atender ao postigo, Jéssica Almeida diz que ainda não sabe bem como estão os ânimos na cidade, mas a notícia de que estará para breve o levantamento da cerca sanitária já lhe tinha chegado. Como vive em Santa Maria da Feira, a grande diferença no último mês foi ter de mostrar o comprovativo à Polícia sempre que tinha de entrar ao serviço ou regressar a casa. “É uma sensação estranha, mas foi pela nossa segurança”, conta ao i por telefone a técnica de farmácia, ao chegar ao fim de mais um dia de trabalho em que se irá repetir a rotina. “Não tem havido muitas filas, mas é um bocado desgastante”, diz. E apesar de não o ter sentido na pele, houve algumas pessoas que ficaram com receio que nestas entradas e saídas para trabalhar pudessem andar a espalhar o vírus. “Não aconteceu comigo, mas ouvi alguns relatos de discriminação”. Já na farmácia, depois da “loucura” dos primeiros dias, o ambiente também acalmou. “As pessoas no início vieram buscar muita medicação, luvas, máscaras e desinfetante”.

À hora de fecho desta edição ainda não era certa a data de levantamento da cerca sanitária, mas a diretora-geral Saúde admitiu nesta quinta-feira que deverá acontecer até ao fim de semana, expectativa que também já tinha sido tornada pública pelo presidente da Câmara de Ovar, Salvador Malheiro. Um mês depois, o concelho que no início de março fez soar os alarmes devido à rápida propagação do vírus na comunidade tem agora uma situação comparável à do resto do país – que entretanto passou a viver também com as regras mais apertadas do estado de emergência e na última semana da Páscoa conheceu de forma generalizada a limitação das deslocações entre concelhos e a obrigação de apresentar os comprovativos que começaram por ser obrigatórios em Ovar. “Ovar foi alvo de medidas proporcionais dada uma dinâmica de doença muito intensa e felizmente a situação indica que já não é uma situação especial. Tem características semelhantes a outras zonas do país”, disse Graça Freitas, confirmando que a proposta de levantamento da cerca sanitária já tinha sido apresentada ao Governo e apontando o fim da medida de exceção para 18 ou 19 de abril, sábado ou domingo.

No último balanço publicado ontem por Salvador Malheiro, o concelho registou até ao momento 595 casos. Morreram 25 pessoas e 60 doentes estão recuperados. Nos primeiros dias de março, o concelho somou rapidamente meia centena de casos e os dados mostram que ainda assim no final do mês chegaram a registar-se mais de 50 novos casos num único dia. A maioria das vítimas mortais foram idosos mas um dos casos mais duros foi o de um adolescente de 14 anos que morreu no Hospital de Santa Maria da Feira. Apesar de ter testado positivo para o vírus, foi apontada uma meningite como causa de morte.

 

Como teria sido?

João Mesquita, comandante dos Bombeiros Voluntários de Ovar, não faz projeções mas acredita que a decisão foi tomada no momento certo. “Se não tivesse acontecido, provavelmente poderíamos ter tido uma situação catastrófica”, diz ao i. Ao longo das últimas semanas, o comandante acredita que a maioria da população cumpriu as regras, apesar de haver deslizes. No quartel, o trabalho disparou, também porque houve a preocupação de tentar tornar o concelho o mais autossuficiente possível, diz. “Habitualmente, num mês, temos 200 ocorrências, neste caso, entre 15 de março e o início de abril, tivemos mais de 300 e houve uma preocupação de tentarmos ser nós a responder quando noutros alturas poderiam ser os corpos de concelhos vizinhos a responder”.

Da saúde às estruturas de apoio social, a resposta foi concentrada no concelho, sob a liderança da autarquia, do hospital de Ovar ao centro de saúde, passando pelos lares ao pavilhão transformado em hospital de campanha. João Mesquita fala de um esforço “sobre-humano” do pessoal mas destaca também a generosidade da população e das empresas na resposta aos apelos que fizeram para resolver o problema da falta de material. “Houve situações muito marcantes como as pessoas virem-nos entregar pacotes de luvas que tinham em casa, virem entregar o pouco que tinham para que não faltasse material que podia fazer falta numa saída ou virem-nos entregar alimentos. A generosidade das pessoas foi fantástica e nunca nos faltou nada”, diz.

João Mesquita recorda também o telefonema premonitório de uma empresa quando andava a fazer as contas aos fatos de proteção. “Estava com poucos fatos e de repente toca o telefone e era uma empresa a dizer que tinha 150 fatos para nos dar”. A ajuda entre vizinhos fica como outra marca dos dias de cerco e um dos idosos que estão a apoiar no concelho foi sinalizado por uma das bombeiras da corporação. “Tornámo-nos se calhar um pouco mais vigilantes dos nossos vizinhos e saímos disto com um maior espírito comunitário e também com uma maior união entre todos”.

Por agora, a vida ainda não regressa totalmente ao normal em Ovar. “Essa é uma mensagem importante a passar: a cerca deverá ser levantada, mas temos todos de cumprir com o estado de emergência”, conclui.

 

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