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Reciclagem. “O futuro não tem de estar todo embalado em plástico”

Reciclagem. “O futuro não tem de estar todo embalado em plástico”

Mariana Madrinha 17/04/2020 08:05

É seguro continuar a reciclar e a Comissão Europeia apela aos países para que incentivem os sistemas de recolha de lixo. Rui Berkemeier, especialista da Zero, lembra que vivemos um período de exceção e pede que os excessos de outrora não voltem após o término da pandemia.

Quando falamos do uso consciente dos recursos que temos à nossa disposição nos tempos que correm, há uma linha que deve ser tida em conta: uma coisa são os materiais de proteção individual; outra, o excesso de embalagens. Este último pode, ainda assim, ser combatido. E apesar do estado de emergência, o mantra continua a ser o de sempre: há que reciclar.

Esta semana, a Comissão Europeia (CE) divulgou um guia orientador para a gestão dos resíduos durante a pandemia que veio reforçar a posição dos grupos ambientalistas: não só é seguro como é desejável reciclar. “Não existe atualmente qualquer evidência que permita inferir que os procedimentos normais para a gestão de resíduos sejam inseguros ou insuficientes em termos de prevenção da infeção por covid-19 ou ainda que os resíduos urbanos tenham um papel importante na transmissão do SARS-CoV-2 ou de outros vírus que afetem o aparelho respiratório”, diz o documento do Centro Europeu para Prevenção e Controlo de Doenças, aqui citado pela associação ambientalista Zero.

As pessoas podem e devem, portanto, manter os hábitos de separação dos resíduos e, para evitar que o vírus possa subsistir nestes ambientes, as regras da reciclagem ganharam mais algumas camadas de segurança. Depois de alguma discussão científica, “já se chegou à conclusão sobre o que fazer com os resíduos recolhidos seletivamente”, diz ao i Rui Berkemeier, especialista da Zero. “Os plásticos, por exemplo – e é isto que se está a fazer em Portugal –, quando são recolhidos, ficam depois 72 horas antes de entrar na estação de triagem”, indica Berkemeier, notando que, desta forma, a gestão dos resíduos urbanos está salvaguardada e de acordo com a legislação europeia.

Relativamente ao facto de agora, em algumas superfícies comerciais, terem regressado os materiais que nos últimos tempos vinham a perder lugar, como as embalagens ou os sacos, o especialista lembra que “esta é uma resposta momentânea a esta situação nova”. “A nossa sociedade nunca passou por uma coisa destas e estamos todos a aprender”, defende. No entanto, pode haver aqui o perigo de, a breve trecho, o caminho feito sem plásticos de uso único e de embalagens desnecessárias nas superfícies comerciais que começava a ser palmilhado a passos cada vez mais largos se torne mais longo. “O que a ZERO defende, com as outras associações ambientalistas, é que não se aproveite esta situação para no futuro se voltar à carga com as embalagens descartáveis. Antes de começar esta pandemia estávamos no caminho inverso, da redução. Mas isto é uma situação pontual”, sublinha.

Aprender as lições E é nos momentos mais difíceis que se aprende. Assim, o especialista acredita que, daqui a uns tempos, serão tiradas conclusões sobre como lidar com este tipo de crises. “Nem tudo o que está a ser feito é bom”, considera, defendendo que a sociedade está, no entanto, a responder da forma que acha que faz sentido. E dá como exemplo a polémica da utilização das máscaras. “É engraçado o que se dizia há 15 dias e o que se diz agora. Isto para dizer que o conhecimento científico vai evoluindo”. Por isso, é importante que haja abertura de espírito. “Claro que tomar medidas mais securitárias, mais conservadoras do ponto de vista da proteção, à partida faz sentido. Mas penso que não será o caminho: o futuro não tem que estar todo embalado em plástico”. 

E, mesmo agora, sem falar dos materiais de proteção, há sempre possibilidade de escolha. “Se alguém vai diretamente a uma padaria”, exemplifica, “não precisa de embalagens extra”. O especialista da ZERO admite, ainda assim, que a necessidade de usar plástico em alguns casos por estes dias legitime, para os consumidores, o uso abusivo deste material no futuro. “Há claramente esse risco, até porque já tem havido movimentações da indústria do plástico no sentido de aproveitar esta situação ” e até para tentar adiar as medidas que iriam entrar em vigor. “Tal não é muito legítimo, até porque o maior perigo não vem daí (do facto de o vírus poder ser transmitido através das superfícies), mas sim da proximidade entre as pessoas”, defende. E reforça: “O plástico pode ajudar em algumas coisas, mas atenção aos abusos: há aqui um lobby muito forte da indústria do plástico que estava a ser fragilizada e que agora se está a tentar aproveitar de forma um bocadinho abusiva”.

Verbo: Reciclar Enquanto a vida não retorna à normalidade, há que continuar, portanto, a insistir na reciclagem. “Os sistemas não pararam de fazer a recolha seletiva”, nota. Em Lisboa, por exemplo, a autarquia parou com a recolha seletiva do lixo porta a porta, mas os cidadãos podem sempre deslocar-se ao ecoponto.

No entanto, e um pouco por todo o país, chegam relatos de que o tempo de recolha do lixo nos ecopontos está a demorar muitíssimo mais do que o habitual. No concelho de Loures, por exemplo, há locais em que os caixotes a abarrotar acabam por resultar em lixo espalhado pelas ruas. “Nas últimas duas semanas, penso que vieram uma vez recolher o lixo dos ecopontos”, diz ao i Miguel Castro, morador de Bucelas, uma das freguesias do concelho, notando que as pessoas se cansaram de ter os resíduos para reciclar dentro de casa e optaram por despejar tudo no lixo orgânico, que é mais vezes recolhido. “Não faz sentido andarem a desinfetar as ruas e, depois, os serviços básicos não funcionarem. Até porque esta é uma questão básica de saúde pública”.

Nesse sentido, a ZERO apela a que as autarquias tomem especial cuidado com os serviço de recolha. Até porque, lembra o documento da Comissão Europeia, reciclar “é fundamental para que não haja um aumento substancial dos custos suportados pelos cidadãos com o tratamento dos resíduos e para que estes possam manter os seus bons hábitos ambientais de separação”.

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